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Shoppings têm o pior Natal dos últimos dez anos


Desemprego e restrição do crédito influenciaram o recuo de 3% nas vendas ante igual período de 2015, de acordo com a Alshop. Expectativa para 2017 é positiva


  Por Karina Lignelli 26 de Dezembro de 2016 às 16:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


As vendas em lojas de shopping caíram 3% no Natal de 2016 ante igual período de 2015, de acordo com levantamento da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) divulgado nesta segunda-feira (26/12). 

O recuo foi resultado dos altos índices de desemprego, restrição no acesso ao crédito e das taxas de juros elevadas. Esse foi o pior Natal dos últimos dez anos, segundo o diretor institucional Luis Augusto Ildefonso Silva. 

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Com o aperto no bolso, os milhares de consumidores que migraram de classe social na última década – e em consequência, passaram a comprar e a frequentar shoppings – voltaram a gastar no comércio de rua neste Natal.   

A queda nas vendas seria ainda maior se a Alshop considerasse a inflação (IPCA-15), que somou 6,58% no acumulado de 12 meses até dezembro.  

Pelas projeções da associação, as vendas em lojas de shopping neste ano já acumularam R$ 140,5 bilhões - resultado 3,2% inferior ao de 2015, e também o primeiro desde 2004 em que houve queda nas vendas em termos nominais. 

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“Tivemos uma década ‘milagrosa’ para o varejo. Agora, nem tem como comparar”, afirma Silva. 

De acordo com o levantamento da Alshop. com base em dados do SPC Brasil, o tíquete médio também caiu, cerca de 5% ante 2015.

As classes A/B também compraram mais: foram 85% dos entrevistados, contra 65% da classes C/D, que gastaram menos devido à inadimplência. 

Nabyl Sahyoun, presidente da Alshop, afirmou que já se esperava esse resultado, pois os varejistas ficaram “vacinados” frente à instabilidade do cenário político e econômico. 

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“Quem soube negociar com fornecedores e trabalhou com preços baixos conseguiu manter as vendas”, disse, mesmo admitindo que as liquidações de janeiro e fevereiro serão “mais fortes” que as de 2016. 

Para 2017, as expectativas são otimistas, de acordo com Sahyoun, que enxerga uma retomada da confiança dos empresários e um desempenho melhor nas vendas.

Ele mencionou os minipacotes de incentivo anunciados pelo governo federal como responsáveis por melhorar o otimismo do setor. 

Entre elas, a possibilidade de saque de contas inativas do FGTS, que devem injetar R$ 30 bilhões na economia, assim com como as medidas tratadas pelo governo a respeito do setor de cartões, que devem ser implementadas até o final do primeiro trimestre de 2017.

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Outro dado do levantamento da Alshop aponta que 19 shoppings foram abertos em 2016 em todo o país. Apesar disso, foram fechadas 18,1 mil lojas no período - ou uma queda de 12,9% no total das lojas em funcionamento. 

Mas há uma outra boa expectativa, que diz respeito à diminuição da vacância nos shoppings. de acordo com um estudo da associação produzido em parceria com o Ibope entre novembro/2015 e fevereiro/2016, esse índice chegou a 43% nos empreendimentos inaugurados após 2012. 

A crise, porém, segundo o diretor Luis Augusto Ildefonso da Silva, levou o setor a discutir – e a colocar em prática – negociações sobre redução de aluguel e outros incentivos diretamente proporcionais ao interesse em manter lojistas no mix. Algo que não se faria em outros tempos. 

“Os shoppings maturaram a ideia de que não podem mais ser inflexíveis, e a boa notícia é que esses índices diminuíram”, afirma o diretor institucional da Alshop, que diz que um novo estudo, previsto para o 1º semestre, deve confirmar essa queda em 2016. 

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CONSULTAS E VENDAS A PRAZO 

As vendas do varejo de todo o País durante a semana que antecipa o Natal (18 a 24 de dezembro) caíram 4% ante igual período de 2015, informou nesta segunda-feira (26/12), a Serasa Experian em seu balanço sobre o movimento nas lojas no período.

Essa foi a segunda maior queda das vendas de Natal medida pelo indicador criado em 2003, e que já vinha de duas quedas consecutivas: 6,4% em 2015, e 1,7% em 2014.

Só na cidade de São Paulo, as vendas caíram 4,5% na semana passada comparadas a igual período de 2015. Para a Serasa Experian, que mede o resultado pelas consultas realizadas pelos lojistas, o recuo reflete a alta do desemprego, o crédito caro e a baixa confiança do consumidor.

Falando especificamente em vendas a prazo, neste Natal a modalidade registrou queda de 1,46% na comparação com igual período de 2015, de acordo com informações do SPC Brasi) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) divulgada também nesta segunda-feira (26/12). 

Com esse resultado, o indicador acumula três anos consecutivos de retração. No entanto, a queda deste ano foi bem menos intensa do que a apresentada em 2015, de 15,84%.

Assim como a Alshop, o SPC Brasil considerou o resultado negativo já aguardado pelos lojistas, reflexo da tendência de desaquecimento das vendas no varejo observado ao longo de 2016 em virtude do cenário econômico desfavorável e à restrição no crédito.

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"Ainda assim, observamos uma forte desaceleração na queda do volume de vendas, indicando que os piores momentos da crise ficaram para trás", avalia Roque Pellizzaro, presidente do SPC Brasil. 

Segundo o presidente da CNDL, Honório Pinheiro, a queda no volume de vendas parceladas não significa que o brasileiro deixou presentear. 

"Os consumidores estão mais preocupados em não comprometer o próprio orçamento com compras parceladas, por isso optaram por presentes mais baratos e geralmente pagos à vista, as famosas lembrancinhas", diz.

As vendas de Natal repetiram o comportamento baixo das outras datas comemorativas de 2016, mas o recuo das compras parceladas foi menos intenso do que nos demais dias festivos. 

As vendas a prazo tiveram retração maior no Dia das Mães (-16,40%), seguido do Dia dos Namorados (-15,23%), Dia das Crianças (-9,02%) e Dia dos Pais (-7,15%).

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A expectativa de movimento no comércio varejista nos últimos dias deste ano e em janeiro dependerá, segundo a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, da criatividade dos lojistas e da atratividade das promoções. 

"A expectativa é de que as promoções reaqueçam o mercado até o final de janeiro. Com os tradicionais descontos, o comerciante tem a oportunidade de emplacar novas vendas para melhorar o fraco desempenho no Natal", conclui. 

*Com informações de Estadão Conteúdo / *Atualizado às 17h25

FOTOS: Fátima Fernandes