Negócios

"Sou uma psicóloga com MBA"


Ao criar um modelo de negócio para serviços de psicologia, a paulistana Fátima Macedo desbravou um nicho ainda pouco explorado no setor de saúde


  Por Inês Godinho 23 de Julho de 2015 às 12:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Em julho passado, a psicóloga Fátima Macedo esteve em Viena para representar o Brasil no 34º Congresso Internacional de Legislação e Saúde Mental. Diferentemente da maioria dos participantes, ela não chegou apenas com uma bagagem acadêmica.

Fátima criou e preside há nove anos a Mental Clean, empresa que deu forma a um novo segmento na área de Recursos Humanos, os programas corporativos de saúde emocional e dependência química. 

Corporações como a Unilever, Alcoa, Metrô SP, Melhoramentos, Vale e Amil representam boa parte de sua carteira de clientes. Nos últimos quatro anos, o faturamento da empresa, segundo afirma, cresceu 536%.

Foi neste período que a empreendedora, inquieta com o desenvolvimento da empresa em um setor ainda embrionário, começou a procurar apoio de instituições como o Sebrae e de programas de educação empresarialcomo o 10.000 Mulheres, da Goldman Sachs Foundation. 

“Sou uma psicóloga que, em vez de fazer mestrado, cursou MBA em negócios da saúde”, brinca Fátima. Em 2014, ela foi selecionada para participar da segunda turma do Winning Women, o programa desenvolvido pela firma de serviços profissionais EY para apoiar empresárias com alto potencial de crescimento.   

“SOU UMA PSICÓLOGA COM MBA”

Há 20 anos, nada indicava que ela iria para a área de saúde e muito menos que se tornaria uma empresária. Estudava administração de empresas, mas um drama familiar a fez repensar as escolhas: “Minha irmã é bipolar e, na época, não se conseguia fechar um diagnóstico. Perambulamos dois anos por consultórios, o que causou um impacto familiar e financeiro enorme.”

Inconformada com a dificuldade, decidiu estudar psicologia em busca de respostas. No quinto ano, quando iniciou a clínica, já estava se dedicando a casos com diagnósticos complexos.

A futura empresa começou a se delinear quando um médico da Kibon, no final da década de 1990, a procurou com o caso de uma funcionária que, há sete anos, penava com uma depressão. “Constatei que o diagnóstico estava errado. Desde então, passei a receber pacientes encaminhados pela empresa.” 

Junto com a clínica, Fátima seguiu uma carreira em RH, o que se tornou fundamental para o seu entendimento do mundo corporativo. Este conhecimento teve aplicação quando foi convidada para uma concorrência da Unilever, em 2004, para atender um programa inédito de saúde mental que estava sendo desenhado para a subsidiária brasileira.

Ainda com a cabeça de profissional autônoma, foi forçada a abrir uma empresa quando recebeu o convite para coordenar todo o programa. Nesse momento, ela teve clareza de que sua busca pessoal havia se transformado em uma oportunidade de mercado. 

“Criei a Mental Clean para melhorar a qualidade do atendimento de saúde mental e oferecer um serviço para que as famílias conseguissem diagnóstico e tratamento sem passar por uma peregrinação", afirma. Quebrar o estigma em torno do assunto e melhorar a capacitação dos profissionais da área passaram a fazer parte de seus objetivos.  

Para suprir as lacunas em gestão, foi cursar um MBA em negócios de saúde. O curso a ajudou a entender os programas de qualidade de vida e promoção da saúde, que ganhavam espaço na época. 

Na Unilever, ela treinava os gestores para lidar com o problema em suas equipes e capacitava as equipes de saúde e de recursos humanos. Do lado do paciente, providenciava o tratamento adequado e fazia o gerenciamento de caso. “O modelo que desenvolvi para a Unilever começou a fazer sentido para as empresas”, diz. 

“SE QUISER VENDER SUA EMPRESA, EU COMPRO” 

A mentalidade de empresária já se manifestava na concepção de um portfólio de produtos, que eram desenvolvidos de acordo com as demandas. E elas não pararam de chegar. As propostas iam de projetos pontuais a programas completos, agora sob um novo conceito, o de saúde emocional.

