Opinião

A mensagem da invasão


A Europa precisou dos Estados Unidos, mas sem a Europa os Estados Unidos estariam isolados do mundo e nele jamais seriam a primeira potência


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 06 de Junho de 2019 às 09:21

  | Historiador


Reveste-se de especial importância a comemoração neste ano do desembarque aliado na Normandia, o D-Day. Além de ser o 75o aniversário da operação, a festa tem um toque especial com a visita de Estado de Donald Trump ao Reino Unido, honra que somente dois presidentes norte-americanos além dele receberam, Bush e Obama.

No momento em que sopram no Canal da Mancha, não os ventos que quase impediram a invasão há 75 anos, mas sim os do Brexit, as cerimônias e homenagens que caracterizam esse tipo de visita, diferente daquela que o presidente norte-americano realizou a trabalho em 2017, têm um forte simbolismo.

Ao fazerem o especial convite a Trump coincidir com os festejos do Dia D, os ingleses estão transmitindo uma mensagem, escrita pela Rainha Elizabeth II, a última veterana no poder. Os europeus sempre se perguntaram o que traria a eleição de Bill Clinton, o primeiro dos baby bommers, a geração nascida no imediato pós-guerra.

Sentiam se mais à vontade com os presidentes veteranos da guerra, o último deles George Bush (1989-1993), que entrou na luta como o mais novo piloto da Marinha dos Estados Unidos.

Assim, a partir da última década do século XX, os líderes europeus respiraram fundo sobre como seria a relação com os mandatários da mais poderosa nação do planeta. Ela sempre foi complexa, a começar pela invasão da Europa ocupada pela Alemanha nazista.

Os americanos chegaram na Inglaterra em 1942 de uma maneira muito diferente daquela que os doughboys (1) desembarcaram na França em 1917. Não vinham agora para aprender a combater com ingleses e franceses e nem para usar os seus canhões e aviões.

Desta vez já tinham se mobilizado e decidido que travariam e venceriam uma guerra em escala industrial, empregando divisões de infantaria e blindadas totalmente padronizadas, com uma disponibilidade de equipamentos e suprimentos jamais vista. E exibiam enorme autoconfiança.

Dos poderosos aliados recém-chegados à guerra, os ingleses ouviram horrorizados a ideia de desembarcar na França naquele ano. Foi preciso que Churchill colocasse todo seu peso político para demovê-los daquela insensatez e os convencesse do seu plano predileto, a invasão pelo “baixo ventre” da Europa, na Itália ou Balcãs, partindo da África.

No final de 42, americanos e ingleses desembarcaram na África e, no ano seguinte, liquidaram o Afrika Korps de Rommel, saltaram para Sicília e, ao levarem a Itália à rendição, abriram uma nova frente de guerra que aspirou grandes contingentes alemães, cumprindo a promessa feita a Stalin para aliviar a pressão sobre os russos.

Os resultados das campanhas da África e da Itália em 1943 e a percepção da magnitude das defesas da Muralha do Atlântico na França mostraram que os ingleses estavam certos. Mas os americanos jamais desistiram do golpe mais direto na Alemanha através da França.

Enquanto desenvolviam a guerra no Mediterrâneo, iam acumulando homens e equipamentos na Inglaterra para a almejada invasão da Europa.

O desembarque na Normandia no dia 6 de junho de 1944 foi uma vitória do planejamento, da dissimulação, da logística e da coragem dos aliados liderados pelo General Eisenhower.

No final do “mais longo dos dias”, a maior operação de ataque anfíbio da História havia fincado em terra um corpo de exército de quase 160.000 homens, impossível de ser desalojado pelos alemães.

A notícia ecoou por toda Europa como um dobre de sinos da ocupação nazista, intensificando as ações dos movimentos de resistência.

Nos meses seguintes, a gigantesca mola logística distendida desde as praias da Normandia lançou mais de quatro milhões de homens na França que impuseram uma devastadora derrota às forças alemães, devolvendo-as às suas fronteiras.

Menos de um ano depois do Dia D, a Alemanha se rendeu (8 de maio de 1945), mostrando que os americanos estavam certos.

Porém, a importância do desembarque na Normandia pode ser compreendida pela hipótese de seu fracasso.

Temos aí um leque de pesadelos, desde a queda de Roosevelt e Churchill até o prolongamento da guerra por mais alguns anos, com todas as suas imprevisíveis consequências, passando, quase por certo, por uma configuração geopolítica da Europa no pós-guerra definida pelo avanço das tropas russas. É no que resultaria um insucesso no desembarque na França, quase certo em 42 ou 43.

Por outro lado, na impossibilidade de levá-lo a bom termo antes de 1944, fica claro o acerto de se ter feito o possível àquela altura, com as bem sucedidas ações aliadas no Mediterrâneo.

Com efeito, os desembarques na Itália e na França garantiram no pós-guerra a liberdade e a reconstrução da Europa Ocidental, não só a preservando do saque soviético que devastou o Leste europeu, mas também (e o mais importante) assegurando mercado para os produtos e créditos norte-americanos que impulsionaram a recuperação da economia mundial.

Esse exercício contrafactual serve para mostrar que, cada qual a seu tempo, ingleses e americanos estavam certos quanto à grande estratégia a adotar para vencer a Alemanha na Segunda Guerra.

Já a lição da História que daí se pode extrair é mais ambiciosa. A Europa precisou dos Estados Unidos, mas sem a Europa os Estados Unidos estariam isolados do mundo e nele jamais seriam a primeira potência.

Essa é a mensagem da invasão que atravessou a Guerra Fria e continua mais atual do que nunca.

1 Apelido dos soldados da Força Expedicionária Americana na Primeira Guerra Mundial. (1914-1918).

FOTO: Reprodução/YouTube