Negócios

Veja o futuro do setor varejista na visão de quem vive o varejo


Mais concentração e competição e menor rentabilidade são previstos para as empresas, na opinião de quase 600 líderes ouvidos por Maurício Morgado, coordenador do FGVcev


  Por Fátima Fernandes 10 de Março de 2021 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Diante de tantas incertezas sobre o futuro da economia no país e no mundo, qualquer sinal de tendência pode ajudar o empresariado a tocar o seu negócio. Eis algumas pistas.

No mundo do varejo, a concentração e competição devem aumentar, a rentabilidade deve ficar igual ou diminuir, e o e-commerce, disparar, num prazo de três anos.

Esses movimentos foram identificados em levantamento realizado pelo Centro de Excelência em Varejo (FGVcev) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV.

Em conjunto com a Gouvêa Experience, foram consultados, no segundo semestre de 2020, quase 600 profissionais ligados ao varejo, de fundadores e presidentes a diretores e gerentes.

Para 79,1% deles, a competitividade entre as empresas deve aumentar, assim como a concentração (para 57,2% deles). Para 75,2%, a rentabilidade deve ser mantida ou diminuir.

“De fato, ao mesmo tempo em que o comércio eletrônico amplia o mercado de atuação das empresas, aumenta também a concorrência”, diz Fábio Bentes, economista da CNC.

A rentabilidade do setor, diz ele, tende a ser menor, considerando que o varejo digital, em expansão, já possui rentabilidade menor do que a do físico.

Para Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo, o aumento da concentração e da competição já se vê com a expansão da  Americanas e do Magazine Luiza.

“Quanto maior a concorrência, menor as margens”, afirma ele.

Os varejistas acreditam que o ecossistema de negócios da Amazon e do Alibaba terá presença no Brasil, de acordo com Maurício Morgado, autor da pesquisa e coordenador do FGVcev.

“O Magazine Luiza e o Mercado Livre representam este movimento”, afirma.

Para a maioria dos ouvidos, os efeitos da covid-19 devem perdurar por um bom tempo, podendo desorganizar a estrutura de alguns setores do varejo.

“O varejo de moda, de fato, vai levar um tempo maior para se recuperar. Enquanto o consumidor não tiver a confiança de ir para o shopping e para as lojas de rua, vai sofrer”, afirma Tito Bessa, presidente da Ablos, associação que reúne as lojas satélites de shoppings.

Enquanto isso, quem ganha força é o e-commerce. Para 86% dos consultados, o número de consumidores digitais deve crescer fortemente nos próximos anos.

Para eles, em três anos, a participação da venda on-line no faturamento total das empresas deve chegar a 35,8%, em média, o que significa ser multiplicado por quatro até 2023.

“A omnicanalidade (integração de todos os canais de contato com o cliente) ganha força nos próximos anos, especialmente depois do intenso processo de digitalização das empresas verificado durante a quarentena”, afirma Morgado.

O home-office e as aulas virtuais também devem provocar, para 64% dos ouvidos, mudanças na estrutura do comércio, favorecendo os pequenos negócios nos bairros.

“Para eles, áreas como as das avenidas Luís Carlos Berrini e Paulista poderão perder fluxo devido à consolidação do home-office”, diz Morgado.

Como já foi identificado por especialistas em varejo e empresários do setor, deve haver uma migração de lojas que estão próximas de escritórios para os bairros.

Quem mais deve sofrer com este movimento são os shoppings, como o Vila Olímpia, o JK Iguatemi e o Cidade São Paulo, mais dependentes de clientes dos escritórios.

“Cada um desses shoppings tem cerca de 50 tapumes espalhados. As vendas despencaram nesses locais. A Avenida Faria Lima também está um deserto”, afirma Bessa.

Bessa, que é sócio da rede TNG, acaba de fechar uma loja no shopping Vila Olímpia. “A venda ali estava um quarto da de antes da pandemia”, afirma ele.

AMBIENTE ECONÔMICO

Quanto às perspectivas econômicas, o levantamento do FGVcev mostrou muitas incertezas.

Para 55,8% deles, a inflação deve continuar baixa, para 52,7%, o crédito ao consumidor, facilitado, e a confiança do consumidor em relação ao futuro, baixa.

Para 51,9%, a taxa de juros real deve se manter próxima de zero.

Os líderes do varejo acreditam, em sua maioria, que a renda do trabalhador brasileiro não deve crescer – somente 31,9% deles acreditam em algum aumento.

Com este cenário, não dá para ser muito otimista em relação ao consumo.

“Parece que os respondentes ficaram meio em cima do muro em relação ao ambiente econômico. As apostas são mais conservadoras”, diz Morgado.

Os consumidores, de acordo com os consultados, devem cobrar cada vez mais das empresas respeito à diversidade de gênero, racial, política e social (para 72,6% deles), responsabilidade social (70,8%) e sustentabilidade ambiental (69,8%).

“Ao que tudo indica, os varejistas estarão cada vez mais atentos a diversos stakeholders”, afirma Morgado.

MEIOS DE PAGAMENTO

Tecnologias que envolvem formas de pagamento, eliminando intermediários, devem ganhar mais força para 73,2% dos entrevistados.

“Eles acreditam também que surgirão no Brasil os super Apps, como o WeChat na China, originalmente um aplicativo de mensagens (similar ao WhatsApp), que evoluiu para um ecossistema que permite aos consumidores conversar, navegar e efetuar pagamentos.”

Os líderes do varejo também apostam no uso de tecnologias de compras por comando de voz, o voice commerce (Alexa, Siri e Google Assistant).

Também acreditam (52,8% deles) que a educação e o treinamento por meio virtual superarão em número de alunos os modelos presenciais.

“Em relação aos próximos três anos, na opinião dos entrevistados, a vida do varejista ficará, no mínimo, mais emocionante”, diz Morgado.

 

IMAGEM: Thinkstock






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