Opinião

A longevidade como direito


Faz uma década que identifiquei essa tendência para um estudo. Desde então, a expectativa de vida do brasileiro aumentou dez anos: de 65 para 75 anos, segundo estimativas com base em fontes do IBGE.


  Por Rosa Alegria 24 de Novembro de 2015 às 16:03

  | Futurista, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, EUA


A expectativa de vida tem aumentado em todo o mundo, tornando vidas mais longas, trazendo novos desafios para diversos setores da sociedade e abrindo oportunidades históricas para um mercado ainda muito pouco explorado pelas marcas, varejistas e indústrias.

Graças aos avanços da medicina e à melhoria dos sistemas públicos de saúde, a proporção de idosos cresce a um ritmo sem precedentes e representa uma das maiores janelas de oportunidades já vistas desde o século 20.

Nos meios científicos que estudam o fenômeno da longevidade, há quem afirme que já vivem entre nós  aqueles  que  chegarão aos 150 anos.

O Google se antecipou e está investindo  na medicina regenerativa que promove a extrema longevidade e também estuda a imortalidade  - que tem sido matéria de estudos e previsões de futuristas transhumanistas – estudiosos adeptos à singularidade tecnológica (o crescimento exponencial da tecnologia), e que apostam na integração do corpo humano com a tecnologia colocando fim à morte.

Embora ainda não sejamos imortais, estamos vivendo cada vez mais. Hoje são 20 milhões os que pertencem à população de idosos. Em 2025 serão 64 milhões e, em 2050, um em cada três brasileiros será idoso e fará parte de uma população que vai quadruplicar até 2060, segundo o IBGE.

Faz uma década que identifiquei essa tendência (“A longevidade como direito”) para um estudo multiclientes encomendado pelo setor do varejo. Desde então, a expectativa de vida do brasileiro aumentou dez anos:  de 65 para 75 anos, segundo estimativas com base em fontes do IBGE. 

Nesse novo século, pessoas que antes eram excluídas da vida cultural, social e econômica,  têm vida mais longa. Dessa vez,  não querem abrir mão do direito  de viver melhor.

Vida longa com qualidade  e juventude por mais tempo.  Esse é o mantra dos que já tem prá lá dos 60 anos e que pertencem ao que hoje se denomina “grupo da maturidade”.

Querem viver uma longevidade sustentável, conceito introduzido pela psicóloga Ana Fraiman, especializada no tema. Vida longa mas sem eufemismos do tipo “terceira idade” ou “melhor idade” é a aspiração dos maduros.

Ao viver mais, os maduros (ou  “sêniors”),  passam a ampliar seu universo de interesses e aspirações, fortalecendo sua auto-estima à imagem da juventude, que pode ser expressa pelos seus filhos e netos.

A longevidade, mais do que o resultado da ampliação da expectativa de vida, passa a ser um direito.

Cuidam do orçamento dos filhos e se endividam. Preferem gastar a aplicar o dinheiro. Não estão mais confiando nos fundos de investimento como confiavam antes, claro, porque o mundo tem ficado cada vez mais incerto. Melhor viver e usufruir do momento.

Passam mais tempo com os netos, pesquisam e indicam o que comprar. Recordam-se da juventude porém sem grandes nostalgias. Celebram o raiar de cada dia e não se desesperam facilmente com adversidades.

Saltam de paraquedas aos 80, mantêm e assumem os cabelos brancos (sem vestígio de tintura) aos 70, dominam o mouse do computador, criam blogs, embarcam  em intercâmbios culturais no exterior, algo que pouco tempo atrás se restringia a jovens estudantes, frequentam  a academia quase todo dia, aventuram-se em novas profissões, viajam sozinhos, pedem emprestado a prancha de surfe do neto sarado, turbinam o cérebro com técnicas de memorização, tudo isso como se o tempo fosse apenas um acidente de percurso.

Compram com mais cautela. Ponderam todos os riscos. Têm mais tempo para as compras, divertem-se e interagem nos pontos de venda, encontram-se em caravanas  nas salas de cinema e nos shows musicais,  reúnem-se  nos passeios vespertinos do shoppings, vão aos supermercados quase todos os dias. Não gostam de depender de ninguém e querem ter sua própria agenda.

Essa falange dos sêniors  corresponde a um mercado de R$ 7,5 bilhões (o dobro da população média nacional) - 80% recebe aposentadorias e pensões e 83% vive nas cidades, segundo estudo da consultoria GFK.

Mas enquanto os maduros despertam,  a economia dorme.  Apesar da revolução da longevidade,  o  mercado parece não se interessar em atender as  específicas demandas desses consumidores, que ainda encontram-se excluídos de muitos olhares.

Em geral, as pesquisas de mercado, por exemplo,  não vão além da faixa de 45-54 anos de idade em suas investigações de hábitos e preferências,  como se os maduros já tivessem passado do prazo de validade econômica. Oportunidades sendo desperdiçadas, mas ainda é tempo de acordar.

Plataformas sobre o tema da maturidade como o Lab 60+ manifestam  princípios que definem uma nova realidade dos idosos: envelhecimento não é tabu; idade não é sinônimo de fragilidade; viver não é durar; idade não limita a inspiração. A economia da colaboração não mais se restringe aos jovens.

Iniciativas colaborativas como a Rede Maturis vinculada ao empreendedores sociais da Ipros,  ou a rede Maturity Now,  promovem periodicamente encontros que facilitam o entendimento desse fenômeno e integram pessoas em torno de novos caminhos para viver, conviver, trabalhar, compartilhar e encontrar sentido para uma vida prolongada.

Eu mesma  tenho participado de alguns desses grupos e redes em busca de compreensão sobre o fenômeno da maturidade, a qual estou vivendo e querendo transformar no melhor período já vivido.  Afinal de contas, não há nada mais prático do que pensar em enriquecer o  tempo que nos resta para viver.