Opinião

A facada de cada dia


O Brasil precisa mudar, mas ainda terá que encontrar forças para suportar as facadas contra a verdade desferidas pelos sicários a serviço do atraso


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 25 de Setembro de 2018 às 18:39

  | Historiador


Não bastasse a intranquilidade de um país em crise que vive uma campanha eleitoral dramática, o partido da imprensa rasgou o que restava da sua fantasia de isenção, equilíbrio e respeito aos fatos.

Os editoriais da revista Época e dos jornais O Globo e O Estado de São Paulo publicados nesta terça-feira (25/09) são um duro golpe na democracia, na medida em que assumem despudoradamente um dos lados da disputa eleitoral, tanto pelo viés ideológico, quanto pelo desrespeito à cidadania dos brasileiros.

O curso dos acontecimentos recentes no Brasil está fazendo com que cada vez mais pessoas com menos de 60 anos se deem conta que correm o risco de ver o movimento do impeachment de Dilma, que testemunharam e muitas delas participaram, ser taxado de golpe em um futuro determinado pelas eleições deste ano.  

Exatamente como aconteceu em relação ao que se passou em 1964, quando o cargo de presidente da República foi declarado vago pelo Congresso Nacional, depois de o seu ocupante se evadir do País por força de um levante armado dos estados de Minas Gerais e São Paulo contra sua atuação ilegítima, irresponsável e subversiva; ao que se seguiu a eleição de seu sucessor pelo Congresso e a instalação de um novo governo, sem qualquer restrição à liberdade de imprensa, que deu inicio a uma intensa negociação com as lideranças políticas para a implementação das reformas que levaram ao maior surto de desenvolvimento e crescimento econômico que o Brasil já viveu em sua história.

É inacreditável que a mentira da implantação de uma ditadura no Brasil em 1964 sirva de argumento a editorial com claros fins eleitorais nos dias de hoje.

Só mesmo o desespero diante do iminente colapso da mentira nessas eleições explica a recorrência dessa falsificação histórica que só prosperou graças à má fé dos ideólogos radicais infiltrados no ensino, na opinião e na política do País.

Falsificação tão grande como a de ser a Constituição de 1988 isenta de culpas pela caótica situação em vive hoje o Brasil, trinta anos depois de sua promulgação.

Como se fosse possível esperar que uma constituinte dominada por relatores de comissões e subcomissões temáticas todos de esquerda pudesse produzir um texto capaz de estimular o crescimento virtuoso da economia.

Como se fosse possível esperar que a adoção de um regime nem presidencialista, nem parlamentarista, mas sim promiscuísta, no dizer de Roberto Campos, não descambasse no presidencialismo de corrupção que hoje tem o País.

É também inacreditável que a Constituição de 1988, considerada à época de sua formulação por inteligências brilhantes como o “avanço do retrocesso” (Roberto Campos), um “ensaio de totalitarismo normativo“ (Miguel Reale), a “constituição da hiperinflação”(Ives Gandra) e “surubocracia anárquico-sindical” (Eliezer Batista), que, na verdade, tornou o País ingovernável seja hoje tida pelos arautos do mesmismo como avanço e garantia de governabilidade.

Em que mundo está essa gente?

É uma consumada alienação, em meio a uma escalada de corrupção, contida a muito custo pela Lava-Jato e pelo impeachment, afirmar que as instituições estão vigiando a aplicação da Constituição.  

Se houvessem funcionado não teríamos chegado à situação em que estamos. Se estivessem funcionando não estaríamos vivendo esses dias de insegurança e profunda preocupação com o destino do País.

O Brasil está tentando encontrar o caminho para a solução de seus graves problemas pelas eleições deste ano, reiterando, mais uma vez, sua fé na democracia.

Mas para isso não bastam as palavras vazias,  as surradas palavras de ordem ou os títulos de livros de outrem usados nesses lamentáveis editoriais e manifesto de um ex-presidente.

Mais do que tudo, são necessárias ações efetivas que resgatem a confiança do povo, profundamente abalada pelos atos e palavras dos que deveriam governá-lo, representá-lo, julgá-lo, ensiná-lo e informá-lo.

O Brasil precisa se equilibrar para seguir em frente.  

Com menos arrogância e mais respeito a todos os cidadãos no exercício de suas garantias, liberdades e escolhas, sejam eles civis ou militares, eleitores ou não de Bolsonaro.

Com menos pedantismo de quem pretende pontificar da cátedra da mentira. A realidade que o sistema de interesses insiste em ignorar no País é muito grave e prescinde da tutela de donos da verdade.

Irrealizável é seguir sustentando um Estado insustentável, impor mudanças de comportamento a uma população naturalmente conservadora, conviver com a corrupção endêmica e assistir impassível à escalada da violência descontrolada no País.

Ilegítimo é pretender deslegitimar a insatisfação e a indignação da população com os desmandos na administração pública e com o desrespeito aos seus mais elementares direitos.

O Brasil precisa mudar, mas ainda terá que encontrar forças para suportar as facadas contra a verdade desferidas pelos sicários a serviço do atraso.

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

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