Negócios

Quem consegue concorrer com o arraso da Vovó Zuzu?


Por dentro do supermercado que, no coração de São Paulo, oferta 500 itens com prazo de validade prestes a vencer, a preços até 50% mais baratos que os rivais. A cada dia, 8 mil clientes passam por lá


  Por Fátima Fernandes 08 de Novembro de 2016 às 11:59

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Desde que o Código de Defesa do Consumidor passou a exigir, em 1990, data de fabricação e prazo de vigência das mercadorias estampadas nas embalagens, alimentos próximos do fim de validade são rejeitados pela maioria dos consumidores.

Um supermercado localizado no Parque Dom Pedro II, no coração de São Paulo,decidiu operar justamente com produtos prestes a vencer para atrair clientes com ofertas.

No Vovó Zuzu, iogurtes, margarinas, congelados, frios e sucos são vendidos a preços até 50% inferiores aos da concorrência.

A prática do supermercado, que começou a operar há aproximadamente 15 anos, com uma pequena portinha, vendendo iogurtes para camelôs da região, tem sido bem-sucedida, de acordo com Francisco Pinheiro Barbosa, gerente da loja.

Hamburger da Perdigão por R$ 2,99 a caixa, lasanha sabor quatro queijos da Aurora, por R$ 5,99, peru da Sadia, por R$ 24,99, iogurte Danio da Danone (124 gramas), por R$ 0,99.

São preços como esses que têm levado ao Vovó Zuzu, acostumado a  lidar com o público que sobe e desce de ônibus no Parque dom Pedro II, consumidores de todas as regiões de São Paulo.

“Encosta cada ‘possante’ no nosso estacionamento...Os clientes que frequentam a loja não são somente os mais pobres, não. É um pessoal bacana que fica besta com os nossos preços e enche o carrinho de compra”, afirma o gerente.

A crise e a inflação acabaram virando aliados do Vovó  Zuzu, que está engrossando a sua lista de clientes.

Ao menos 8 mil pessoas frequentam a loja diariamente e 2 mil são informadas todos os dias pelo WhatsApp sobre as ofertas relâmpago da loja.

De acordo como Barbosa, o faturamento da empresa, não revelado, cresceu entre 20% e 30% desde que começou a crise.  

A prática de comercializar produtos prestes a vencer, diz Barbosa, atende muito bem o cliente que compra produtos para serem consumidos em poucas horas.

A loja comercializa cerca de 4 mil pãezinhos (tipo francês) por dia a R$ 6,99 o quilo, o equivalente pelo menos à metade do praticado nos supermercados e nas padarias de São Paulo.

Recentemente, o supermercado selou uma negociação com BR Foods para comercializar pizza de muçarela e calabresa da Sadia por R$ 2,99 a caixa. O prazo de validade era de uma semana.

Vendeu 2 mil caixas em dois dias. "Havia cliente levando dez caixas de pizza sob o braço. Fazemos ofertas malucas aqui”, afirma ele.

O Vovó Zuzu é administrado pelos irmãos Cláudio e Júnior, e por um sócio, Ricardo. Eles preferem não revelar os sobrenomes.

Os três são filhos dos dois fundadores do supermercado, que começaram o negócio com açougues.

O nome Vovó Zuzu é uma homenagem à mãe de Cláudio e Júnior, dona Zuleica, que costuma ser chamada de vovó Zuzu por uma neta.

Ambos são donos da rede de supermercados Santa Fé, com lojas em Taboão da Serra, Pirituba e Campo Limpo Paulista.

De acordo com Barbosa, apenas uma pequena parcela dos dez mil itens à venda -cerca de 500- têm validade prestes a vencer.

LOJA DA VOVÓ ZUZU: DOS DEZ MIL ÍTENS À VENDA, APENAS 500 TÊM PREÇOS DE ARRASAR

Mas admite que são exatamente os produtos baratos que trazem os clientes para dentro da loja.

Essas mercadorias, de acordo com ele, são adquiridas diretamente das indústrias, como J. Macedo, Aurora e BR Foods.

“Explicamos para as indústrias que, em vez de elas jogarem os produtos fora, nós podemos comprá-los e alimentar as famílias com menor poder aquisitivo”, diz ele.

Algumas companhias, como a Nestlé, não gostam de vender produtos nessas condições. "Isso porque entendem que a venda de um item, até com preço menor do que o custo, pode ‘queimar’ a marca.”

Barbosa diz que este também deve ser o principal motivo pelo qual os supermercados não adotam esta prática, pelo menos de forma explícita, como faz o Vovó Zuzu.

Para o consultor Sandro Benelli, da Enéas Pestana & Associados, a venda de produtos com data próxima do vencimento significa a comercialização de excesso de estoque, ou seja, de volumes de produtos que, por alguma razão, foram comprados indevidamente.

“Em geral, as lojas que vendem esses produtos são uma alternativa para as classes de renda mais baixa que podem comprar algo fora do seu padrão normal de consumo, e até para os pequenos transformadores, que vão utilizar de imediato os produtos comprados. No segmento alimentar, é um negócio marginal, mas é um negócio”, diz ele.

LEIA MAIS: O poder irresistível das promoções de preço em meio à crise

Benelli afirma desconhecer a modalidade mundo afora -exceto em produtos não-alimentares.

Nelson Barrizzelli, consultor de varejo, diz que a prática adotada pelo Vovó Zuzu está crescendo muito em lojas nas periferias no Brasil.

Para as indústrias, de acordo com ele, é uma ótima opção, pois serve como desova de produtos que, inevitavelmente. seriam incinerados.

Para os empreendedores que “descobriram este nicho” é, igualmente, uma ótima oportunidade de ganhar dinheiro com produtos que iriam para o lixo.

“São lojas especificamente montadas para as classes D e E que não teriam acesso a estes produtos de outra forma. Como a classe C “está saindo do paraíso”, certamente parte dessa classe deve estar aproveitando esses produtos de preço muito baixo para consumo imediato.”

Os lojistas que se sentirem estimulados a adotar a prática de preços do Vovó Zuzu devem ter muito cuidado, de acordo com Marcelo Jacinto, diretor da SOUMAIS Marketing e Fidelização, plataforma que apoia empresas na coleta de informação e inteligência de dados.

“Esse é um risco que só pode ser assumido por empresas que conhecem muito bem o público consumidor, a frequência de compra e de consumo de produtos, como os clientes com alta elasticidade em resposta ao preço”, diz ele.

LEIA MAIS: Evitar falta de produtos vira desafio para os supermercados

Ao mesmo tempo em que o excesso de estoque pode se tornar uma oportunidade de negócio, pois há empresas especializadas em comprar, leiloar e intermediar as sobras de varejistas, o empresário que não tiver uma boa gestão desses produtos pode acabar tendo prejuízo, até porque o prazo de venda é extremamente curto.

Vale lembrar que, desde 2014, supermercados são obrigados a exibir gôndolas específicas para os produtos que estão próximos da data de vencimento.

FOTOS: William Chausse e Fátima Fernandes/Diário do Comércio e Divulgação