Opinião

A Dinamarca é realmente um bom modelo?


O país combinou impostos elevados e fortes benefícios sociais com níveis sólidos de emprego e produtividade elevada


  Por Paul Krugman 26 de Outubro de 2015 às 16:15

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Um dos grandes momentos do recente debate presidencial do Partido Democrata, ao menos para aqueles de nós que acham que os EUA têm alguma coisa a aprender com outros países, foi a discussão sobre a Dinamarca.

O senador Bernie Sanders disse que gostaria que os EUA fossem mais parecidos com a Dinamarca, enquanto Hillary Clinton foi um tanto cética a esse respeito, mas concordou que o país escandinavo é um bom modelo. E é mesmo!

A Dinamarca combinou impostos elevados e fortes benefícios sociais (entre eles, educação superior gratuita, atenção à infância por meio de inúmeros subsídios etc.) com níveis sólidos de emprego e produtividade elevada. Essa combinação mostra que Estados com programas fortes de bem-estar social funcionam.

Porém, é bom notar que a Dinamarca tem passado por maus pedaços desde a crise financeira global de 2008. Depois de uma forte retração econômica, a recuperação que se seguiu foi muito frágil.

Na verdade, o PIB per capita local está bem abaixo dos níveis pré-crise, assim como na Espanha e em Portugal, embora com muito menos sofrimento. Então, o que está acontecendo?

A resposta, em parte, talvez se deva aos níveis elevados da dívida interna. Contudo, a Suécia também tem níveis de dívida interna elevados e ? apesar dos equívocos monetários cometidos ? se saiu bem melhor (veja o gráfico abaixo).

Minha interpretação é que a Dinamarca está pagando um preço alto por acompanhar o euro ? o país não faz parte da zona do euro, mas conduz sua política monetária como se fizesse ? e por impor uma austeridade fiscal excessiva nos últimos anos, ainda que os custos dos empréstimos sejam extremamente baixos.

Nada disso influencia significativamente a questão do bem-estar social: a política macroeconômica de curto prazo é outra história. No entanto, caso se queira pensar na Dinamarca como modelo para todo o mundo, fica aí um lembrete útil. 

Teorias de conspiração monetária
De acordo com o medidor de opinião pública do Huffington Post, não há sinal algum de uma volta em direção aos candidatos do establishment no Partido Republicano.

Na verdade, o triunvirato dos loucos ? Donald Trump, Ben Carson e Ted Cruz ? tem cerca de três vezes o mesmo apoio dado a Jeb Bush, Marco Rubio e John Kasich. Incrível. Por que será que os eleitores do partido não se dão conta de que essa gente é maluca? Talvez porque as coisas que eles dizem não sejam assim tão diferentes do que dizem os republicanos supostamente sãos. 

Um exemplo: Donald Trump saiu agora com uma teoria de conspiração monetária. Diz ele que o motivo pelo qual o Federal Reserve Board não aumentou as taxas de juros não tem nada a ver com inflação baixa e ventos globais contrários ? na verdade, Janet Yellen, presidente do Fed, está apenas fazendo um favor político ao presidente Obama (leia o artigo da Bloomberg aqui). Que coisa louca, não é mesmo?

Mas, até que ponto isso vai realmente contra o que disseram em 2010 o deputado Paul Ryan e o professor de economia John Taylor na Investors.com, isto é, que a flexibilização monetária [o tal quantitative easing] não era um esforço de boa fé para dar sustentação a uma economia debilitada, e sim uma tentativa de "salvar a política fiscal" impedindo a crise fiscal que as políticas de Obama supostamente produziriam?

A diferença entre os republicanos tradicionais e tipos como Trump, em outras palavras, não tem muito a ver com o conteúdo do que dizem.

É mais uma questão de tom, ou seja, de como dizem. A ideia é nos convencer de que Bush, Rubio e Ryan são moderados porque insinuam suas teorias da conspiração, em vez de proclamá-las aos berros, e porque falam de cara limpa em mágica econômica [ou voodoo economics, segundo a qual a redução dos impostos das pessoas mais ricas estimularia a economia gerando mais recursos para o estado].

Por que, então, deveríamos ficar surpresos com a base do Partido Republicano, que não entende por que isso os torna candidatos mais plausíveis?   

TRADUÇÃO: A.G.MENDES
FOTO: Michael Drost-Hansen/New York Times