Negócios

Redução no prazo de pagamento aos lojistas preocupa Nubank


Um dos emissores de cartões que mais cresce no país ameaça fechar as portas se o BC reduzir de 30 para 2 dias o prazo de pagamento a varejistas


  Por Estadão Conteúdo 19 de Dezembro de 2016 às 17:34

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Nesta terça-feira (20/12), o Banco Central deve anunciar uma mudança drástica no prazo de pagamento das vendas realizadas por empresas emissoras de cartão de crédito aos lojistas. 

De acordo com Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, caso o Banco Central reduza mesmo o prazo, como vem sendo ventilado em Brasília, será o fim do negócio, que já emitiu mais de 1 milhão de cartões desde 2014.

A intenção de mudar o prazo foi oficializada na quinta-feira pelo presidente Michel Temer e pelo Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, durante lançamento do pacote para impulsionar a economia

Atualmente, quando um consumidor paga algo com cartão, o lojista leva 30 dias para receber - prazo maior que o visto em outros países, como os EUA, onde a demora é de dois dias. Para o governo, o encurtamento do processo vai favorecer o varejista e contribuir para a retomada da atividade.

De acordo com Cristina, o problema é que a mudança trará um custo adicional para todos os emissores de cartões de crédito, do Nubank aos bancos maiores, que dominam o mercado. 

A diferença é que o Nubank e os emissores menores não têm a mesma capacidade de financiamento de gigantes como Itaú Unibanco, Bradesco e Santander.

"Atualmente, um cliente que usa o cartão pagará a fatura, em média, 26 dias depois. Assim, o Nubank, como emissor, receberá o dinheiro apenas após este prazo", afirma Cristina. "Com o dinheiro, pagamos o adquirente (operador do cartão), que leva mais dois ou três dias para pagar o varejista. Isso dá o prazo de 30 dias", descreve.

A receita do Nubank vem de um porcentual descontado do valor repassado ao lojista, de aproximadamente 5%. Cerca de 1,5% fica para o Nubank e o restante para a adquirente (como Cielo, Rede e GetNet) e para a bandeira (como Mastercard e Visa).

LEIA MAIS: Mudanças em cartões são vistas com ceticismo

Se o prazo for encurtado para dois dias, alega Cristina, o Nubank terá de pagar o adquirente antes mesmo de receber o pagamento da fatura pelo cliente. Para isso, será preciso pegar recursos no mercado.

"Mudar dramaticamente, reduzir o prazo para dois dias, isso seria apocalíptico para a gente", diz Cristina. 

Para ela, mesmo que o prazo fosse reduzido para 15 dias, e não dois, o Nubank não teria como sobreviver. "Nós já fizemos algumas simulações. Com dois dias é apagar a luz e fechar a porta. Com 15 dias, a gente precisaria de quase R$ 1 bilhão de capital adicional do dia para a noite."

Cristina afirma não ver espaço para conseguir, no mercado brasileiro, uma capitalização deste valor no curto prazo. 

"E, mesmo que os outros bancos emprestassem o dinheiro, eu não tenho margem para pagar o custo mensal da dívida", diz. "Hoje, meu custo de capital é bem mais alto que 1,5%."

MAIS MUDANÇAS ESTÃO POR VIR

Nesta terça, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, deverá anunciar medidas ligadas ao crédito e a outras áreas de atuação da instituição.

Questionado ontem pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, a respeito das mudanças na área de cartões, o BC não se pronunciou.

No mercado financeiro, analistas acreditam que a redução do prazo de pagamento de lojistas pode ser fatal não apenas para alguns emissores, mas também para adquirentes menores. 

Há ainda preocupação com a operação de cartões de alguns varejistas que não possuem parceria com grandes bancos, como a Renner. Questionada, a empresa não se pronunciou.

A reportagem apurou que a questão do prazo para pagamento aos varejistas está sendo estudada e que o governo pode optar por mudanças nos juros do rotativo do cartão de crédito, e não necessariamente no prazo para pagar o varejista.

BANCOS LANÇAM SERVIÇO SEMELHANTE AO DE FINTECHS

A discussão sobre mudanças no setor de cartões no Brasil é mais uma disputa entre fintechs (startups que atuam na área financeira) e bancos.

As fintechs vêm incomodando os grandes bancos com cartões de crédito sem anuidade. Com estruturas enxutas, elas conseguem oferecer produtos com custos baixos.

Em reação, os grandes bancos têm adotado modelos semelhantes. O Banco do Brasil e o Bradesco lançaram um sistema digital para venda de cartões e o Santander anunciou a plataforma Santander Way, também para a área de cartões.

FOTO: Thinkstock






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