Opinião

A decadência brasileira


Há uma evidente analogia entre o que acontece com a política e a crise que afeta o futebol


  Por Paulo Saab 06 de Julho de 2015 às 11:17

  | Jornalista, Bacharel em Direito, professor universitário e escritor.


“O Brasil não pode se recuperar porque já não entende nada sobre sua própria identidade. São demasiados anos sem uma ideia (de jogo) que concilie sua tradição e sua natureza. Fazia tempo que o Brasil não sabia como se chamava”.

À primeira vista, e excluindo-se o que está entre parênteses (de jogo), a frase poderia ser aplicada ao que ocorre no Brasil no campo da sua vida política, econômica, institucional.

Mas, na verdade, trata-se de parte da análise que o jornal espanhol El País sobre o futebol brasileiro, conforme tradução e difusão de Ugo Giorgette, no Estadão.

O contexto é mais amplo e busca explicar o declínio do Brasil no cenário do futebol mundial, onde sempre foi potência e hoje se situa - opinião minha - no nível secundário do esporte.

Assim como o São Paulo, tricampeão mundial de clubes já foi também a maior potência em termos de clube no solo pátrio e hoje figura bem ao lado de clubes, times, diretorias, estádios, de segunda linha. Este é assunto, todavia, para outro momento.

Falo da decadência insofismável do futebol brasileiro como um todo, que dissecado pela imprensa espanhola, indica: ”com a conivência de políticos oportunistas, com a cumplicidade perversa de meios de comunicação desprovidos de senso crítico, a CBF gira num redemoinho de auto complacência, ineficácia, malversação e estupidez”.

É óbvio que, ao se referir à cumplicidade perversa “de” meios de comunicação e não “dos” meios de comunicação, El País está se referindo ao sensacionalismo emotivo que a Globo, detentora dos direitos de transmissão dos jogos da Seleção brasileira, impõe na busca de audiência que sustente seus bilionários contratos de patrocínio.

No todo se pode dizer que a mídia em geral é fomentadora de emoção, sem que haja contrapartida do futebol que a Seleção apresenta já faz tempo.

Segundo Ugo, El País “o que acontece no campo não é imune à corrupção”.

O Brasil todo, nos dias de hoje, e embora isto já venha acontecendo há décadas e exacerbou na era Lula, em busca de sucesso pessoal e de grupos, especializou-se em utilizar o patrimônio público (no geral, e no caso, o futebol brasileiro) em favor do enriquecimento quase sempre ilícito de alguns.

Esses alguns são muitos, e prejudicam a maioria da população brasileira, desviando verbas de interesse público para cofres particulares.

O Poder Público pátrio e muitas e muitas organizações da sociedade civil, sem caráter oficial, mas vivendo de recursos também oriundos do tesouro popular, como no futebol, estão sendo gerenciados por pessoas e grupos cujos compromissos são exclusivamente pessoais, voltados para si próprios e, pior de tudo, sem nenhum pudor, constrangimento ou vergonha na cara, para desfigurar o Brasil da forma como estão fazendo.

Somente as manifestações populares maciças, ordeiras, pacíficas, exigindo mudança total, em tudo, poderão propiciar o ambiente político para, nas urnas, e na consciência da imprensa sem olho na publicidade oficial e da audiência emotiva, dar aos despudorados dirigentes a rota desejada pelo brasileiro comum.

Da honestidade, da seriedade, da probidade. Da honra. Por ora eles morrem de rir disso tudo.

O caminho da educação, de dar à massa capacidade de entender, discernir, se tornar crítica, interessa a poucos.

Mas, é a única saída para o Brasil se livrar dos oportunistas, demagogos, interesseiros e sanguessugas que consomem seu sangue em favor de sua riqueza pessoal. Ou de quem representam.