Negócios

Um passo atrás nas vendas do e-commerce paulista


Mesmo tendo crescido acima do varejo físico, o faturamento de vendas das lojas na web é impactado pela recessão e tem alta de apenas 1% no acumulado até agosto


  Por Karina Lignelli 14 de Outubro de 2015 às 18:40

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Demorou, mas aconteceu: a inflação, a alta dos juros, a queda na renda e o desemprego atingiram o comércio eletrônico paulista.

De janeiro a agosto, as vendas no Estado de São Paulo, que respondem pela maior fatia do comércio eletrônico (22%), tiveram alta de apenas 1% ante igual período de 2014. Para efeito de comparação, o faturamento do setor crescia a uma taxa média de 38,9% ao ano, no período de 2001 a 2014.

Na comparação  com agosto de 2014, houve um recuo de 10,1%. A recessão aos poucos chega ao e-commerce, principalmente a partir deste ano. Em 2014, o faturamento do e-commerce cresceu 18% em relação a 2013.   

Os dados são da “Pesquisa Conjuntural de Comércio Eletrônico” (PCCE), divulgada nesta terça-feira (14/10) pela FecomercioSP. Realizado com a E-bit Buscapé, o estudo incorpora informações do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) das 16 delegacias regionais da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP).  

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Com base nisso, a participação do faturamento real (descontada a inflação) do comércio eletrônico paulista passou de 2,5% em julho, para 2,3% em agosto – a menor já observada desde o início do ano. Na comparação de agosto com o mês julho, houve uma redução de 2,1%. 

“Esse foi o fundo do poço”, afirma Pedro Guasti, presidente do Conselho de Comércio Eletrônico da FecomercioSP, ao avaliar a previsão de desempenho ruim no terceiro trimestre de 2015. 

Se a projeção para o comércio total, que consta na Pesquisa Conjuntural do Comércio Varejista (PCCV), aponta para um faturamento real de R$ 44,38 bilhões de janeiro a agosto de 2015, a PCCE estima faturamento de R$ 1,03 bilhão. 

Já o tíquete médio das compras online ficou em R$ 370,92. Ao todo, foram feitos 2,7 milhões de pedidos - o menor valor desse ano, de acordo com a pesquisa.  

Guasti afirma que, com a deterioração econômica, a renda das famílias foi corroída pela inflação. Além disso, a piora do desemprego impactou as vendas do varejo como um todo. 

“Pela primeira vez, o e-commerce sente os impactos negativos da conjuntura econômica atual, e os resultados devem ficar muito aquém dos dois dígitos de anos anteriores”, diz. Pela estimativa revisada da E-bit, o setor deve crescer até 15% em 2015, puxado principalmente pela Black Friday.  

CONTRASTES

Nas 16 regiões analisadas pela PCCE, há uma diferença visível entre os perfis de compras do interior e da região metropolitana de São Paulo. 

No Estado, o tíquete médio em agosto ficou em R$ 371. Já o maior tíquete médio é o da região de Ribeirão Preto (R$ 424,64), seguida por outras oito - entre elas, Litoral, Sorocaba e São José do Rio Preto.  

Por outro lado, embora seja responsável por mais de 50% do número de pedidos do e-commerce, a capital paulista registrou o tíquete médio de R$ 348,01, o menor da pesquisa. 

Isso porque, segundo Guasti, os paulistanos já são familiarizados com o e-commerce e, por isso, compram de tudo. “Mesmo que sejam itens de valores menores, a frequência de compra é maior.”

GUASTI: QUALIFICAÇÃO PARA VENDER MAIS/FOTO: FERNANDO NUNES/DIVULGAÇÃO

A capital é líder em número de pedidos, com 1,067 milhão deles. Em segundo lugar, Campinas registra 225,3 mil pedidos. 

Em relação à participação do e-commerce paulistano no varejo total, de 2014 para 2015, as regiões que tiveram crescimento percentual significativo foram as com forte presença do agronegócio.

Exemplos são Campinas, Araçatuba, Presidente Prudente, Taubaté e São José do Rio Preto entre outras. Nessas regiões, a alta média de um ano para outro foi de 0,5 ponto percentual (p.p.).

"São regiões onde o hábito de comprar pela internet também é recente - o que também justifica o crescimento", diz Guasti.

Já na região do ABCD, que sofreu os impactos da escassez do crédito – e da consequente queda nas vendas de veículos, o que gerou centenas de demissões nas montadoras – o e-commerce registrou a maior queda em participação: 0,8 p.p.. 

QUALIFICAÇÃO

Questionado sobre os demais impactos da crise no e-commerce, como fechamento de lojas virtuais e possíveis demissões, Guasti diz que não há estatísticas: hoje, segundo afirma, há uma grande rotatividade em qualquer setor da economia e no e-commerce não é diferente.

Ele cita dados do Sebrae, que mostram que 80% das micro e pequenas empresas fecham em dois anos por despreparo e falta de planejamento. Isso se repete no comércio eletrônico, devido ao perfil semelhante das lojas.

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Mas nem tudo parece perdido. "Com a crise, existe agora um aumento de qualificação, de mais empreendedores e empresários procurando fazer cursos, em busca de conhecimento para atuar de forma mais efetiva nesse cenário, o que é positivo.”

Daniel Cardoso, sócio-diretor da Universidade Buscapé Company, confirma. Em 2015, segundo ele, houve uma alta de 15% a 20% na procura por cursos voltados ao e-commerce profissional. 

“Claramente aumentou o número de empresários que já têm lojas físicas e buscam no comércio eletrônico um fôlego extra para suas vendas.” E esta tem sido a principal dica para o lojista driblar a crise. 

Ilustração: Willian Chaussé