Opinião

A mais grave crise da República


Reúne ingredientes que isolados já seriam explosivos. Mas estão todos no palco e a plateia perplexa sem saber o que fazer, como fazer e quando fazer, e com quem contar.


  Por Aristóteles Drummond 17 de Fevereiro de 2016 às 16:00

  | Jornalista


A crise é a maior da história. E a mais completa. Reúne ingredientes que isolados já seriam explosivos. Mas estão todos no palco e a plateia perplexa sem saber o que fazer, como fazer e quando fazer, e com quem contar.

A operação mãos limpas estaria a exigir do Judiciário a criação de câmaras especiais para dar celeridade a esses processos de corrupção a partir das operações da Polícia Federal. 

Como está, a impunidade estará garantida pela própria legislação e a demora da decisão dos tribunais. A opinião pública passou da fase de indignação.

O Judiciário, mais de um ano após a posse dos eleitos em 2014, ainda não julgou contas de campanha. Na vigência da Constituição de 46, a melhor que tivemos, a Justiça Eleitoral tinha prazos cumpridos com rigor.

A crise na economia vai num crescer assustador e a previsão mais realista fala em um final de semestre trágico, com grandes empresas pedindo a Recuperação Judicial, novo nome da concordata, e a inadimplência abalando bancos, como, aliás, já ocorre na Europa.

As consequências no emprego e nas contas públicas são profundas e abalam toda a população. Nas grandes cidades, a crise no comércio, grande empregador, é evidente pela quantidade de lojas fechadas nas ruas e nos centros comerciais. A CNC já estima em mais de cem mil empregos perdidos em um ano.

Na falência do setor público, assumem proporções de calamidade as questões da saúde e da segurança pública.

Um quadro comum em muitos países latino-americanos ou africanos. Candidatos ao primeiro mundo, estamos chegando ao quinto. E tem estatais pagando a seus dirigentes salários e regalias substancialmente aumentados, como em Minas. Falta autoridade, comando, coragem. E sobram comprometimentos que inibem o pleno exercício do poder. 

A democracia é uma vontade popular, garantida pela mídia e pelas Forças Armadas. O Congresso Nacional e as assembleias estaduais, casas onde se chega pela vontade do povo, vivem momento de grande desgaste. E pouco fazem para recuperar credibilidade junto a população .

Ninguém sabe para aonde vamos. Não temos guias que saibam conciliar a Nação. A questão é muito subjetiva, como mostrou o fenômeno Tancredo Neves em 1984, unindo oposição e dissidência do governo, para inaugurar uma transição em paz.

Sua sombra foi de tal monta, que, morto, continuou a ditar as regras da conciliação nacional, apoiada nas Forças Armadas, nas lideranças políticas e na sensibilidade e experiência do seu vice, presidente José Sarney. 
Antes, em 1964, quando o carismático líder Carlos Lacerda quis fazer do movimento que uniu civis e militares instrumento de sua ambição pessoal, que dividiria o país irremediavelmente, foi a determinação do presidente Castelo Branco que barrou o projeto pessoal e manteve a unidade do grupo que assumiu o poder. 

Hoje, carecemos de uma liderança forte, de união, não apenas na política partidária, como nas forças vivas da sociedade, até aqui presentes nos momentos mais graves da República. Militares, empresários e intelectuais.

Perdemos nessa crise referências positivas, como a moeda. A eleição de Fernando Collor, e depois de Lula, frustrou esperanças de um novo Brasil. FHC deixou-se macular no processo da reeleição e agora chega a criticar a eventual prisão do ex-presidente Lula, mesmo diante da confirmação de graves malfeitos.

Em entrevista no número de carnaval da revista IstoÉ, o ex-senador Pedro Simon, do alto de sua experiência de meio século de mandatos e 86 anos de idade, teve a coragem de lembrar que Itamar Franco foi o personagem mais importante de nossa história contemporânea. E foi mesmo, tendo mostrado espírito público em mais de uma ocasião.