Negócios

Sexta sem Carro revolta comerciantes


A medida restritiva, implantada pela prefeitura em fevereiro passado, prejudica a maioria dos empresários do centro histórico da capital paulista


  Por Wladimir Miranda 05 de Junho de 2018 às 08:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Na próxima sexta-feira (8/06), completará um mês que a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) solicitou à Prefeitura de São Paulo audiência para rever o programa Sexta Sem Carro. O ofício, enviado ao Prefeito Bruno Covas, continua sem resposta.

A entidade solicita que os empresários da região central, prejudicados pela medida, sejam ouvidos. O programa começou a vigorar no dia 23 de fevereiro passado. Na última sexta-feira do mês, carros e motos são proibidos de circular entre 6h e 18h, no chamado Centro Histórico da cidade. Em maio, o programa foi estendido para todas as sextas-feiras do mês. 

Centenas de estabelecimentos comerciais localizados nas áreas interditadas – Praça da Sé com Rua Wenceslau Brás, Praça da Sé com Rua Floriano Peixoto, Rua Coronel Xavier de Toledo com Viaduto do Chá e Rua Florêncio de Abreu com Ladeira da Constituição-, afirmam estar sofrendo enormes prejuízos nos dias de restrição ao trânsito de carros e motos.

CRISTIANE, DO CAFÉ MARTINELLI: MOVIMENTO
CAIU 25%

Veja o caso de Cristiane Gana, proprietária do Café Martinelli, no térreo do tradicional prédio da esquina da Rua Líbero Badaró com Avenida São João. O café existe há 20 anos, mas Cristiane assumiu o ponto há cinco. Segundo ela, o movimento caiu 25% depois que a medida que restringe a circulação de veículos começou a vigorar.

"Muitas pessoas deixavam seus carros nos estacionamentos da região e vinham ao prédio para tratar de diversos assuntos, já que no edifício funcionam algumas secretarias ligadas à prefeitura. Aqui, tomavam café e almoçavam. Antes, eu servia 450 cafés por dia. Hoje, sirvo no máximo 250", conta Cristiane, que relata perda também com o serviço de alimentação.

FALTA DE SEGURANÇA ASSUSTA QUEM CAMINHA
NO CENTRO, DIZ SÉRGIO, DO FLASHBACK CAFÉ

O prejuízo, segundo Cristiane, é grande, tendo em vista que ela tem de pagar aluguel e também arcar com as demais despesas, tais como água, luz e telefone.

As reclamações de Sérgio Destro, dono do Flashback Café, na Rua Álvares Penteado, que fica no Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB -, também dão conta dos prejuízos com a medida restritiva.

“O problema é que a cidade de São Paulo não tem estrutura para introduzir este tipo de restrição ao movimento de carros e motos. O cliente que vem ao centro da cidade de metrô, tem medo de ser assaltado ao caminhar pelo Centro Histórico. As nossas autoridades sabem muito bem que a insegurança é grande. Então, sem carro, muitas pessoas preferem não correr o risco de serem assaltadas e ficam longe do centro”, afirma Destro.

Em dias de espetáculos no CCBB, a instituição costuma colocar vans à disposição dos frequentadores. Segundo o empresário, o medo persiste, mesmo com a comodidade à disposição.

NA SEXTA SEM CARRO O MOVIMENTO CAI
40% NA WORLD SPORT, DE LUIZ ALBERTO

“Não adianta. O número de moradores em situação de rua no centro é muito grande. Muita gente tem medo de ser assaltada e prefere não vir de metrô. Estas pessoas se sentem mais protegidas em seus carros. É uma questão de mentalidade. Não dá para mudar essa maneira de pensar de uma hora para outra”, afirma.

Luiz Alberto Pereira da Silva, dono da loja de artigos esportivos World Sport, também sofre com a medida implantada pela prefeitura paulistana. A loja, localizada no Largo São Francisco, perdeu clientes.

“O movimento caiu 40%. Em dias de restrição, é notória a queda do número de pessoas que circula nas imediações do estabelecimento”, diz.

O Tamar Park, maior estacionamento da Rua Boa Vista, contabiliza prejuízos. "Todos os comerciantes da Rua Boa Vista têm reclamações a fazer. Até o comércio da Rua 25 de março está sentindo os efeitos da Sexta Sem Carro. Tenho certeza de que esta medida será revista", afirmou Sérgio Sandrini, dono do estacionamento.

SANDRINI, DO TAMAR PARK, CONTABILIZA
R$ 5 MIL DE PERDAS EM DIA DE PROIBIÇÃO

Os empresários da região fizeram um abaixo-assinado, que será entregue ao prefeito. O documento já conta com mais de 500 assinaturas. “São comerciantes da região indignados com esta proibição absurda”, disse Sérgio.

A tradicional Mercearia Godinho, na Rua Líbero Badaró, também foi afetada. “Sim, sinto os efeitos da restrição. É fácil perceber que a região se esvazia nas sextas-feiras de restrição. Os estacionamentos ficam vazios. Sem o carro, os clientes não aparecem”, diz Miguel Romano, proprietário da mercearia há 23 anos.

“Ainda não tenho números exatos do prejuízo. Mas, sem dúvida, posso relatar que o movimento cai 5% nos dias em que os carros e motos não podem trafegar no Centro Histórico”, afirma Miguel. “E em tempos de crise, qualquer interferência externa traz muitos malefícios para a economia.”

Segundo o economista Marcel Solimeo, superintendente institucional da ACSP, embora exista mérito no objetivo de estimular o uso de transporte público e reduzir a poluição, há uma parcela dos contribuintes, os empresários, que estão sendo prejudicados.

“Em um período de dificuldades da economia, em que o poder público deveria estimular o empreendedorismo e o fortalecimento das empresas, não tem sentido que sejam impostas medidas que prejudicam suas atividades”, diz o superintendente da ACSP.

Solimeo lembra ainda que medidas como a adotada pela prefeitura de São Paulo fariam mais sentido se acompanhadas do aumento da oferta de transporte público alternativo, uma vez que o bloqueio das vias tem como efeito colateral congestionamentos provocados nas imediações.

 

 IMAGENS: Wladimir Miranda e Willian Chaussê