Negócios

Rei da simpatia, das quadras e dos negócios milionários


O Guga que carregou a tocha olímpica nos Jogos do Rio sob aplausos intensos se tornou uma marca valiosa e um empreendedor bem-sucedido. Suas empresas faturam R$ 300 milhões anuais


  Por Wladimir Miranda 05 de Outubro de 2016 às 13:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Todo mundo conhece a história do Guga, o tenista brasileiro que, por duas vezes, ocupou o topo do ranking mundial do esporte. Muito menos conhecido é o sucesso de Gustavo Kuerten como empreendedor, sócio da holding Grupo Guga Kuerten em conjunto com a família.

Na foto acima, ele aparece com a mulher Mariana e os filhos Maria Augusta e Luiz Felipe. Atualmente, o faturamento anual do grupo de empresas gira em torno de R$ 300 milhões.

Aposentado desde 2008, aos 32 anos, Guga fatura muito mais hoje do que no auge de sua carreira como tenista profissional, entre 1997 e 2003. Também as propostas para anúncios são muito mais frequentes e lucrativas do que quando jogava.

Sob a holding da família Kuerten estão abrigados diversos negócios: a GKF Guga Kuerten Franquias (rede de escolinhas de tênis, com uma centena de unidades espalhadas pelo país); RGK Investimentos Imobiliários; e a GKP Guga Kuerten Participações.

Do total de R$ 300 milhões que o grupo fatura por ano, cerca de R$ 100 milhões são originários da venda e licenciamento de produtos com a marca Guga Kuerten. De 2010 para cá, os produtos licenciados tiveram um crescimento de 70% nas vendas.

PRODUTOS DA MARCA: POTENCIAL DE CRESCIMENTO

Embora variada, a lista de produtos tem coerência com a história de Guga: óculos (linha solar e receituário), em conjunto com a Lougge; chinelos, com a Grendene; relógios, com a Hublot; material de tênis, com a Treton e a Pacific; beach tênis, junto com a Dranix; e açaí, com a Açaí Frooty.

Os Kuerten não revelam qual, entre os produtos licenciados pela marca, tem o melhor desempenho de vendas.

A maior parte receita do grupo vem da publicidade e da rede de franquias de escolinhas de tênis. Guga se tornou um garoto propaganda valioso.

É contratado para fazer anúncios de marcas conhecidas no Brasil e no mundo, tais como o Banco Itaú, Lacoste, Universidade Estácio de Sá, Frigoríficos Aurora, Embraed Empreendimentos Imobiliários, além das marcas com que mantém acordo de licenciamento.

Com a aposentadoria, livre das inúmeras viagens que fazia pelo mundo para disputar torneios, Guga pôde se dedicar com mais tranquilidade aos compromissos com os patrocinadores. Com mais tempo e dedicação, os ganhos cresceram.

GESTÃO FAMILIAR

Nada disso aconteceu por acaso. Gustavo Kuerten é um exemplo de que o apoio de profissionais competentes, com visão de negócios, desde o início da carreira, pavimenta um caminho de sucesso empresarial. No caso dele, esse apoio veio da própria família.

GUGA E RAFAEL: SUCESSO EM FAMÍLIA

Dois anos antes de Guga conquistar suas primeiras vitórias nos torneios internacionais, Alice, a mãe do atleta, e Rafael, o irmão mais velho, já mostravam visão de longo prazo ao criaram a GK Company. A empresa familiar foi o embrião da holding. 

Graduado em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina, Rafael Kuerten, de 42 anos, administra o grupo com a ajuda de 32 funcionários. Até hoje, a família fez questão de não dividir o controle com outros investidores. "Não temos sócios externos", afirma Rafael.

Com sua movimentação pública, Guga alavanca ainda mais os negócios. A marca ficou mais fortalecida depois dos Jogos Olímpicos Rio-2016, com o convite para compartilhar a tocha olímpica na abertura dos jogos, junto com alguns dos maiores atletas do país.

Outro convite, para participar da equipe de comentaristas dos jogos, veio da TV Globo. Ele saiu-se tão bem, com seu jeito espontâneo, que assinou contrato por mais dois anos com a emissora. 
 
“Esta parceria com a Globo é muito importante”, disse Rafael. Segundo o empresário, são feitas pesquisas periódicas para avaliar a repercussão dos projetos. “A credibilidade da marca Guga Kuerten é muito forte.”

ATRIBUTOS PESSOAIS

Na divisão de tarefas na holding, Alice, a mãe do atleta, ficou responsável pelo Instituto Gustavo Kuerten. O braço social da marca dá apoio educacional e financeiro a 15 mil pessoas.

