Opinião

A economia global está realmente em apuros?


O efeito geral da desilusão coletiva dos mercados emergentes foi uma virada global de efeito contracionista


  Por Paul Krugman 30 de Outubro de 2015 às 11:40

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Para os países, estar na moda em Wall Street ? ou pior, tornar-se parte de um acrônimo fácil de lembrar ? é como estar na capa da Businessweek ou da Fortune: é sinal certeiro de problemas à frente.

Por isso mesmo deveríamos saber que os BRICs (rótulo que se dá ao coletivo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China) estavam a caminho de um colapso terrível. Isto explica por que os mercados emergentes passaram de heróis a seres desprezíveis da noite para o dia.

Mas, quais as implicações disso para a economia mundial? Os mercados emergentes saíram de cena e os países avançados estão na moda de novo ? então, como ficamos? Fica o dito pelo não dito? Infelizmente, não, porque há uma assimetria importante aqui.

É verdade que todos os exportadores de commodities estão sendo afetados. Contudo, eles estão respondendo de diferentes formas. Tome-se o caso, por exemplo, da política monetária do Brasil e do Canadá. Os canadenses mantiveram as taxas de juros baixas. Na verdade, o Canadá pode até introduzir algum estímulo fiscal se a economia continuar fragilizada.

Já a política brasileira está reforçando a recessão no país: as taxas de juros estão subindo e há um aperto fiscal à vista. Não é que os brasileiros sejam burros. Isto se deve, em parte, ao fato de que eles chegaram a essa situação com uma taxa de inflação relativamente alta, por isso, diferentemente dos canadenses, não estão muito à vontade para depreciar a moeda.

PARESH; UAE/CartoonArts International/The New York Times Syndicate

Contudo, essa situação também é consequência do fato de que os mercados emergentes ainda sofrem, em alguma medida, do "pecado original" ? mercados de capitais subdesenvolvidos e a tendência de tomar emprestado em moeda estrangeira.

Esse pecado não é mais tão grave quanto há 15 anos, quando os economistas Barry Eichengreen e Ricardo Haussman cunharam o termo. No entanto, os empréstimos corporativos denominados em dólares, depois de 2008, ressuscitaram, em parte, esse pecado.

Como os mercados perderam a confiança nas economias emergentes, elas são obrigadas a adotar políticas contracionistas. Ao mesmo tempo, as economias avançadas, que estão recebendo os influxos de capitais, não estão respondendo com políticas expansionistas.

Portanto, o efeito geral da desilusão coletiva dos mercados emergentes foi uma virada global de efeito contracionista. Embora eu ainda acredite que isso não seja suficiente para produzir uma recessão mundial, tenho menos certeza disso hoje do que há alguns meses.

E antes que eu me esqueça: um aumento nas taxas de juros dos EUA ? que não afetaria apenas a economia americana, mas também, por causa do dólar forte, os mercados emergentes ? contribuiria muito para piorar as coisas.

Vilões climáticos

Seguem-se duas histórias que devem ser lidas juntas.   

Em primeiro lugar, não está muito claro por que a Exxon gasta milhões de dólares para evitar uma ação pública contra uma catástrofe em câmera lenta que a empresa sabia muito bem que estava acontecendo. De acordo com a Scientific American, pesquisas da própria Exxon mostraram que o aquecimento global era um problema sério há aproximadamente 40 anos ? mas a empresa decidiu que era melhor tratar o assunto de forma confusa e, com isso, tentar conseguir mais algumas décadas de lucros à custa da humanidade (leia aqui). Quanto cinismo!

Enquanto isso, David Roberts, na Vox, escreveu um artigo (aqui) mostrando a tática macartista que a Comissão de Ciências do Congresso vem usando para perseguir e intimidar cientistas, especialmente, mas não apenas, os que trabalham com o clima.

Se não lidarmos com a mudança climática a tempo de evitar um desastre ? o que me parece mais provável ? não será por que não tínhamos o conhecimento necessário para compreender plenamente o problema, ou os meios para saná-lo. Será por causa do cinismo e da ganância que, dados os riscos, chegam a ser malignos.   

tradução: A.G.MENDES

LEIA, ABAIXO, A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]

Paul Krugman 30/10