Negócios

Vai levar tempo para Uber obter lucro no Brasil


Executivo-chefe da companhia no país, Gui Telles afirma que empresa precisa de parceria e suporte do poder público para continuar crescendo


  Por Bárbara Ladeia 13 de Abril de 2016 às 13:30

  | Editora, a jornalista é especializada em Gestão, pós-graduada em Negociação (Unesp), fez cursos na The Wharton School (EUA), FGV e Escola de Inovação em Serviços


Nos últimos meses, o duelo entre Uber e táxis é um dos assuntos mais comentados nas esquinas de São Paulo.

Ao passo que motoristas e usuários da startup defendem com unhas e dentes o inovador transporte particular via aplicativo, os taxistas e representantes da categoria não se cansam de apontar a falta de regulamentação e ilegalidade do serviço - partindo inclusive para a violência.

Esse é um daqueles dilemas insolúveis do novo capitalismo –a tecnologia cria um infinito de novas possibilidades tirando os partidários da economia tradicional de sua zona de conforto competitivo.

Para Gui Telles, diretor geral da Uber no Brasil, esta briga por mercado não faz sentido.

“Os serviços são complementares, não são opostos. O número de alvarás de taxis continuou igual em Nova York”, disse o executivo em palestra no 29º Fórum da Liberdade, em Porto Alegre (RS). “O que acontece é que mais pessoas mudam de comportamento, deixam o carro em casa e usam nosso serviço.”

Um levantamento apoia o argumento de Telles. Em setembro do ano passado, o Departamento de Estudos Econômicos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica apontou, em estudo, que não há elementos econômicos que justifiquem a proibição de novos prestadores de serviço de transporte individual.

“Para além disso, elementos econômicos sugerem que, sob uma ótica concorrencial e do consumidor, a atuação de novos agentes tende a ser positiva”, complementa o estudo.

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Apesar do receio dos taxistas, a startup ainda não conseguiu o equilíbrio financeiro e, segundo Telles, “vai levar alguns anos para dar resultado, especialmente no Brasil”. “Estamos em fase de crescimento e não sabemos quando vamos ter lucro.”

Estão em operação no país o UberX, UberBlack, UberBike, UberPet e UberSul - e ainda há uma infinidade de produtos a serem implantados. Hoje são mais de 10 mil motoristas no país – o compromisso é chegar aos 50 mil até outubro de 2017.

A dificuldade no recrutamento de motoristas é, hoje, a principal dificuldade na gestão do aplicativo.

Ao contrário do que pode parecer, a ausência total de regulamentação é hoje um entrave para o crescimento da empresa. Em entrevista, Telles explica é fundamental que o Estado trabalhe em parceria com a iniciativa privada. 

Hoje a presença excessiva do Estado dificulta o crescimento do Uber?
Não. O que a gente tem feito desde o começo é trabalhar junto com o poder público e isso é normal. É função do poder público é questionar, é um processo natural. É uma coisa muito nova e uma regulamentação como essa que a gente quer criar para o Uber não é uma coisa que nasce da noite para o dia. É um processo feito a seis mãos entre poder público sociedade e empresas?

Seria possível existir Uber sem regulamentação específica?
Acho pouco provável. O Uber coloca todo um processo para selecionar os melhores motoristas profissionais, existe uma preocupação altíssima com qualidade. Uma empresa nova que vem e depois de algum tempo entra nesse mercado, ignora tudo isso e começa a pegar qualquer pessoa, pode comprometer o sistema inteiro. Você passa a ter motoristas em que não confia e vai ser muito difícil distinguir o que é Uber e o que é a outra empresa. Existe sim o papel do poder público, mas é sim sustentar a inovação. 

O primeiro passo foi trabalhar as empresas para entender como funciona esse mercado, depois levantar como funciona no restante do mundo –  já existem regulamentações em grande parte das áreas onde a gente atua. Em um primeiro momento até uma consulta pública colocando isso em pauta para ouvir a sociedade – realmente, um trabalho a seis mãos.

O resultado dessa consulta já saiu, houve muitos comentários positivos e agora a gente espera que com a votação seja criada ma regulamentação que suporte serviços como o da Uber, que permita que essas mudanças de mobilidade associadas a oportunidades de geração de renda possam ser prolongadas.

O importante é não criar nenhum tipo de regulamentação superficial – não adianta olhar o sistema privado e tentar colocar ele dentro de uma ótica pública. qualquer tipo de barreira artificial vai acabar com as iniciativas – o que a gente quer é construir junto e é isso que a gente vive hoje em São Paulo. 

Há previsão de quando o Uber começará a dar lucro no Brasil?
Adoraria saber, mas não tenho previsão. Depende de crescimento, como qualquer startup – começa levantando dinheiro e tem de investir. Só depois de alcançar um tamanho crítico é que começa a dar dinheiro. Enquanto isso levanta bilhões para bancar as operações. Estamos investindo pesado no Brasil.

Qual o maior problema do Uber hoje?
Nosso maior defeito é não conseguir trazer as pessoas certas para expandir na quantidade que eu gostaria. A gente fica muito triste quando percebe os clientes reclamando por tempo de espera ou preço dinâmico. Tudo isso é porque não estamos conseguindo trazer motorista no tempo que a necessitamos. Não estamos conseguindo expandir para outra cidade no tempo que a gente precisa.

Nunca abriremos mão de segurança e qualidade, então nunca vou trazer mais motoristas só para diminuir tempo de espera e diminuir preço dinâmico. Vou sempre controlar para garantir que sempre os melhores estão entrando na plataforma e só os melhores tão se mantendo, mas as vezes isso gera um tempo de espera maior ou um preço dinâmico temporário.

* A jornalista viajou a Porto Alegre a convite do Instituto Ling