Opinião

A covid-19 e a ‘cidade invisível’


Sem medidas que permitam proteger a população mais pobre para reduzir as contaminações e mortes pelo vírus, o atendimento hospitalar vai perder a corrida contra a covid-19


  Por Marcel Solimeo 25 de Maio de 2020 às 18:39

  | Economista


Interessante matéria do jornalista Cezar Xavier do último dia 20 informa que, segundo dados da Prefeitura, São Paulo tem 1.728 favelas, com cerca de 400 mil famílias e mais de 2 milhões de pessoas. Destaca que, ao contrário das duas maiores e mais visíveis, Paraisópolis e Heliópolis, que dispõem de alguma infraestrutura, lideranças articuladas e recebem ajuda de organizações do entorno, a grande maioria tem carências básicas, problemas sanitários graves e, muitas delas, estão sujeitas a desastres naturais, como inundações e desabamentos.

O título deste artigo se baseia em reclamação de líderes comunitários, de que a forma como são divulgados os dados da covid-19, por bairros, e não pelo local onde efetivamente ocorreram as mortes, “invisibiliza” as favelas. A reclamação faz muito sentido porque se os locais das contaminações e mortes fossem mais detalhados, permitiriam ações mais específicas para minimizar as ocorrências. 

Dados da prefeitura mostram o número de mortes pela covid-19 por bairros, divididas pelos 20 mais pobres, onde se localizam as favelas, e 20 mais ricos, nos quais a infraestrutura pública e as condições de renda são mais elevadas. Essas tabelas permitem algumas observações importantes.

No período de 17\04 a 14\05, as mortes pelo vírus chegaram a 2.373, sendo 1.558 nos bairros mais pobres e 815 nos mais ricos, ou seja, 66% do total na periferia e 34% nos demais.

Esses números já permitem constatar que a situação é mais grave onde predominam as favelas, como se advertia desde o início. O quadro é mais preocupante, no entanto, pois em 17\04 as mortes nas áreas mais pobres representavam 40% do total, aumentaram para 44% em 30\04 e para 66% em 14\05.

Os dados mais recentes deverão, seguramente, mostrar aceleração ainda maior das mortes na periferia, uma vez que o impacto do isolamento nessas regiões é pequeno, pois as condições sanitárias, de renda e habitacionais não permitem, no geral, sequer isolar os contaminados, ou mesmo observar as condições de higiene recomendadas.

Como afirma o autor da reportagem, “toda e qualquer medida pensada pelas autoridades é insensível à realidade dessas populações. Falam em quarentena, quando um pequeno barraco abriga seis pessoas. Falam em higiene, quando comprar frascos de álcool gel é algo absolutamente supérfluo para quem come arroz e feijão, sem mistura, sem mencionar a total ausência de saneamento básico e oferta de água encanada. Muitas famílias sequer têm um banheiro digno. Falam em home office ou estudo on-line, quando as pessoas nunca tiveram internet ou viram um computador dentro de casa. Falar em compras por delivery na favela soa como piada.”

As autoridades precisam esclarecer o que fizeram, fazem e irão fazer para atender às populações das regiões mais pobres. A única notícia recente a respeito foi o anúncio de aumento dos leitos e UTI em algumas áreas da periferia, o que é muito importante, mas não é suficiente.

Sem medidas que permitam proteger a população mais pobre para reduzir as contaminações e mortes pelo vírus, o atendimento hospitalar vai perder a corrida contra a covid-19. Paraisópolis está dando um exemplo de que é possível minorar as dificuldades.

Continuar a considerar o isolamento como única alternativa, usar expedientes como o dos feriados, não parece o melhor caminho. Ameaçar com mais restrições não vai mudar a realidade de que as empresas estão esgotadas financeiramente e o desemprego crescente agrava os limites financeiros, físicos e emocionais das pessoas.

Já passou da hora de se buscar um diálogo entre todas as partes para encontrar uma saída organizada do isolamento. Caso contrário, corre-se o risco de que cada um busque alternativas para sua sobrevivência de forma desorganizada. Chega do isolamento.

Hayek dizia que “A liberdade individual é inconciliável com a supremacia de um objetivo único ao qual a sociedade inteira tenha que ser subordinada de uma forma completa e permanente”

Os cidadãos já cederam muito de sua liberdade e têm o direito de participarem das decisões. 

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IMAGEM: Pixabay