Opinião

A onça, o jacaré e o absurdo


Não há nada de errado com a onça e com o jacaré, animais selvagens. Muito errado é o que está acontecendo conosco, sociedade, tomada por uma ideologia agressiva


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 23 de Junho de 2016 às 16:48

  | Historiador


Menos de uma semana separou a morte de uma criança de dois anos por um jacaré em um resort da Disney do sacrifício de uma onça pintada em Manaus após o evento da passagem da tocha olímpica no qual ela figurou. 

No caso da Flórida, logo que foi encontrado um corpo de bebê no fundo do lago onde ocorrera o incidente, aventou-se de não ser o da criança dada pelos pais como atacada pelo jacaré. Confirmada a identidade do corpo, destacou-se que estava intacto, atestada a causa da morte por afogamento.

Em nenhuma notícia foi explicado que o modo usual desses répteis matarem suas vítimas é afogá-las, depositando as presas maiores, aí incluídos humanos, na lama sob a água, à espera de melhores condições para devorá-las por partes. Até onde foi levada a dúvida de ter morrido a criança por outra causa que não o ataque de um animal selvagem?  

Em Manaus tratou-se de misturar o ato no qual a onça Juma foi fotografada com o seu sacrifício que aconteceu em outras circunstâncias.

No final, como não houve jeito de ignorar o fato de que o evento da tocha e o abate da onça se deram em momentos e locais diferentes, as atenções se voltaram para a morte do animal omitindo-se fatos.

Em nenhuma notícia foi explicado que Juma só foi abatida depois de dois dos quatro dardos disparados com tranquilizantes não terem conseguido acalmá-la, continuando a onça a ameaçar a vida do tratador. E se não houvesse tocha olímpica a que vincular o abate da onça?

E se o tratador, e não a onça, tivesse sido morto? A notícia teria o mesmo tratamento e repercussão?

Não há nada de errado com a onça e com o jacaré, animais selvagens. Muito errado é o que está acontecendo conosco, sociedade, tomada por uma ideologia agressiva nascida da frustração com o descompasso entre expectativas hedonistas e uma perspectiva de crise universal, ambas supridas por uma comunicação quase instantânea.  

Estudada pelo filósofo polonês Leszek Kolakowski, uma nova esquerda que tomou universidades e redações quer uma revolução sem classe trabalhadora; cultua as sociedades primitivas como fonte de progresso; odeia a educação e conhecimento especializados; e  acredita no lumpemproletariado como grande força revolucionária.

Como ele assinala, essa esquerda habita uma situação em que o “marxismo provê alimento ideológico a uma larga gama de interesses e aspirações, muitos deles desconectados uns dos outros”.

O ecorradicalismo é uma expressão dessa revolução total que prescreve que tudo, em qualquer situação, deve ser tomado contra a ordem existente a ser destruída em todos os seus aspectos, sem exceção. 

Qualquer evolução, qualquer fórmula de compromisso ou de conciliação, em que contexto for, neste caso entre homem e natureza, através da conscientização ambiental em prol da proteção da fauna e da flora por medidas de preservação, deve ser negada, como uma trapaça da elite burguesa. 

E essa alucinação ideológica chega sem nenhum pudor à auto extinção, a forma suprema de negação, pois na concepção radical ambientalista, estamos todos, meros viventes humanos, invadindo o habitat de tudo o que é vivo. Simplesmente não temos, enquanto sociedade organizada da forma como está, direito de existir. 

Pelo visto, o que escapou do zoológico ou do seu habitat, para ameaçar os humanos, não foi a onça ou o jacaré: foi o absurdo.