Negócios

Supermercados enfrentam alta de preços até semanal


Carla Tavares (foto), gerente comercial da rede Violeta, diz que preço do feijão Camil subiu 60% desde outubro. É apenas um exemplo da inflação de custos que atinge também outros setores


  Por Fátima Fernandes 11 de Fevereiro de 2016 às 08:30

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Num cenário recessivo é de se esperar que os preços sofram uma pressão de queda, até como um estímulo ao consumo. O que se vê em 2016, porém, é uma tendência completamente oposta, principalmente no setor de alimentos.

Desde dezembro passado, os fornecedores do supermercado Violeta, com cinco lojas nas zonas Norte e Oeste de São Paulo, têm apresentado listas de preços com aumentos entre 10% e 15% ao mês, em média.

Os reajustes estão mais concentrados em produtos da cesta básica, como arroz, feijão e farinha de trigo, e nas linhas de congelados, produtos de higiene, limpeza e óleos, de acordo com Carla Tavares, gerente comercial do Violeta.

Há casos de produtos que a alta de preços supera a média entre 10% e 15% ao mês. “Os preços do arroz e do feijão estão subindo toda a semana”, afirma.

Ela dá um exemplo: em outubro de 2015, a rede Violeta pagava R$ 3,85 pelo quilo do feijão Camil tipo 1. O preço subiu para R$ 4,80 em novembro, R$ 4,99 em dezembro, R$ 5,17 em janeiro e R$ 6,16 em fevereiro. De outubro até fevereiro a alta resultou em 60%.

Para contornar os reajustes, que são generalizados, os supermercados estão buscando a substituição de marcas ou simplesmente a troca por produtos similares. Isso, quando é possível.

“Não tem outro jeito, até porque o orçamento do consumidor está cada vez mais apertado”, diz ela.

Há 12 anos no centro de São Paulo, o supermercado A., que prefere não ser identificado, vive a mesma situação.

A loja sempre vendeu a bolacha Bono, da Nestlé, por menos de R$ 2, pois costumava pagar entre R$ 1,29 e R$ 1,39 pelo pacote de 200 gramas.

Hoje, o supermercado adquire o produto por R$ 1,70 e comercializa por R$ 2,29 o pacote que, aliás, tem menor peso (140 gramas). Se vender por menos de R$ 2 o supermercado vai ter prejuízo.

Nos últimos anos, o preço do Toddynho, da Pepsico, vendido na loja não passava de R$ 1,49. Hoje, o achocolatado é vendido por R$ 1,79.

“Listas novas de preços são apresentadas pelos fornecedores quase toda a semana. Tive de deslocar uma funcionária do caixa somente para cuidar de reajustes de produtos para não vender com prejuízo”, afirma a sócia do supermercado que prefere permanecer no anonimato.

Quem costuma frequentar supermercados vai notar que, atualmente, não é possível encontrar todas as marcas de todos produtos que as lojas costumavam oferecer. Sempre falta uma ou outra marca de um ou outro produto.

Isso está ocorrendo, especialmente, por conta da queda-de-braço entre as indústrias e os comerciantes em torno de listas de preços.

“Estamos tentando segurar o máximo os repasses nas discussões com os fornecedores, mas a pressão neste início de ano está muito forte”, afirma a gerente comercial do Violeta.

Essa pressão foi identificada pelo IBGE neste início de ano. A inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), atingiu 1,27% em janeiro, a mais alta para o início do ano desde 2003. A maior pressão veio dos alimentos.

INFLAÇÃO DE CUSTOS

O que os supermercados enfrentam neste momento é o que os economistas chamam de inflação de custos, como reflexo da alta do dólar e dos reajustes de preços administrados, como água, energia, que ocorreram em 2015, de acordo com o economista Fábio Silveira, diretor de pesquisa da GO Associados.

“O lojista que vai renovar o estoque de vinho importado, por exemplo, e pagará R$ 4 por dólar, não R$ 3, como no ano passado. A situação se repete com a reposição de chocolates importados. E quando aumenta o preço do importado, abre-se espaço para a subida de preços de produtos nacionais. É assim que funciona o mercado”, diz Silveira.

É exatamente este momento que os supermercados estão vivendo no início deste ano. A boa notícia, na avaliação do economista, é que a pressão por aumento de preços deve persistir por mais um ou dois meses.

“Neste período deve encerrar o ciclo de inflação de custo, como reflexo da alta de reajustes de energia, água, e os preços deverão ser mais influenciados pela demanda”, diz Silveira.

Com a expectativa de a taxa de desemprego bater em 10% é bem provável, de acordo com o economista, que os preços fiquem mais contidos. “A não ser que a taxa de câmbio suba para R$ 4,50, o que não acredito. Aí o filme seria outro.”

É bom lembrar, de acordo com Silveira, que, há um ano, o câmbio estava entre R$ 3,20 e R$ 3,30. “E ninguém vive impunemente com uma alta de 60% do dólar em um período curto”, afirma.

"Com esses aumentos de preços, não vai ser fácil manter o ritmo de vendas", diz Carla. Até porque no início do ano o consumidor, tradicionalmente, fica com o orçamento ainda mais apertado por conta de gastos extras, como a matrícula escolar, o material escolar, o IPVA e o IPTU.

“Estamos vivendo um momento crítico e delicado. É um ano que vai ser preciso se reinventar, criar alternativas, fazer promoções, campanhas para não deixar a venda cair”, afirma.

O Violeta decidiu fazer parte de uma campanha patrocinada por 40 fornecedores de supermercados para estimular o consumo.

A cada R$ 40 em compras, o cliente recebe um cupom para concorrer a R$ 1 milhão em prêmios, que incluem casa, carros, motos e barras de ouro.

A campanha ‘Marcas Campeãs’ teve início no dia 1º deste mês e se estende até 20 de abril, com sorteios pela loteria federal. “É uma forma de não perder a presença do consumidor na loja e manter o consumo.”

ELETROELETRÔNICOS

A situação não é muito diferente no varejo de eletroeletrônicos, um dos setores que mais sofreram com a recessão.

Uma das maiores redes de lojas de eletroeletrônicos de Minas Gerais, a Zema, adotou, a partir deste ano, a política de encontro pessoal com os fornecedores para evitar reajustes de preços.

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“Não vamos ficar parados. Sabemos que não será um ano fácil, mas vamos criar oportunidades para os consumidores”, afirma Márcio de Freitas Silva, gerente de compras da Zema.

No final de janeiro, ele esteve em Ubá, em Minas Gerais, para negociar preços com seis fornecedores de móveis da cidade. “Conseguimos segurar os reajustes até março, quando vamos conversar de novo com os fabricantes”, diz Silva.

A loja também conseguiu adiar até o mês que vem reajustes de 3% a 10% que estão sendo feitos pelas indústrias de produtos eletroeletrônicos.

Computadores, notebooks, tablets e smartphones também estão mais caros. Além da alta do dólar, o que tem influenciado os aumentos de preços desses produtos é o fim da Lei do Bem, que zerou a alíquota de PIS/Cofins, de 9,25%, que incidia sobre a venda desses produtos no varejo. O varejo voltou a pagar a alíquota. E, como consequência, também o consumidor.