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Queda do dólar impulsiona viagens internacionais


Agências de turismo estimam que houve aumento de 25% a 30% nas vendas de pacotes desde o início deste ano em comparação com 2016


  Por Estadão Conteúdo 17 de Fevereiro de 2017 às 09:07

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O dólar à vista encerrou a quinta-feira (16/02), cotado a R$ 3,082 - até registrou uma leve alta, de 0,72% em relação ao dia anterior, mas acumula queda de 24,3% em um ano.

O mercado projeta que a divisa possa ficar abaixo de R$ 3 nas próximas semanas, embalada, entre outras coisas, pela forte entrada de recursos estrangeiros no País.

As quedas consecutivas ao longo do ano e a perspectiva de mais baixas fizeram aumentar as emissões de viagens internacionais nas agências de turismo. O setor estima um aumento de 25% a 30% nas vendas desde o início deste ano em comparação com 2016.

"Com a crise e o dólar alto, a alta temporada do ano passado ficou marcada pelo movimento de consumidores que trocavam as viagens internacionais por destinos domésticos. Desde o fim de 2016, porém, quem planejava ir para o exterior tem podido se programar com mais tranquilidade. A recessão deixou o consumidor com menos renda, mas a queda do dólar nos abriu muitas oportunidades", diz Luiz Eduardo Falco, presidente da CVC.

Além dos destinos internacionais mais procurados pelos brasileiros, como Miami, Buenos Aires e Caribe, ele aposta em um aumento da procura pelo turismo no México, que deve sentir o mal-estar com os Estados Unidos provocado pelo governo Trump e ficar mais barato para os brasileiros este ano.

"Não deixa de ser uma oportunidade de recuperação para o setor, mas o maior entrave das agências de turismo hoje é o desemprego ainda bem alto e o medo que ele provoca na classe média", avalia Marcos Arbaitman, presidente da Maringá Turismo. "O incentivo que um dólar mais barato traz para o turista comum é inegável. A família adapta o passeio às suas condições mais modestas, mas já pode viajar projetando gastar até 30% menos."

GASTOS

Os gastos de brasileiros no exterior ficaram em US$ 1,578 bilhão em janeiro, de acordo com o Banco Central (BC). O resultado é 87,95% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, quando os brasileiros gastaram US$ 840 milhões.

Já as receitas de estrangeiros em viagem no Brasil não variaram tanto do ano passado pra cá. Em janeiro deste ano, as receitas ficaram em US$ 664 milhões, contra US$ 650 milhões registrados em janeiro de 2016.

Com esses resultados das despesas de brasileiros no exterior e as receitas de estrangeiros no Brasil, a conta de viagens internacionais ficou negativa em US$ 914 milhões, no mês passado.

COMPRA

As baixas do dólar também esquentaram a procura pela moeda nas casas de câmbio em todo o País. A alta no movimento é estimada em 30% em janeiro, em relação ao mesmo período de 2016.

"O que a gente percebe é a volta do turista ao varejo. Em 2016, a maioria que comprava dólar era quem precisava muito viajar ou iria para algum compromisso de trabalho. O cliente está mais atento às quedas da moeda e compra dois, três meses antes de viajar", diz Reginaldo Galhardo, da Associação Brasileira das Corretoras de Câmbio (Abracam).

O segmento sentiu a retração do consumo no ano passado. A compra de moeda estrangeira em espécie recuou 7% em 2016, de acordo com dados do Banco Central, para o menor patamar em cinco anos.

Para não se perder com as altas e baixas da moeda americana, a recomendação de especialistas é não tentar adivinhar quando o dólar vai cair para visitar a casa de câmbio.

O ideal é se programar para começar a comprar a moeda dois ou três meses antes de viajar e parcelar a compra dos dólares, para equilibrar as perdas com as variações.

"Algumas corretoras oferecem um serviço de programação das compras de moeda. O cliente recebe uma ligação toda a segunda-feira, por exemplo, para lembrá-lo de comprar a parcela da semana", diz Alexandre Fialho, da Cotação.

VENDA

Se o real mais forte anima quem quer viajar para o exterior, é uma péssima notícia para as empresas que contavam com as exportações para compensar a queda do consumo interno.

"Esse câmbio não tem competitividade para a exportação. Muitas vezes, a empresa até insiste em vender para o exterior, só para não ficar com a fábrica parada, mas acaba assumindo um prejuízo para não perder o cliente", lembra José Augusto de Castro, da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

"Essa realidade, infelizmente, fará sangrar ainda mais o setor de manufaturados. O próprio governo já havia estimado que as exportações não são viáveis com um dólar abaixo de R$ 3,50. Estamos em num momento muito particular na economia, com investimento estrangeiro em alta, juros muito elevados e a Bolsa registrando fortes ganhos. Só não podemos fechar os olhos para os riscos de uma desindustrialização mais forte."

*Com Agência Brasil

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