Negócios

Uma lenta metamorfose dos shoppings


Com menos lojistas, eles tendem a abrigar laboratórios clínicos e serviços, como praças de alimentação. É um dos diagnósticos levantados na ACSP


  Por João Batista Natali 24 de Maio de 2018 às 16:45

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Nos últimos cinco anos, criaram-se em todo o país 105 novos shopping centers. Mas, entre eles, as lojas ainda vazias representam 41% do espaço.

Essa vacância coincide com a lenta mudança da vocação dos shoppings. Em lugar de uma predominância de lojas de varejo, eles se tornam locais de lazer e serviços (laboratórios de exames clínicos, agências de turismo, cinemas e praças de alimentação).

Muitos varejistas de shoppings estão vendendo seus produtos online, mas as entregam em suas lojas físicas. Com isso, procuram vender um pouquinho mais com a presença física do cliente.

Essa tendência foi levantada nesta quinta-feira (24/1), em reunião do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo, coordenado por Edy Kogut, vice-presidente da entidade.

Outro fator interessante quanto aos shoppings. Naqueles que foram abertos até 2012, e que já estão na linguagem do varejo “maturados”, é mais difícil para os varejistas negociarem o custo da ocupação.

O fato é que as lojas estão perdendo espaço. Em cinco anos, e são dados para todos os shoppings brasileiros, diminuiu em 48% o número de lojas de roupas e calçados.

Com isso, os shoppings tendem a se transformar, em dez anos, em centros de convivência e de conveniência, com as compras reduzidas a espaços bem menores.

Nos Estados Unidos, disse outro participante do encontro, a previsão é de que, dentro de dez anos, a metade dos shoppings venham a fechar.

O QUE CRESCE NO COMÉRCIO

Em termos mais gerais, o encontro na ACSP verificou que eletrodomésticos, tablets e veículos são os produtos que lideram a tendência de alta nas vendas.

Mesmo que algumas delas sejam muito significativas – como a venda de televisores, com alta de 53%, em razão sobretudo da Copa do Mundo -  a verdade é que as percentagens são calculadas sobre uma base bastante deprimida, em razão dos três anos seguidos de recessão.

Quanto ao setor imobiliário para empresas, há hoje uma vacância, em termos nacionais, de 21% dos escritórios de luxo.

Nas farmácias, embora a uma velocidade menor, em abril elas  aumentaram suas vendas em 1,21%.

Além da concorrência pelas vendas online, que elas próprias promovem, as grandes redes do setor entregam-se a um plano de ocupação física de corredores importantes dos bairros.

Elas antes apenas abriam uma loja se pudessem faturar R$ 300 mil ou mais. Hoje o fazem, mesmo que faturem um terço dessa quantia.

A ideia é impedir que cresça o número de farmácias independentes, incapazes de operar permanentemente com prejuízo.

O varejo de material de construção continua no negativo. Mas, em termos regionais, os números são diferentes. No Nordeste, o setor cai 10%, no Centro-Oeste, 9%, e no Sul apenas 2%.

O setor de construção apresenta uma curiosidade. O que hoje mais se constrói são projetos do programa Minha Casa, Minha Vida. No entanto, por uma questão de perfil do crédito, são unidades vendidas apenas pela Caixa e Banco do Brasil.

Os bancos privados, com maiores exigências, dificilmente entram nesse mercado.

INDÚSTRIA

Com relação ao setor industrial, há como maior novidade, no primeiro trimestre de 2018, a forte alta das exportações. Foram 19% a mais de manufaturados.

Alguns dados, no entanto, merecem cautela. Um dos grandes bancos constatou que em abril a produção industrial interna cresceu em 8%, diante do mesmo mês no ano passado.

Mas parte dessa diferença se deve ao fato de abril de 2018 ter tido três dias úteis a mais que em 2017.

Um detalhe preocupante está nas primeiras avaliações sobre os efeitos na produção da greve dos caminhoneiros. Montadoras de veículos, por falta de peças, já deixam de produzir num terceiro turno.

Quanto aos bancos, eles fazem duas constatações. A primeira é de que o governo não criou instrumentos para direcionar o crescimento econômico. Está bem mais preocupado com a questão fiscal.

A inflação baixa não se traduziu por um aumento da demanda do mercado interno.

A segunda constatação diz respeito a certo ceticismo quanto à possibilidade de eleição de um candidato presidencial do centro.

Outra constatação é de que o setor financeiro, bastante concentrado (92% do crédito é dado pelos grandes bancos), não tem interesse em baixar os juros na proporção da queda da Selic.

O mercado tem poucas alternativas. As cooperativas, por exemplo, que tinham apenas 3% dos contratos, hoje têm perto de 10%. E as fintechs têm por enquanto um peso bem marginal.

Os grandes bancos, no entanto, já perceberam que das fintechs pode surgir alguma concorrência, e se apressam em patrocinar uma geração delas.

Uma dessas instituições, por exemplo, está gerando 230 dessas empresas em sua incubadora.

 

FOTO: StockSnap/Pixabay - Creative Commons