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Queda de 8,9% no comércio de livros leva crise ao setor


O resultado foi um baque nas contas das grandes livrarias, que empreenderam uma forte expansão nos últimos anos, incentivadas pelos shopping centers, que viam as megastores como “âncoras”


  Por Estadão Conteúdo 06 de Março de 2017 às 09:01

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Vender livros no Brasil não é tarefa fácil, ainda mais quando a economia anda para trás. Em 2016, a comercialização de livros no País recuou 8,9%, comprometendo a rentabilidade de editoras e, principalmente, de livrarias.

Enquanto os produtores de livros sofreram com o cenário macroeconômico, o varejo tradicional teve de lidar também com a migração do cliente para as vendas online e com a chegada de uma poderosa concorrente: a americana Amazon.

O resultado foi um baque nas contas das grandes livrarias, que empreenderam uma forte expansão nos últimos anos, incentivadas pelas empresas de shopping centers, que viam as megastores culturais como “âncoras” de seus centros comerciais.

“Muitas redes cresceram de forma desordenada e fora das regiões onde tinham público cativo, nem sempre com bons resultados”, disse uma fonte de mercado. A dificuldade de repasse da inflação para os preços é um dos pontos de estresse do setor.

“Meu livro mais ‘pop’ de 2008 tinha preço de capa de R$ 29,90. No ano passado, minha grande aposta custava, novamente, R$ 29,90”, compara uma fonte de uma grande editora nacional.

O valor médio por obra hoje é de R$ 38,66. Embora tenha havido uma reposição de 15% nos últimos dois anos, o desconto médio aplicado pelo varejo é de 17,9%, o que faz o preço médio real ser de R$ 31,74.

“Os custos cresceram, mas a receita do setor não acompanhou”, diz Marcos Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

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Em dois anos, a Livraria Cultura viu sua receita cair 17%. Um dos grandes vilões da operação da empresa foi a aposta em uma loja no centro do Rio de Janeiro, dizem fontes do mercado editorial.

Sergio Herz, presidente do conselho de administração da Cultura, admitiu que a unidade traz desafios, em grande parte por sofrer com a retração de vendas decorrente da situação econômica do Rio e com os protestos que costumam ser realizados na região, próxima à Câmara Municipal.

Segundo apurou o Estado de S.Paulo, a empresa, que compra os livros por consignação, tem repassado às editoras o dinheiro referente às vendas com atrasos que chegariam a seis meses.

“As editoras não têm condições de suportar esse atraso por muito tempo”, disse uma fonte. Herz, porém, garante que não há atraso. Segundo ele, o que houve foi uma renegociação dos prazos com as editoras.

As dificuldades enfrentadas pela Livraria Cultura tornaram-se públicas pouco antes do Carnaval, quando a Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, divulgou que a Saraiva analisava comprar a concorrente.

O presidente da Cultura, Sergio Herz, no entanto, nega que a empresa esteja à venda ou que lojas específicas estejam em negociação.

"Somos compradores. Olhamos aquisições no segmento de tecnologia que possam fazer crescer nosso negócio. Estamos apostando em crescimento online. Nossa postura é de ser consolidador do setor", disse ao jornal O Estado de S. Paulo.

Em dezembro, a Cultura comprou a participação de 25% que o fundo Neo detinha no negócio. Herz também nega que a saída do fundo de investimentos tenha ocorrido por falta de interesse na operação, que enfrenta queda nas receitas há dois anos ? em 2016, o faturamento ficou em R$ 380 milhões, ante R$ 460 milhões em 2014.

"É normal um fundo sair de uma empresa e nós, por acreditarmos no negócio, compramos."

O Neo havia adquirido a participação em 2009, injetando capital para acelerar o processo de expansão física da rede.

Além da Cultura, outras varejistas enfrentam desafios. Na semana passada, a francesa Fnac anunciou que busca um parceiro no País, onde vem tendo resultados abaixo do esperado.

A Saraiva tem reduzido sua aposta nos livros e ampliado espaço para tecnologia, games e aluguel de área para cafés.
A companhia vendeu sua editora e, mesmo assim, continua registrando prejuízo – nos nove primeiros meses de 2016, as perdas foram de R$ 27,9 milhões.

A Livraria da Vila diminuiu o tamanho de sua loja no shopping Cidade Jardim, em São Paulo, de 2,5 mil m2 para 400 m2 e deve fazer o mesmo na unidade do shopping JK Iguatemi, que tem 1,7 mil m2.

De acordo com o dono da empresa, Samuel Seibel, essas operações não seguem o padrão da rede, cujas lojas têm em média 750 m2.

Justamente nos últimos dois anos, quando os resultados das livrarias começaram a piorar, a gigante Amazon iniciou sua operação de livros físicos no Brasil. A companhia americana caiu nas graças das editoras porque, ao contrário das principais livrarias físicas, compra os livros, em vez de pegá-los em consignação.

Uma grande editora informou que as vendas de seus livros por meio da Amazon, que eram próximas de zero há dois anos, representaram 10% do faturamento em 2016.

Outra companhia afirmou que suas vendas dentro da Amazon cresceram 70% no ano passado.

Segundo a empresa americana, ter estoque próprio ajuda a deixar a operação mais “redonda”. Para Daniel Mazini, gerente-geral para livros impressos da Amazon Brasil, a aquisição dos exemplares deixa o fluxo de caixa das editoras mais previsível.

As livrarias Cultura, Nobel, da Travessa e da Vila, no entanto, afirmaram que a Amazon ainda não as preocupa.

FOTO: Itaci Batista/Estadão Conteúdo