Negócios

Restaurantes em torno do Banco Central são retrato da crise


Desde o início do ano, foram 8 mil demissões de funcionários causadas, sobretudo, pela queda do movimento


  Por Estadão Conteúdo 03 de Novembro de 2015 às 11:42

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Os efeitos da crise já rondam o Banco Central em Brasília. Literalmente. Os 14 restaurantes localizados atrás da sede da instituição têm se digladiado nos últimos meses em busca de clientes. Vale tudo: faixas com promoções, redução do preço do quilo, aperitivos alcoólicos grátis, desconto para servidor público. Vale até "laçar" na porta do BC funcionários para experimentarem o novo almoço executivo que o Piantella - um tradicional restaurante da capital, considerado de elite e que foi cenário de muitas decisões políticas - passou a oferecer para concorrer com as demais casas da rua.

A disputa pelos servidores da região em tempos de redução de movimento ficou tão acirrada que até restaurantes de outros locais passaram a distribuir folhetos nas redondezas, como é o caso do Sensei, especializado em comida japonesa e que fica uma quadra mais distante. Pelas calçadas das redondezas circulam funcionários do BC, da Caixa, da Polícia Federal e de mais várias autarquias e órgãos públicos, considerados de classe média alta.

A rua atrás do BC, segundo o presidente do Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes do Distrito Federal (Sindhobar), Jael Antonio da Silva, é um retrato do que ocorre em todo o setor, formado por 9 mil estabelecimentos em Brasília. Os números do Sindhobar chamam atenção. Desde o início do ano, foram 8 mil demissões de funcionários causadas, sobretudo, pela queda do movimento: 20% no Plano Piloto e 40% nas cidades-satélites.

A resposta dos empresários foi baixar o preço para não espantar mais clientes. Num primeiro momento, segundo Silva, os donos de restaurante procuraram melhorar controles e encontrar alternativas mais baratas aos produtos. O passo seguinte foi tentar reduzir preço de aluguel, já que custos de insumos como água, gás e energia, que passaram por forte reajuste este ano, não têm como ser negociados. "A saída foi baixar o preço e ganhar na quantidade. É só essa a mágica", disse o presidente do sindicato.

O primeiro restaurante a reduzir os preços na quadra 201/202 de Brasília foi o Cozinha e Sabor Gourmet. Em agosto, o quilo da comida passou de R$ 45,90 para R$ 39,90 como uma promoção de aniversário. A estratégia deu tão certo que o dono Gustavo Ninomiya decidiu manter o preço mais baixo até hoje. "Agora, esse novo valor será por tempo indeterminado por causa da crise", disse.

LEIA MAIS: Aumento de alíquota sobre bebidas pode desempregar 450 mil

Ninomiya, que possui mais quatro restaurantes, salientou que essa rua específica de Brasília é uma das que têm o aluguel mais caro da cidade. A circulação também é maior, já que 99% dos clientes chegam a pé, por trabalharem nas redondezas.

Do outro lado da rua, o proprietário da Panela Natural, Pedro Caetano, não viu outra alternativa a não ser a de seguir a concorrência e baixar o preço. "Tenho um bar e estou trocando o cardápio por causa do aumento dos custos. Aqui, por conta da concorrência cruel, tive de diminuir o preço do quilo", contou.

O valor de R$ 49,00 caiu para R$ 45,90 de segunda a quinta-feira e para R$ 39,90 na sexta, quando o movimento é menor. "Se a crise está ruim para a gente, está para o cliente também", afirmou.

Ao lado, o Le Grand oferece um cardápio de diferentes preços de acordo com as circunstâncias. O quilo está R$ 43,90, mas às sextas cai para R$ 35,90. A qualquer dia, após as 14 horas, quando a oferta de alimentos já está menor, o preço diminui para R$ 29,90. Se o pagamento for em dinheiro ou cartão de débito, o cliente ganha 15% de desconto e, se for funcionário público, 10%. "A maioria dos nossos clientes é de servidores", disse o auxiliar administrativo da casa, Cleidson Pereira.

PREVENÇÃO

Já no Piantella, que trabalha apenas com comida a la carte, a saída foi oferecer o almoço executivo (entrada, prato principal e sobremesa) de segunda a sexta por R$ 54,90. "O movimento ainda não caiu, mas estamos nos prevenindo e andando conforme o mercado: se outras casas têm promoção, também temos de fazer", disse o gerente Fábio Perres.

A nova tática é atrair um público mais jovem e oferecer pratos que não passem de R$ 100,00. "Temos muito orgulho da nossa tradição política, mas não somos só um restaurante de políticos."

O peso no bolso de almoçar na rua tem subido. Segundo o IBGE, almoçar fora de casa ficou 7,90% mais caro no País este ano até setembro. Em Brasília, a elevação no período foi de 8,96%. A servidora do BC Daniele Ribeiro sabe bem disso. "Mesmo com as promoções, está caro almoçar por aqui. Vale a pena trazer comida de casa."

Esse hábito é recente para Daniele, que prepara suas refeições no final de semana para levar ao trabalho. Às sextas-feiras, para variar a alimentação e também almoçar com colegas, ela ainda frequenta os restaurantes da quadra.

Já a servidora do Ministério da Fazenda, Mariana Alves, viu mês a mês seus gastos com alimentação fora de casa subirem. Teve despesas de R$ 414,78 com restaurantes em março e depois de R$ 456,25 em abril, que subiu para R$ 492,97 em maio.

Em julho, chegou a R$ 563,97. "Às vezes, o preço do quilo aumenta só R$ 1,00, mas dá uma diferença no fim do mês", disse. Com a alta, ela também começou a levar comida de casa. "Isso tem uma outra vantagem: diminuiu a azia que eu sempre sentia."