Foi em um dos programas de educação empresarial que se deu conta do potencial do negócio que tinha criado. Neste programa, entrei psicóloga e saí empresária”, ela lembra.Ela entendeu que havia um mercado muito grande a desbravar. "As empresas não sabem como lidar com o assunto e há poucos profissionais habilitados. Pensei ‘preciso de um plano de negócios para crescer’.  

Deixou o feeling de lado e buscou uma consultoria para ter uma avaliação objetiva do potencial do mercado e de crescimento da Mental Clean. O melhor feedback que recebeu, conta Fátima, foi do próprio consultor que também atuava como investidor. “Ele me disse: ‘Se quiser vender sua empresa, eu compro”. 

Com a consultoria, aprendeu a usar métricas de desempenho e qualidade, controlados mês a mês. Fez cursos de gestão de qualidade no Sebrae e chegou a ser uma das finalistas do prêmio do setor. Atualmente, a empresa atua em três divisões – programas de saúde emocional, dependência química e toxicologia. 

“ENTREI PSICÓLOGA E SAÍ EMPRESÁRIA”

O modelo de negócio formulado por Fátima se organiza em três camadas. O núcleo funciona como uma “tropa de elite”, formado por 22 profissionais, entre psicólogos especialistas e administrativos.

Na segunda camada, há cerca de 15 consultores que trabalham como prestadores de serviço e participam dos diversos projetos. 

Na terceira, fica a rede de 600 profissionais credenciados que cobre todo o país; eles atendem em seus consultórios os pacientes encaminhados pela Mental Clean, que se encarrega do acompanhamento.      

A empreendedora continua como a única proprietária e não pensa ainda em aceitar sócios ou investidores.

“Quando comecei, era apenas eu e meu notebook. Mas aprendi tudo sobre abrir e fechar empresa em um dos empregos que tive e com meu pai. Ele me ensinou a cuidar da contabilidade, dos impostos e eu gosto de gestão.”

“EM CINCO ANOS, PRETENDO SER CINCO VEZES MAIOR”

Mesmo sem ter planos imediatos, vem cuidando de instrumentalizar a empresa para um aporte de investimento. Trouxe uma executiva do mercado e conta com uma estrutura profissionalizada nas áreas financeira, administrativa, comercial e novos negócios.Acompanha mensalmente os indicadores de desempenho de projetos, margem operacional e receita bruta. 

Embora tenha facilidade para compartilhar e pensar junto, reconhece que é controladora, aspecto que ficou bem evidente nos encontros de mentoria do programa da EY. “Tenho que aprender a delegar mais.”

O programa teve um efeito especial sobre sua capacidade de negociar. Hoje, negocia de igual para igual com altos executivos.

“No começo, foi difícil porque tinha um produto que não é fácil vender”, explica. “Precisei reforçar o valor agregado e quebrar a idéia de que a assistência à saúde mental representava custo e não investimento. O programa da EY ajudou a fortalecer minha postura de empresária. Hoje consigo dizer - em cinco anos, pretendo ser cinco vezes maior.”

O plano de crescimento está sendo desenhado. Entre as metas, estão a expansão na América Latina, que já começou a ser testada, e a de priorizar as maiores empresas do país como clientes.

Para não se distrair com os objetivos, deixou registrado como missão: Ser reconhecidamente a melhor e maior empresa de prestação de serviços de saúde emocional e dependência química. 

Além de fazer a empresa crescer, ela assumiu um objetivo ambicioso com sua área de atuação - mudar a imagem da psicologia, que considera estigmatizada ainda hoje, tratada como se fosse um hobby.

“Quero que o setor seja visto como um negócio, assim como a advocacia e a odontologia. Seus profissionais têm tudo para crescer. As questões de saúde mental são a terceira maior causa de afastamento de funcionários e temos um papel importante para ajudar os empresários a melhorar o ambiente de trabalho.”