Opinião

A escolha de Merkel


Ela tem uma perfeita noção de que ao aceitar os migrantes estará contribuindo para o bem-estar da Alemanha


  Por Roberto Fendt 15 de Dezembro de 2015 às 07:21

  | Economista.


O jornal britânico Financial Times acaba de escolher a chanceler alemã Angela Merkel sua personalidade do ano.

Ao fazê-lo, alinhou, entre suas razões para a escolha, a transformação da senhora Merkel, de chanceler cautelosa na líder que, ao tomar posições firmes nas questões da zona do euro e dos refugiados resgatou a imagem da Alemanha como uma nação que, de forma assertiva, passou a determinar sua política externa por princípios, em lugar de expedientes.

Não o fez a senhora Merkel com o entusiasmo e apoio de todos os espectros da política alemã.

É incomum políticos de qualquer país determinarem seus atos – e não os seus discursos – por princípios, no caso da chanceler, princípios cristãos.

Não somente princípios. A senhora Merkel tem uma perfeita noção de que ao aceitar os migrantes estará contribuindo para o bem-estar da Alemanha.

Não sei ela tinha em mente tantos países do outro lado do Atlântico que tiveram na recepção dos migrantes o seu maior motor de desenvolvimento.

O exemplo mais notável são os Estados Unidos, mas todos os países das Américas se beneficiaram de acolher o estrangeiro e com eles erguer nações.

Estranho e estrangeiro têm a mesma raiz. Não é simples ou fácil aceitar a diferença, na cultura e nos hábitos. Inclusive religiosos.

Essa aceitação tem um nome: tolerância. Não seria essa também razão suficiente para lhe dar o título de personalidade do ano?

Mas há ainda outra razão, extremamente importante do ponto de vista da Europa.

A crise da dívida na periferia europeia colocou em jogo décadas de esforços da parte de todos para consolidar um espaço europeu comum – se a perda da identidade de cada país membro.

Foram décadas de uma aproximação originalmente feita entre duas nações que a história separou por três guerras no curto lapso de 70 anos: a França e a Alemanha. Aos poucos, outras nações foram aderindo a essa comunidade de nações em solo europeu.

Reunificada a Alemanha e com a queda do Muro de Berlim, o clamor das nações do Leste por pertencimento a essa comunidade europeia recebeu acolhida no ocidente europeu.

Países com outras tradições, línguas e costumes passaram a conviver juntas sob a bandeira azul com o arco de estrelas douradas ao centro.

Muitos criticaram o que consideraram sofreguidão a entrada de alguns desses países no sistema europeu. O problema agravou-se quando da decisão de criar-se uma moeda comum para os países comunitários.

Nem todos a ela aderiram. Mas países como a Grécia e outros da periferia europeia o fizeram. Logo ficou claro que poderiam endividar-se a taxas de juros alemãs na nova moeda e usar os recursos captados para promover maiores gastos públicos.

Não poderia durar. Quando a hora da verdade chegou, muitas vozes na Alemanha se opuseram a dar, especialmente à Grécia, uma nova chance para corrigir seus desequilíbrios econômicos, tanto internos como externos.

Do lado grego, um novo governo populista decidiu não aceitar um programa de ajuste que consideraram estrito demais.

Se obrigados a engoli-lo goela abaixo, preferiam deixar a União Europeia. O que ocorreria com outros países europeus em situação similar?

Na crise financeira da zona do euro, Merkel foi inicialmente dura com a Grécia e os outros países endividados.

No sul da Europa, foi tida como inimiga; mas recebeu o apoio tanto do público interno como dos governos do norte da Europa.

Outra de suas qualidades é a capacidade de reconhecer que o que pode estar certo ontem não necessariamente será sempre assim.

Isso se aplica não somente à questão do endividamento de alguns dos países europeus, de quem os bancos alemães são credores. O mesmo se aplica à religião.

Confrontada com aqueles que a acusavam de pretender “islamizar” a Europa ao aceitar a entrada de refugiados da guerra civil na Síria, afirmou que os cristãos deveriam parar de culpar os muçulmanos e, em seu lugar, mostrar a força de suas crenças – e defendeu a necessidade do diálogo entre os dois grupos.

Talvez a síntese de seu pensamento esteja em uma frase que certa vez proferiu: “Se agora precisamos começar a nos desculpar por mostrar uma face amiga em resposta a situações de emergência, esse não é o meu país”.