Opinião

A candidatura inútil


Para o PT há muito a ser destruído, desfeito e apagado para que ele tome o poder de fato no Brasil, um processo que logo colocaria de lado o nominal candidato Haddad, mera marionete de Lula


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 01 de Outubro de 2018 às 08:00

  | Historiador


Não existe prova maior da disfuncionalidade do atual sistema político brasileiro do que a possibilidade de um candidato do PT vencer as eleições presidenciais no Brasil, apenas dois anos depois de ter sido afastada a presidente da República do mesmo partido que foi responsável pelo maior caso de corrupção da História.

A combinação de interesses, ideologia e corrupção que levou o País a uma crise sem precedentes é exatamente a mesma que agora atenta contra a democracia e a soberania da Nação.

Não há outro nome para a sujeição da vontade e da representação de um povo ao mal que destruiu o seu patrimônio, a sua riqueza e as suas esperanças.

O pior é que nem políticos, nem instituições e nem imprensa se opuseram à marcha da estupidez no Brasil. Ao contrário, a maioria dela participou sem o menor pudor.

Para detê-la momentaneamente, em apoio aos procuradores, juízes e policiais da Lava-Jato, foi preciso que a sociedade se levantasse e fosse às ruas, à revelia dos que detêm o poder, a autoridade e a informação no País. Foi apenas uma batalha vencida em uma guerra que alcançará o fim da História.

Porém, os adversários da liberdade e da democracia no Brasil não se deram por vencidos com o impeachment. Ainda nas últimas luzes do processo, o petismo togado garantiu que a presidente deposta conservasse direitos políticos negados pela mais elementar interpretação da Lei. E, em seguida, começaram a construir a pedradas e agravos, desfechados a torto e à direito, a narrativa golpista do golpe.

É exaustiva e penosa a sequência de golpes que o PT assestou na democracia brasileira ao longo desses dois anos, desde que foi apeado do poder. Custa acreditar que uma agremiação partidária envolvida em tantos crimes e que perdeu tanto espaço político seja hoje capaz de se apresentar como uma opção viável nessa eleição presidencial, pela via do jogo democrático.

Mais do que uma disfuncionalidade sistêmica, na verdade, o que está ocorrendo é um ataque em larga escala contra o Estado de Direito democrático no Brasil.

O PT, mobilizando os seus apoiadores incrustados em todos os escalões dos Poderes e se valendo de sua vasta rede de colaboradores na mídia, na intelectualidade e no grande negócio, com efeito, está  conseguindo desbordar o jogo democrático legal e legítimo do País para se impor à sociedade.

A tentativa de um ministro do STF em autorizar a entrevista de Lula na prisão com base na jurisprudência do absurdo; o escárnio ameaçador de um José Dirceu solto e livre para desmoralizar a Justiça e conspirar contra as instituições; e o programa de governo autoritário do PT não deixam a menor dúvida de que há uma concertação contra a democracia no Brasil.

A sequência de despropósitos que está desmanchando o Estado brasileiro e o que ele representa para a sociedade tem a mão de profissionais. Profissionais do caos, no qual a esquerda revolucionária ao longo da História sempre apostou todas as suas fichas.

A História não se repete. Jamais. Mas deixa lições.

Marx estudou e teorizou a Revolução Francesa e as subsequentes revoluções até a Comuna de Paris para consolidar algumas de suas principais teses. Lenin criou uma doutrina para a esquerda revolucionária nunca mais desperdiçar a oportunidade de tomar o poder em um ambiente de caos, para o qual seus seguidores obrigatoriamente devem contribuir.

Leszek Kolakowsky, respeitado filósofo polonês que sentiu na própria carne a opressão soviética, autor da mais ampla e profunda obra sobre o marxismo, pensando como europeu do final do século XX, alertou que “doutrinas filosóficas que tenham desfrutado de considerável popularidade nunca morrem inteiramente. Elas mudam seu vocabulário mas sobrevivem no subterrâneo da cultura; e embora sejam dificilmente visíveis elas ainda são capazes de atrair pessoas ou aterroriza-las. O marxismo pertence à tradição intelectual dos séculos XIX e XX, e como tal é obviamente interessante, junto com suas infindáveis e repetidas, muitas vezes grotescas, pretensões de ser uma teoria científica. Todavia, essa filosofia implicou em algumas consequências que trariam indescritível miséria e sofrimento à humanidade”.

