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Vender alimentos frescos pode ser o próximo filão do e-commerce


Pesquisa revela que quase um terço dos consumidores digitais deseja comprar itens destas prateleiras. Conheça os desafios das empresas que já atuam nesse nicho


  Por Italo Rufino 03 de Agosto de 2017 às 13:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Em junho, a Amazon anunciou a intenção de comprar a Whole Foods, uma das maiores redes de varejo de alimentos saudáveis do mundo. 

A transação de US$ 13,7 bilhões, que ainda depende da aprovação dos acionistas da Whole Foods e de órgãos regulatórios, deve ser selada ainda neste ano. 

“Milhões de pessoas amam a Whole Foods Market porque oferece os melhores alimentos naturais e orgânicos e torna divertida a alimentação saudável”, afirmou Jeff Bezos, fundador e presidente da Amazon. 

Como explicou Bezos, o investimento bilionário da gigante do comércio eletrônico numa rede de produtos perecíveis é justificado devido à demanda dos consumidores. 

Vale lembrar que a empresa de Bezos já possui um serviço de assinatura de produtos perecíveis batizado de Amazon Fresh. 

No Brasil, essa demanda também tem crescido. De acordo com um estudo da Euromonitor Internacional, entre 2009 e 2014, o mercado de alimentação voltada à saúde cresceu 98%.

Há poucos meses, um levantamento conduzido pela Mindminers, startup especializada em pesquisas digitais, apontou que, quando questionados sobre quais produtos gostariam de comprar online, 28% dos consumidores responderam “alimentos”. 

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DESAFIOS NO E-COMMERCE

TERRA, DA SBCV: EXPECTATIVA DE QUALIDADE, LISTAS E ENTREGA

De acordo com Eduardo Terra, fundador da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), vender alimentos frescos na internet possui três grandes desafios.

Primeiro: acertar a expectativa de qualidade do consumidor. Por não ser um produto padronizado, as lojas precisam criar mecanismos para o cliente saber exatamente como o produto vai chegar a sua casa. 

Uma fruta, por exemplo, possui diferentes níveis de maturação e pode ter gente que prefere mais ou menos madura.

Se numa feira livre a escolha do produto se dá pelo toque, cor e cheiro, o mesmo ainda não é possível numa compra online. 

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Segundo: a lista de itens que compõem uma cesta de compra de alimentos. Devido a diversidade e quantidade de produtos, a jornada do consumidor pode ser longa e maçante por ter de escolher diferentes produtos a cada compra. 

Terceiro -e provavelmente o mais importante -, é a entrega. A operação logística de produtos perecíveis é complexa e cara, o que faz com que o frete seja alto e restrinja o mercado em potencial. 

A entrega requer carros com sistema de refrigeração e agilidade na relação entre fornecedor, loja e consumidor, para garantir o frescor dos alimentos. 

Para Terra, uma alternativa para o alto custo do frete é o sistema de compra pela internet e retirada em loja, comum em redes como Tesco e Carrefour em países da Europa, principalmente Inglaterra e França. 

O serviço funciona como um drive-thru de redes de fast-food, com áreas no estacionamento da loja dedicas a retirada das compras. 

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STARTUPS INVESTEM NO NICHO 

Há três meses, foi fundada em São Paulo a Pede Sabores, loja virtual que oferece cerca de 150 itens entre frutas, legumes e verduras

Atualmente, a empresa atende a cidade de São Paulo com entregas em até um dia útil. O frete, subsidiado, é fixado em R$ 16. Compras acima de R$ 180 têm frete grátis. 

E-COMMERCE PEDE SABORES: FRUTAS E LEGUMES COM ENTREGA EM UM DIA ÚTIL

A empresa possui 400 usuários que realizam compras recorrentes. 

No e-commerce, os consumidores podem montar sua própria lista ou escolher 21 kits de produtos, recomendados por nutricionistas, com itens que variam de acordo com perfis de compra, como kit solteiro, família ou bebê, ou para ocasiões especiais, como lista para fazer caipirinha ou fondue. 

Os kits facilitam a jornada de compra do consumidor, um dos tópicos apontado pelo consultor Terra, e incentiva compras recorrentes, uma vez em que há a opção de fazer a assinatura dos produtos – modelo utilizado por um terço dos consumidores da Pede Sabores.

O cliente também pode determinar, num campo de observação, como deseja os alimentos, como grau de maturação, cor e consistência. 

Para garantir a qualidade na entrega, a empresa possui parceria com um grande distribuidor que atua no Ceagesp. O parceiro conta com infraestrutura de separação de alimentos, câmaras frigoríficas e caminhões refrigerados. 

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Até o fim de 2017, a Pede Sabores pretende investir R$ 1,5 milhão e vender 1.000 kits de produtos por dia. 

De acordo com Mauricio Costa, fundador da Pede Sabores, a escolha por atuar no segmento tem a ver com pouca competitividade –uma vez que outros segmentos do e-commerce, como moda e eletrônicos, já possuem marcas consolidadas.

A inspiração para o negócio veio da China, com a FruitDay, empresa que importa frutas do mundo inteiro e as revende de forma online no mercado asiático.

Fundada em 2006, a Fruitday tem crescido a taxas exponenciais e conquistou mais de 95 milhões de dólares de fundos de capital de risco.

Questionado sobre uma possível concorrência no curto prazo, Costa diz que grandes redes de varejo, que atuam na venda de produtos de alto volume e pouca margem, não são uma grande ameaça. 

“Vai prevalecer empresas que souberam captar e usar dados sobre hábitos de compra para compreender e se relacionar com o consumidor e proporcionar experiências personalizadas”, afirma o empreendedor. 

FUNDADORES DA PEDE SABORES: EMPRESA QUER SE CONSOLIDAR COMO E-COMMERCE DE ALIMENTOS FRESCOS

Outra empresa que atua no segmento é a Supermercado Now, que mantém um aplicativo baseado em geolocalização que permite ao consumidor ter acesso a mercados próximos a sua casa, realizar compras e receber os produtos em casa em duas horas.

Atualmente, quase metade dos itens comprados por meio do aplicativo é de produtos frescos, sendo 30% frutas, legumes e verduras e 21% frios e carnes. 

Em vez de ser um concorrente do varejo físico, o Supermercado Now se posiciona como um aliado para reduzir custos e dar agilidade a um sistema de entregas sem o comércio ter que criar uma estrutura própria de e-commerce.

FOTOS: Thinkstock e Divulgação/empresas