Opinião

A hora da verdade


A eventual perda do grau de investimento acarretará diversas consequências. A primeira delas, já visível, é a disparada das cotações do dólar


  Por Roberto Fendt 29 de Julho de 2015 às 12:15

  | Economista.


Por aqui, o reconhecimento de que será impossível atingir as metas cadentes de superávit primário antecipou o que os analistas mais antenados com a realidade nacional já consideravam uma espécie de “morte anunciada”, para usar a expressão de Gabriel García Márquez em “Crônica” com o mesmo título.

Se o reconhecimento melhorou a transparência e a credibilidade da gestão do ministro Joaquim Levy com relação à evolução das contas públicas em 2015 e nos próximos dois anos, o fato não deixa de ter consequências.

A principal delas é antecipar outra “morte anunciada”, a perda do grau de investimento do país. Não se trata de evento imediato, já que somente uma das agências classificadoras de risco pronunciou-se e o fez mantendo a atual classificação, mas sinalizando uma perspectiva negativa par sua próxima avaliação.

Além disso, das três principais agências, somente uma delas, a Standard & Poors, classifica o risco Brasil apenas um patamar acima da categoria de risco especulativo. Para as duas outras, Fitch e Moody’s, há ainda um patamar intermediário entre a classificação de grau de investimento e categoria de grau especulativo.

De qualquer forma, não se trata de assunto trivial. A eventual perda do grau de investimento acarretará diversas consequências, nenhuma delas positiva para o Brasil.

A primeira delas já é visível: a disparada das cotações do dólar no mercado. Embora haja um intervalo entre a desvalorização do real e sua transmissão aos preços internos, eventualmente isso ocorrerá, em um momento em que se esperava uma desaceleração da alta do custo de vida com o enceramento do ciclo de correção dos preços administrados.

A segunda consequência de um eventual rebaixamento da nota de risco brasileira é a perda da confiança dos investidores estrangeiros na capacidade de pagamento do país.

Essa é justamente a finalidade principal da existência das agências de classificação de risco e de suas “notas”. Fundos de pensão estrangeiros e outros fundos de investimentos pautam suas políticas pela situação econômica dos países investidos refletida nas avaliações das agências.

Alguns deles só podem investir em títulos de países classificados com grau de investimento. A perda desse grau não somente impede o ingresso de novos recursos como pode provocar a repatriação de recursos aqui investidos.

Portanto, seria de todo apropriado que os gestores de nossa política econômica emitissem sinais críveis de que as coisas, se não estão boas agora, têm perspectivas de melhorar no futuro. É o que tem procurado fazer o ministro Levy. A torcida é para que tenha sucesso.

Problemas também se avolumam além-fronteiras. Na nossa vizinhança, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, denunciou na última terça-feira à ONU que seu país estaria sendo vítima de “provocações” da parte da vizinha e pequenina Guiana – 0 que lembra as alegadas “provocações” da Polônia que serviram de pretexto para a invasão do país pela Alemanha nazista.

Em seguida à “denúncia”, Maduro pediu que ONU servisse de mediadora no conflito que envolve os dois países em torno da disputa pelo território de Esequibo reclamado pela Venezuela e parte da Guiana. A situação reflete antes de tudo o desespero de Maduro diante das crescentes dificuldades de seu governo bolivariano para lidar com os problemas econômicos do país.

A inflação já ultrapassa 60% e caminha célere para 80% até o final do ano. O PIB está em queda livre. A escassez de alimentos e outros produtos básicos é generalizada.

Agora, Maduro, vendo chegar rapidamente a hora da verdade, adota a tática conhecida de buscar um inimigo externo para aplacar o descontentamento interno. Resta saber se funcionará, já que a população não poderá substituir os produtos que não tem para comprar por uma bravata de seu infeliz governo.

Por fim, não dará em nada a busca de apoio externo para uma pretensão descabida. Quinze países da Comunidade do Caribe (Caricom) apoiaram a posição da Guiana na disputa fronteiriça com base no laudo de 1899 que estabeleceu de forma definitiva a fronteira entre os dois países.

A hora da verdade está se aproximando. Em nosso caso, do Congresso nacional atentar para a gravidade da situação e apoiar o ajuste; no caso da Venezuela, nada há a fazer, exceto aguardar que o longo pesadelo bolivariano desvaneça e o país volte ao leito de uma nação normal.

Podemos ajudar esse desenlace, deixando de lado o apoio ao bolivarianismo e o substituindo por um apoio aos anseios de normalidade do povo venezuelano.