Opinião

A normalidade do absurdo


Uma casta de pseudointelectuais ergueu um muro de deturpação, desinformação, degradação e desconhecimento para manter a sociedade brasileira na ignorância do que ela é e do que lhe acontece


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 15 de Fevereiro de 2018 às 17:34

  | Historiador


Os intelectuais de obras alheias são arrogantes, intolerantes e desonestos.

Adoram citar obras de outros como se fossem verdades universais, sem o menor cuidado de contextualiza-las ou matiza-las. Para eles, a História é um conjunto de verdades de prateleira prontas para justificar as suas crenças.

Detestam a opinião contrária. Diante de uma, lançam-se furibundos não sobre ela, com argumentos, mas contra quem teve a audácia de pensar diferente deles. Para os seus donos, a opinião não é um debate, é uma guerra, que tem que ser vencida a qualquer custo, não importam os meios.

Jamais mostram suas intenções e objetivos. Não cumprem seu papel de esclarecer e informar, ou de pelo menos fazer pensar. E, dissimulados, fazem críticas de fachada ao que, na verdade, desejam propalar, sem coragem de defender o indefensável.

Não é à toa que o Brasil vem se tornando um país cada vez mais difícil de entender, e de se resolver.

Uma casta de pseudointelectuais, enragés de redação, cafetões culturais e tiranetes de cátedra ergueu um muro de deturpação, desinformação, degradação e desconhecimento para manter a sociedade brasileira na ignorância do que ela é e do que lhe acontece.

A mais nova iniciativa dessa cepa perversa é nos convencer que não houve nada de errado no Carnaval do Rio de Janeiro, baseada na lógica torta de que absurdos se justificam pela sua sequência: racismo com o sinal trocado, mistura do religioso com o profano e samba em mausoléus. E assim por diante.

Uma coisa é a sátira, marca indistinta dos festejos populares em qualquer cultura ou sociedade. Ela tem seu lugar até  em uma história das ideias e não se manifesta apenas nos festejos populares, mas particularmente  na literatura.

Que o digam os sermões demolidores de Antônio Vieira (1608-1697), a poesia cáustica de Gregório de Matos (1636-1696) e os escritos ácidos de Lima Barreto (1881-1922), implacáveis contra a hipocrisia dos poderosos. De todos!

Outra coisa muito diferente é a partidarização da sátira, o facciosismo que se mede até pela ausência. Cadê Lula no Sambódromo? Cadê os pixulecos ao lado dos patos? Carnaval, por ser popular, é ecumênico, não uma versão do nós contra eles.

Além disso, sátira no interesse próprio não é sátira, é chantagem. Escola de samba na passarela, usando  dinheiro público pedir mais dinheiro público, é imoral.

Ainda mais na capital de um estado falido, incapaz de pagar seus servidores, de prestar serviços essenciais à população e que se deixou tomar por assaltos, arrastões e até saque em supermercado durante a catarse momesca.

É impossível achar normal a invasão do aeroporto Santos Dumont, o abre alas de sua futura depredação ou de qualquer outro espaço público ao critério do desfile da insensatez.

Mais importante do que a sátira é o que fazemos com ela. O que fazemos com nossa liberdade. O que resultou do seu uso e desfrute. Uma história da sátira vai além dela mesma para se estender à da própria sociedade.

A da França terminou em um ciclo revolucionário que desencadeou uma  guerra mundial e, uma vez esgotado, deixou uma sociedade irremediavelmente dividida e a nostalgia da gloire.

Quanto à Alemanha, fonte inesgotável de estudos de caso sobre o que não fazer, uma coisa é certa: ela não tem nada a ensinar aos Estados Unidos em termos de democracia, com ou sem Trump.

Como alguém já reclamou, o problema é que as consequências vêm sempre depois dos fatos. Cita-los sem discutir o que produziram é pura irresponsabilidade. Relevantes, eles sempre produzem consequências.

O Brasil está errando demais e não há como não haver consequências. Está mais do que em tempo de melhorarmos o nosso entendimento de certo e errado.

A começar por rejeitar a normalidade do absurdo.

IMAGEM: Detalhe de quadro de Escher

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