Opinião

A fala errada


É bom que se ouçam e leiam com muita atenção as palavras dos Generais


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 03 de Novembro de 2015 às 09:24

  | Historiador


Os militares se regem por normas muito específicas que os distinguem na sociedade, as mais nítidas hierarquia e disciplina, citadas inclusive no texto constitucional.

Coragem, patriotismo, lealdade, honestidade, responsabilidade e o culto à verdade constituem, junto com outros atributos, o tipo militar, sem o que a sua coletividade seria uma trupe e não uma tropa, muito menos uma instituição incumbida da defesa da Pátria, da garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

Mas engana-se quem pensa que eles, para além dessas características profissionais, sejam essencialmente diferentes, como indivíduos e em conjunto, do restante da sociedade.

Está por acontecer no Brasil um estudo axiologicamente neutro, tal como o feito por Morris Janowitz a respeito da profissão militar nos Estados Unidos (“O Soldado Profissional: estudo social e político”, 1960).

E os bons trabalhos de brasilianistas sobre as forças armadas brasileiras, em particular o Exército, esbarram no abismo cultural e histórico que impede a perspectiva anglo-saxônica de captar as nuances de nossa vida social e política na qual se inserem os militares.

Além de terem suas rivalidades e corporativismos internos, as Forças Armadas, como qualquer grande organização e como instituições que fazem parte do estamento político da Nação, são permeadas em seus altos escalões pela Política que as dirige.

O que se espera é que a solidez das instituições evite o emprego inconstitucional e ilegítimo do poder militar para dirimir questões políticas internas nos momentos de crise.

Mas nenhuma nação está a salvo de grandes crises, causadas externa ou internamente. Não voltemos ao maior caso de populismo militar da História, o do Cabo Adolfo que moeu a autoridade e a liderança do mais profissional corpo de oficiais para levar a Alemanha à loucura da guerra, e da derrota, total.

Vamos para o outro lado do Reno e das Ardenas, para a França, batida mas não vencida em maio de 1940. Foi Pétain, herói da França na 1a Guerra Mundial, que ascendeu ao poder pelo discurso da derrota, para trair sua nação e seus aliados, fundar uma república fascista e dar ordens para fuzilar o General Charles De Gaulle. Como já disse jocosamente, o problema é que as consequências vêm depois.

Está para se instituir um grande mistério no Brasil: o que aconteceu com o General Mourão, Comandante Militar do Sul?  Foi transferido, exonerado ou punido?

Das declarações oficiais, veiculadas em notas e entrevistas, não se chega a uma conclusão. Uma nota do Ministério da Defesa transcreve a carta do Senador que preside a Comissão de Defesa Nacional na qual este pede confirmação de notícias sobre declarações atribuídas ao General Mourão, sem que se conheça a resposta do Ministro às perguntas, dando o caso por encerrado com decisão do Comandante do Exército em movimentar o General.

A entrevista do Comandante do Exército ao jornal O Estado de São Paulo, além da transcrição de palavras do General, parece colocar palavras na boca do entrevistado, que o silêncio corrobora, como “punição exemplar” e “se ver obrigado a demitir”.   

Nesse “momento conturbado”, dentre tantas preocupações, o que deve também preocupar a sociedade brasileira, e especialmente à classe política, é o que o poder político, no caso do Brasil o Poder Executivo, pode fazer com as Forças Armadas, a começar pela possibilidade de usá-las contra a sociedade e as instituições que elas devem defender, e tudo “constitucionalmente”, como tanto se fala agora.

Que tal um novo Ministro da Justiça, bem falastrão, com fama de jurista, amigo de Lula, tietado pela “oposicinha” e audaz o bastante para dar ordens para a Polícia Federal parar de fazer o que está fazendo? E fazendo dupla com um Comandante do Exército bem afinado com ele, pronto para garantir a estabilidade e a segurança?

Em 1937 só foi preciso a cavalaria da polícia do Distrito Federal na frente do Congresso. Hoje, do jeito que as instituições estão “funcionando”, qual delas vai fazer o quê para impedir isso?

É bom que se ouçam e leiam com muita atenção as palavras dos Generais. Qual é a fala errada? A que defende o “descarte da incompetência, má gestão e corrupção” ou a que afirma, com todas as letras, que a “chegada do PT ao poder não  tem responsabilidade nisso, a crise ética no País”?

Do que for a fala errada dependerá o destino do Brasil.