Negócios

Sonho de doceiras portuguesas vira realidade e conquista o varejo


Negócio de quitutes artesanais criado há mais de 20 anos pela empresária Suzana Cristina Silva (foto) e sua mãe, Maria Fernanda, vira exemplo de gestão enxuta e chega ao consumidor final mesclando tradicional e contemporâneo


  Por Karina Lignelli 28 de Maio de 2018 às 08:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


No mundo do empreendedorismo, é comum aquela divisão de perfil entre quem abre o próprio negócio por oportunidade ou por necessidade.

Mas há quem opte por esse caminho também para realizar um sonho antigo -confeccionar e revender quitutes tão delicados como os doces portugueses.

E, anos depois, chegar ao varejo com uma loja que mescla elementos da tradição lusitana com design moderno, num local tão movimentado e concorrido como o centro da capital paulista.

É assim que se desenvolve a história da Maria Cristina Doces, fábrica de doces artesanais típicos fundada há mais de 20 anos pelas portuguesas da Ilha da Madeira Maria Fernanda Silva e sua filha, Suzana Cristina Guerra Marques Paixão Silva, que hoje está a frente do negócio.

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O gosto dos familiares pelos quitutes “da terrinha” levaram a mãe, que trouxe na bagagem as receitas das guloseimas e montou uma cozinha nos fundos de casa, a fazer e vender informalmente os doces na região do Tremembé, na Zona Norte de São Paulo, onde moravam.

Recém-formada em engenharia química na época, Suzana até estagiou na área, mas decidiu que queria empreender com a mãe, especialista nas receitas trazidas de Portugal desde 1975, ano em que chegaram ao Brasil. “Eu aprendi a fazer e ajudei a criar uma linha de qualidade”, diz. 

Afinal, não adiantava apenas ouvir dos clientes que os "doces da dona Maria Fernanda" eram gostosos: tinham que ser bem feitos.

“Aí surgiu todo um controle para comprar sempre matérias-primas de boa procedência, evitar contaminação e diminuir perdas, entre outros cuidados.” 

O fornecimento de doces no atacado começou a aumentar, e a cozinha da dona Fernanda ficou pequena para tantos pedidos. Com isso, em 1996, mãe e filha abriram uma sobreloja na Av.Água Fria, na Vila Aurora, também na Zona Norte. Dessa vez, com “CNPJ e tudo”, segundo Suzana.

MONTAGEM E EMBALAGEM DOS FOFOS DE BELAS

Mas a fama dos travesseiros de Sintra, fofos de belas, toucinhos do céu e dos onipresentes pastéis de nata - ou de Belém, como são mais conhecidos no Brasil - chegou além das fronteiras das vendas usuais para clubes portugueses, padarias e pequenos comércios, como cafés.

Supermercados médios, empórios de produtos finos e importados, como a Casa Santa Luzia, ou restaurantes típicos e famosos, como a Adega Santiago, entraram no rol da clientela.

E a Maria Cristina Doces precisou mudar para um espaço maior, na mesma rua. Mas dessa vez, num imóvel próprio, onde Suzana montou, há cinco anos, uma pequena porém bem equipada fábrica com loja anexa, que produz até 60 mil doces por mês, dependendo da época.

A maioria das encomendas se concentra na especialidade da casa. "Os pastéis de nata representam 40% da nossa produção", diz a empresária. Como mão-de-obra, ela mesma e mais seis funcionários dão conta da produção. "Tenho também um motorista que faz as entregas", diz.   

Hoje, a empresa tem mais de 600 clientes, sendo que cerca de 20% são ativos. Isso porque, com a  linha de congelados, não há necessidade, para alguns clientes, de fazer encomendas frequentes. 

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Como os doces são produtos mais consumidos em meses frios, uma outra parte da clientela compra  para abastecer festas sazonais - um tipo de venda que caiu um pouco nos últimos anos.

“A gente vendia muito para festas típicas de paróquias mas, com a crise, muitas acabaram optando pelo faça-você-mesmo para economizar”, afirma. Mas não há o que reclamar: mesmo assim, a fábrica mantém o faturamento entre R$ 70 mil e 80 mil mensais, diz a empresária. 

A exemplo de quando tocava a fábrica em conjunto com a mãe - "que já trabalhou muito e agora só aparece às vezes para dar uma ajuda", conforme diz, a filha da dona Maria Fernanda viaja sempre que possível para Portugal em busca de novidades ou de dicas para melhorar os produtos. 

