Negócios

Retração nas vendas do comércio deve inibir contratações


Levantamento prevê a contratação de apenas 24 mil temporários para reforçar os quadros de funcionários neste fim de ano. Outra pesquisa aponta queda recorde do índice de confiança dos pequenos e médios empresários


  Por Estadão Conteúdo 01 de Outubro de 2015 às 10:57

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Contando com a previsão de que as vendas no fim deste ano devem se situar em um volume bem inferior ao registrado em 2014, apenas 12% dos empresários do comércio consultados pelo SPC Brasil pretendem contratar trabalhadores temporários para o período.

Segundo a economista-chefe Marcela Kawauti, isso significa que apenas 24 mil temporários serão empregados em todo o Brasil para reforçar os quadros de funcionários neste fim de ano.

"Além de investigar as percepções gerais sobre o mercado de contratações em meio a crise, o estudo também mapeia a expectativa de vendas para o período", destaca Marcela.

Segundo ela, a constatação de faturamento mais baixo, mudanças nos cenários político e econômico, inflação e desemprego em níveis elevados com consequentemente perda do poder de compra do consumidor figuram entre os motivos que levaram 88% dos empresários a decidirem não contratar temporários para o período das festas.

Para 48% dos entrevistados, o faturamento nos últimos três meses foi pior que o esperado, de acordo com o levantamento do SPC Brasil. A mudança nos cenários político e econômico é mencionada por 53% dos empresários abordados. O desemprego é citado na pesquisa por 47%, e a inflação e seu efeito corrosivo sobre o poder de compra das famílias, por 45% dos entrevistados.

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"Como estamos falando de expectativas, pode ser que até o fim do ano possa ocorrer alguma diferença para cima ou para baixo. Mas achamos difícil que o quadro mude tanto", disse a economista.

De acordo com ela, a pesquisa existe desde 2013, mas melhorias feitas na metodologia tornou o levantamento incomparável com o do ano passado. Neste ano, a pesquisa incorporou cidades do interior dos Estados e também varejos em que apenas o dono trabalha. "Mesmo essas empresas acabam contratando um ou dois temporários para ajudar atender o maior volume de demanda", explica Marcela.

Em relação às vendas para o Natal, a pesquisa do SPC Brasil apurou que apenas 27% dos empresários planejam fazer investimentos no estabelecimento. "Esse porcentual é maior no comércio varejista (33%)", ressalta a economista.

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Ainda de acordo com o levantamento, as estratégias usadas por aqueles que pretendem investir serão: o aumento na variedade dos produtos/serviços (54%), a ampliação do estoque (37%) e o investimento na divulgação da empresa (29%).

Para a maioria que não pretende investir (71%), a principal justificativa é a de que o investimento não é necessário visto que não há uma expectativa de aumento na demanda, 42%.

MENOR CONFIANÇA

O índice de confiança dos gestores de pequenos e médios negócios no Brasil atingiu o menor nível desde 2008. A pesquisa, conduzida pelo Insper/Santander, captou a percepção dominante em relação ao quarto trimestre do ano e atingiu 55,1 pontos, uma queda de 3,9% quando comparado ao do terceiro trimestre. 

Foi a maior queda do indicador da série histórica, iniciada em 2008. O setor de serviços apresentou o maior recuo no nível de confiança, passando de 57,8 para 52,7 pontos.

Para o levantamento, o Insper realizou 1.280 entrevistas telefônicas. O indicador mede a confiança do empresário de pequenos e médios negócios (com faturamento de até R$ 80 milhões) na economia brasileira. O índice reflete as perspectivas deste grupo com relação ao futuro da economia, do seu setor e do próprio negócio. A pontuação segue uma escala de 0 a 100 pontos, na qual 100 representa o nível máximo de confiança.

"Após registrar uma queda moderada no terceiro trimestre, o índice apresenta um forte recuo no quarto trimestre”, disse Gino Olivares, professor e pesquisador do Insper. O resultado reflete o aumento do grau de incerteza no cenário nacional.  

Para o pesquisador, a retração generalizada em todos os subitens, regiões e setores sugere que a desaceleração da atividade econômica está disseminada.  “A retomada do crescimento poderá demandar um esforço maior", afirma. "O que a pesquisa registrou referente ao quarto trimestre é reflexo da tempestade perfeita que caiu sobre a economia brasileira a partir de julho."

Mesmo a indústria tendo ficado estável, Olivares não considera que se chegou a um "fundo do poço". O setor, ele lembra, foi o primeiro a entrar em queda e vem sofrendo há bastante tempo. Mas outros indicadores apontam o enfraquecimento contínuo da indústria, sem sinais de uma reversão dessa tendência.

Serviços e comércio têm bons motivos para ficar preocupados com o câmbio, afirma Olivares. Ele lembra que as micro e pequenas empresas são grandes compradoras de bens finais importados. "Em um salão de beleza, por exemplo, quase todos os cosméticos usados são importados."

QUEDA EXPRESSIVA


Na divisão por setores, serviços teve o maior recuo, passando de 57,8 para 52,7 pontos. No comércio houve queda de 58 para 56,7 pontos. E na indústria o indicador passou de 54,7 para 54,6 pontos.

Dos seis tópicos sobre os quais os pequenos empresários foram questionados, todos caíram. O pior resultado foi em Lucro (de 62,8 para 58,8 pontos), seguido de Faturamento (65,1 para 61,3), Desempenho da Economia (47,7 para 45,6), Investimentos (55,4 para 53,8), Ramo de Atuação (60,9 para 59,7) e Empregados (52,5 para 51,6).

Na divisão por regiões também houve piora em todas as unidades, com destaque para o Sudeste (de 57,8 para 53,6 pontos). Na sequência aparecem Nordeste (57,9 para 57 pontos), Sul (55 para 54,7), Centro-Oeste (58,1 para 57,8) e Norte (61,4 para 61,3).