Negócios

Safra de novas empresas pode não ser tão boa para investidor


Período que começa em abril e vai o final de junho representa a melhor janela de oportunidade para o pedido de IPO, pois a instabilidade política e as eleições tendem a afetar o mercado


  Por Estadão Conteúdo 19 de Fevereiro de 2018 às 12:59

  | Agência de notícias do Grupo Estado


As empresas hoje listadas na Bolsa de São Paulo, a B3, devem ter até o final do segundo trimestre do ano novas companhias. Algumas companhias estão correndo com os preparativos para o pedido de registro de oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A pressa tem um motivo: especialistas indicam que o período que começa em abril e vai o final de junho representa a melhor janela de oportunidade para isso, já que a instabilidade política tende a afetar o mercado conforme a eleição se aproxima.

No entanto, esses mesmos analistas dizem que a temporada de abertura pode não ser tão promissora para os investidores quanto inicialmente se esperava.

Os recentes recordes do Ibovespa - o principal índice de ações da B3 - pode gerar uma falsa ideia de que este é o melhor momento para entrar no mercado de ações.

"Primeiro devemos considerar que o cenário de 2018 é de muitas incertezas, pois ainda nem temos os nomes dos candidatos à presidência ou suas agendas. Isso dita o ritmo dos IPOs", diz o advogado José Bastos Martins, sócio do Peixoto & Cury Advogados.

"Além disso, o investidor estrangeiro é um dos principais atores do mercado brasileiro, mas lá fora também vemos alguma apreensão, principalmente nos Estados Unidos."

O ritmo de emissões depende justamente de quem irá concorrer ao cargo do presidente Michel Temer e também sua capacidade de aprovar a reforma da Previdência, avalia Marcos Piellusch, professor de Finanças da Fundação Instituto de Administração (FIA).

"Um candidato que agrade o mercado deve impulsionar as ofertas. Se for alguém com o perfil contrário, alguns IPOs podem ser suspensos. Por isso há tantas empresas esperando o que vai acontecer", afirma.

É o caso da administradora de shoppings centers HSI/Saphyr, subsidiária da construtora JHSF. O sócio da empresa, Máximo Lima, confirma o IPO da companhia, mas prefere não definir datas.

"Acredito que ainda vale a pena esperar para ver como se darão as outras ofertas", diz.

"Cogitamos este primeiro semestre, mas num cenário ruim, prefiro deixar para 2019".

O executivo almeja captação acima de R$ 1 bilhão.

O especialista em mercado de capitais e sócio do Leite, Tosto e Barros Advogados, Flávio Maldonado, aponta que, diante da indefinição, talvez não seja mesmo o momento de o investidor apostar demais no mercado acionário.

"No mundo todo vemos as bolsas em euforia. Falamos de uns nove IPOs próximos no Brasil, mas nem todos devem sair do papel diante da insegurança política."

Além da HSI/Saphyr, também estão cotadas para ofertas Ri Happy, HapVida, Notredame Intermédica, Uniasselvi, Neoenergia, Quero-Quero e Banco Inter.

A esperança é seguir o boom visto em 2017, quando as emissões de ações no Brasil superaram os R$ 40 bilhões, o melhor resultado desde 2009.

No início do mês, a Blau Farmacêutica, dona da Preserv, suspendeu sua abertura de capital, comprovando a seletividade dos investidores. Aguardado como o primeiro IPO deste ano na B3, a falta de interesse e o preço abaixo do esperado para os papéis frustraram os planos.

Outra que atrasou o processo foi a Centauro, que pretendia uma oferta de R$ 700 milhões que não agradou o mercado.

A percepção dos investidores foi de um valor elevado e a solução parece estar na demonstração de bons resultados por parte da varejista de produtos esportivos. Só assim ela deve atrair interesse para suas ações.

A falta de confiança em uma estreante é um risco inevitável, aponta Piellusch.

"Quem investe deseja retorno. Se o investidor acompanha os resultados da companhia, analisa seu histórico e sente que não terá retorno, não vai investir. Isso pode derrubar a alavancagem logo de cara."

CUIDADO 

Na avaliação de José Bastos Martins, ainda que todas as possíveis ofertas sejam de fato lançadas, isso também pode ser uma armadilha para o investidor.

"Um grande número de opções competindo pela atenção do mercado pode acabar derrubando o preço de todas elas e diminuir o retorno". 

FOTO: Thinkstock