Tudo sem perder o foco artesanal. "Doçaria é isso: é o doce feito à mão, um por um. Esse é o grande apelo do nosso negócio", afirma. 

Envolvida diretamente na produção e na gestão (“coloco a mão na massa mesmo!”, diz), ela não só ajuda a confeccionar os doces como faz o planejamento financeiro em planilhas de Excel e controla a contabilidade na ponta do lápis. Tudo da forma mais simples possível.

“Penduro os boletos da semana num local à vista e vou pagando”, afirma Suzana, que admite contar com a ajuda de um sistema integrado para fazer o controle de produção e vendas.

Como a Maria Cristina Doces “não tem tamanho para ter um departamento de compras”, conforme brinca, os próprios funcionários ajudam na gestão do estoque: à medida que os produtos utilizados vão acabando, a empresária é avisada para fazer novos pedidos.

“Não tem muito o que inventar. Afinal, vendemos menos de 20 itens”, afirma. Segredo de uma gestão enxuta, nas palavras de Suzana: “Produzo o que vendo, não uso o que não preciso. Assim, quase não tenho perdas”, afirma. 

FINALMENTE, O VAREJO

No mercado há quase três décadas, a Maria Cristina Doces se tornou um negócio consolidado dentro de sua área de atuação. Mas faltava a experiência de varejo – outro sonho realizado, desde setembro de 2017, quando Suzana e o marido, José Carlos Zucheran, finalmente abriram a loja.

Após a parceria de Zucheran, que também é empresário, mas da indústria, com o proprietário de uma cliente da Maria Cristina para ganhar experiência, o casal decidiu contratar um especialista em varejo para orientar a empreitada: apontou a concorrência, projetou a arquitetura da loja e mudou até o design das embalagens, do estilo rococó para um fundo decorado com típicos azulejos portugueses.

“Queríamos passar a ideia de um Portugal mais contemporâneo. Acho que deu certo”, diz.

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Localizada na rua Álvares Penteado, quase no Largo do Café, no Centro da capital paulista, a doçaria e cafeteria – que tem feito discreta concorrência à Casa Mathilde, principalmente em horários de pico -vende não somente os doces da marca, que podem ser degustados com café gourmet ou vinho do Porto.

Há também salgados franceses de massa folhada, sanduíches de presunto Jamón e até produtos e souvenires típicos de Portugal, como Água das Pedras e Galos de Barcelos - uma ideia de Zucheran para caracterizar o negócio, que já produziu resultados.

“O legal do varejo é que se pode diversificar e saber a reação do cliente lá na ponta”, afirma Suzana.

Nos dois primeiros dias, Suzana, que deixou a loja a cargo do marido, também empresário, mas de outro ramo, se assustou com os custos de operação, achando que não se pagariam. Se enganou. 

JOSÉ CARLOS, MARIDO E SÓCIO, NA LOJA DO CENTRO: BONS RESULTADOS

“Ela está aberta só há oito meses, mas já faturou o suficiente para se pagar”, comemora Suzana, que diz que, em alguns meses, as vendas do Centro se igualaram à da fábrica.

Apesar do sucesso, os planos para o curto prazo são de fazer um trabalho de reforço da marca, já que muitos clientes, principalmente os mais antigos, ainda compram “os doces da dona Maria Fernanda” ou “daquela senhora do Tremembé." 

Outro projeto é reativar o e-commerce, que está em reestruturação: de acordo com Suzana, a empresa tem uma loja virtual pronta, e já vendeu até pelo marketplace da Rakuten.

“Só parei porque eles suspenderam as operações com alimentação”, conta. Hoje, a Maria Cristina tem perfis no Facebook e Instagram.

Quanto à abertura de mais lojas, a previsão é abrir mais uma em um ano, na região da Av.Paulista. “Deixa a loja rentabilizar mais para a gente juntar o dinheiro e investir", afirma ela, que diz que pretende ter, no máximo, três operações de varejo. Pelo menos por enquanto.

Mesmo sendo um "esquema cômodo e seguro", Suzana diz que, como empresária, não quer ficar só nisso, já que ela e o marido têm em comum o bichinho do empreendedorismo, que fica cutucando.

"A gente gosta muito do dia a dia do negócio, então estamos sempre inventando. Vamos ver no que dá", finaliza. 

FOTOS E VÍDEO: William Chaussê