Como estamos vendo nos trópicos sul-americanos repetir-se dramaticamente com a Venezuela.

O PT, por tudo que fez e promete fazer é um partido marxista, até a raiz. Desde as origens de seus fundadores, profissionais da revolução inteiramente dedicados à desconstrução da sociedade em todas as suas expressões.      

É difícil para as pessoas normais, ocupadas com seus afazeres compreenderem o pensamento dessa gente. Por mais competentes, inteligentes e capazes que sejam em suas áreas profissionais, tratando-se de conspiração para a tomada do poder, elas não são páreo para os profissionais do caos, particularmente em um país no qual a maior parte dos intelectuais, aquela categoria de pessoas que deve pensar e explicar a sociedade, comunga com eles ou se sujeita a eles.

Gente de renome da política nacional foi manipulada pelos profissionais do caos. Getúlio, JK, Jango, alguns notáveis do regime militar e certos  príncipes da Nova República cometeram o erro de pensar que estavam manipulando os manipuladores, os quais, se por um lado não conseguiram alcançar seus objetivos, por outro estiveram perto de fazê-lo, sendo até cedo para dizer se fracassaram ou não.

Para o PT, a eleição de 2018 não é um fim em si mesmo. Vencendo ou perdendo, para o partido, ela é apenas uma etapa.

Para seus operadores importa mais criar as condições para a tomada do poder, e nenhum caminho lhes é mais favorável do que a implantação do caos.

Caos econômico, com a refutação ou obstaculização sistemática no Congresso e no STF de qualquer proposta ou medida de reforma, deflagração de greves e paralisações aparentemente a esmo, sabotagens e invasões.

Caos político, possível de se instalar já nas eleições por conta da inexplicável inépcia das autoridades em dar respostas consistentes às preocupações com o sistema de votação eletrônica, do qual está afastado o Exército Brasileiro com a não assinatura de convênio para verificação das urnas.

Caos social, pela desmoralização sistemática das polícias, da Justiça e do Ministério Público no enfrentamento da pandemia bandida que se espraiou a consideráveis áreas urbanas, impondo sua própria lei, prejudicando negócios e cobrando um custo insuportável em vidas humanas, tudo por culpa da leniência e tolerância do Estado com o crime.  

 A simples vitória de Haddad nessa eleição abriria a porta do caos, sem que, como se disse anteriormente, a instalação de um novo governo petista seja para o partido algo determinante.

Para o PT há muito a ser destruído, desfeito e apagado para que ele tome o poder de fato no Brasil, um processo que logo colocaria de lado o nominal candidato Haddad, mera marionete de Lula.

Em contrapartida, repetindo à exaustão que não há polarização nessa eleição, mas sim uma escolha entre liberdade e ditadura, é preciso afirmar que a vitória do candidato liberal não significa a resolução dos graves problemas do País, mas tão somente um primeiro passo para a sociedade enfrentá-los pelo resgate da política, pela valorização do trabalho e pela defesa dos verdadeiros valores do povo brasileiro.

Mas antes há que se bater o PT nas eleições, cuja questão crítica neste momento não é o que os analistas chamam de voto útil.

Ignorando o que está em jogo, muita gente está praticando o voto esportivo, pretendendo se divertir com sua liberdade de escolha até o segundo turno das eleições, e aí então votar para valer.

Tão desavisados quanto esses eleitores que pensam ter diversas opções, muitos candidatos acreditam que, uma vez vitoriosos, exercerão seus mandatos, ou que terão maior expressão política se mantiverem suas postulações até o fim, independentemente do resultado da eleição para o cargo de presidente da República. Por tudo que é o PT, está claro que não.

Eles não se deram conta de que se Haddad vencer as eleições -o atalho petista para a tomada do poder -terão apoiado ou protagonizado uma candidatura tão inútil quanto o seu voto.

IMAGEM: Thinkstock

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