COM AS CRIANÇAS EM SEU PROJETO SOCIAL

Entre as instituições beneficiadas, está a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), para a qual o instituto doa R$ 5 milhões por ano para ações que envolvem 1.500 crianças.

O gosto pela filantropia demonstrado por Guga vem de longe. O atleta era muito ligado ao irmão Guilherme, portador de paralisia cerebral e falecido em 2007. Foi uma perda muito sentida por ele, assim como a do pai, responsável pela sua entrada nas quadras. 

A autenticidade do atleta, o bom humor e a postura de bom moço se tornaram indissociáveis da imagem projetada pela marca, e tratada com muito cuidado pelo staff que coordena a carreira dele. Entre as restrições que fazem ao mercado anunciante está a de não aceitar propostas para participar de comerciais de bebida alcoólica, por exemplo.

A família nem quer saber dos valores astronômicos que costumam ser pagos por esses contratos. Esta não é uma preocupação de outras estrelas do esporte, como Ronaldo, um dos principais garotos-propaganda das cervejas da AmBev.

“O Guga tem uma imagem muito ligada às ações sociais”, afirma Rafael. “Ele é considerado como uma pessoa da família. Não queremos que anuncie produtos que nada têm a ver com o seu perfil.”

AJUDA DO TEATRO

A espontaneidade rendeu o contrato para ser comentarista da Rede Globo. Durante os jogos, os elogios ao seu carisma viraram memes nas redes sociais. O jeito de comentar a participaçõ dos atletas nas competições, sem fazer críticas contundentes, rendeu o apelido de “labrador humano”, uma comparação com a raça canina conhecida pelo jeito tranquilo e brincalhão.

Guga não só aprovou como até entrou na brincadeira. Em sua página na internet, mandou uma mensagem de agradecimento para os internautas.

Na condição de comentarista, ele aproveitou muito bem a chance para mostrar sua capacidade de comunicação, a maneira direta e simples de falar já vista nos vários comerciais que protagonizou.

Guga se dá bem com as câmeras. Fala para milhões de telespectadores como se estivesse numa mesa de bar conversando com amigos. “Sempre fui assim. Fico à vontade diante das câmeras. Uso a minha experiência de ex-jogador”, afirmou.

Como todo mundo percebe, Guga é naturalmente espontâneo. Mas o curso de teatro que fez na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), logo após encerrar a carreira de tenista, colaborou para a naturalidade que exibe diante das câmeras. 

“Gosto muito de teatro e queria ter concluído o curso”, lamenta. “Os compromissos profissionais impediram a sequência do curso. Pode ser que eu volte”

TÊNIS NA INFÂNCIA

Nascido e criado em Florianópolis, Guga ganhou o apelido de "Manezinho da Ilha", que aparece até em sua exposição como celebridade internacional.

O atleta ficou órfão de pai em 1985, quando tinha 8 anos. Apaixonado por tênis, Aldo Kuerten morreu durante um jogo. Era árbitro e foi o maior incentivador para que filho praticasse o esporte.

A fama chegou de repente para Guga e Guga surgiu de surpresa para os brasileiros. Em 1997, um grupo de jornalistas esportivos brasileiros, que cobriam a seleção brasileira de futebol em uma competição na França, foi enviado às pressas para o estádio de Roland Garros.

Lá, um brasileiro cabeludo, usando uniformes de cores chamativas, tinha chegado à final do tradicional torneio de Paris, e jogaria com o espanhol Sergi Bruguera. Deu Guga. O restante da história todo mundo conhece. 

O PODER DA MARCA PESSOAL

Com o faro para os negócios demonstrado pela família Kuerten e a competência para administrar a imagem do atleta, Guga entrou no grupo de esportistas que soube transformar sua habilidade e reputação em um negócio. 

Os lucros do ex-tenista são significativos, mas estão ainda longe dos obtidos por Pelé ou Ronaldo, embora as informações sobre o faturamento dos dois ex-atletas sejam controversas.

Mesmo aposentado como jogador desde 1977, o rei do futebol figurava em décimo lugar na lista dos esportistas mais ricos do mundo da revista americana Forbes em 2014. Michael Jordan, lenda do basquete, lidera o ranking dos milionários, seguido por Arnold Palmer, o ex-golfista falecido recentemente aos 87 anos.

Com a boa fama, além de anunciar os produtos da Lacoste, Guga foi convidado em 2012 para ser o embaixador global da marca francesa. 

As estimativas para o futuro são otimistas. Segundo Rafael Kuerten, até 2019, a marca do irmão terá um aumento nas vendas de mais 80%, vindas de novos licenciamentos. 

FOTOS: Divulgação