Negócios

Quando vender uma empresa é um grande negócio


O mercado de fusões e aquisições está com o pé no freio. Encontrar boas oportunidades, como ocorreu com a catarinense Arvus, pode representar um salto para o empreendedor


  Por Italo Rufino 30 de Maio de 2016 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


O mercado brasileiro de fusões e aquisições já teve dias melhores – e, hoje, vive uma dicotomia. 

A alta do dólar faz com que as empresas brasileiras se tornem mais atrativas aos investidores estrangeiros -grandes multinacionais e fundos de private equity.

Do ponto de vista do empreendedor, recorrer a uma venda ou fusão estratégica pode ser uma alternativa para captar recursos e ganhar apoio em gestão. 

No entanto, a instabilidade política e econômica no país freia o apetite dos investidores.

Por mais que as empresas brasileiras estejam “baratas”, o receio de realizar grandes investimentos em época de desassossego econômico é maior do que o "desconto" do mercado nacional. 

De acordo com uma pesquisa da consultoria PwC, entre janeiro e março de 2016, houve 148 transações entre empresas no Brasil – o número inclui operações de aquisições, joint venture, fusão, incorporação e cisão. 

Em 2014, ano recorde para o mercado de fusões e aquisições no Brasil, o número foi bem maior. Foram 879 transações – 191 entre janeiro e março. 

“O que favorece o mercado de negócios em fusões e aquisições é a previsibilidade da economia”, afirma Rogério Gollo, sócio da PwC e especialista em fusões e aquisições.

“A partir do momento em que o país apresentar sinais de crescimento, controle da inflação e uma dívida pública sustentável, o mercado deverá reaquecer naturalmente.” 

Embora em menor ritmo, ainda há oportunidades. O setor de TI, por exemplo, é um dos que se mantém dinâmico – e representou 19% das transações realizadas em 2016. 

O setor possui pequenas e médias empresas atrativas para o investidor por dois motivos: capacidade de desenvolver novas tecnologias e atuação em nichos de mercado. 

Esse é exatamente o cenário que motivou a aquisição da pequena empresa Arvus, que produzia equipamentos e softwares de agricultura de precisão, pela empresa suíça Hexagon, líder mundial no fornecimento de tecnologias da informação para setores industriais e geoespaciais. 

Conheça a história da Arvus. 

SOLUÇÃO TECNOLÓGICA EM AGRICULTURA 

A Arvus foi fundada em 2005, em Santa Catarina, por Bernardo de Castro, engenheiro de controle e automação industrial. A experiência de Castro no empreendedorismo começou quando ele foi passar férias na fazenda de soja de um tio, em Goiás. 

CASTRO: DE EMPREENDEDOR A PRESIDENTE DE MULTINACIONAL 

Castro percebeu que as máquinas usadas na fazenda precisavam ser calibradas manualmente para aplicarem a quantidade específica de fertilizante no solo de modo a não desperdiçar o insumo -- a área do terreno mais rica em calcário, por exemplo, precisa de menos fertilizante. 

Castro, então, teve a ideia de desenvolver um equipamento que automatizasse o despejo de fertilizante no solo usando um sistema de GPS.

Era o início da Arvus, que se tornou pioneira na produção nacional de equipamentos para agricultura de precisão -- prática agrícola que utiliza tecnologia e análise de dados baseada na variabilidade do solo e do clima. 

Nos anos seguintes, a empresa expandiu o portifólio de produtos para a área florestal e conquistou grandes clientes, como Suzano Papel e Celulose, Fibria e Aracruz Celulose. 

Em 2012, a Arvus apresentou receita líquida de R$ 7,9 milhões --a média de crescimento nos três anos anteriores havia sido de impressionantes 315%. 

O início do processo que culminaria na incorporação com a Hexagon teve início em 2009. A Arvus recebeu investimento do Criatec, fundo de capital semente que investe em pequenas empresas inovadoras.

Embora não revele o valor do aporte, Castro afirma que os recursos foram aplicados, principalmente, na contratação de vendedores e em desenvolvimento de produtos.

A Arvus chegou a ter cerca de 20 funcionários, um quarto do total de colaboradores, dedicados à pesquisa e desenvolvimento. 

APLICAÇÃO DA TECNOLOGIA DA HEXAGON AGRICULTURE NO CAMPO

De acordo com Castro, ao receber o investimento, a empresa traçou um plano de crescimento agressivo na América do Sul.

Um dos objetivos era transformar a empresa em um ativo interessante para grandes companhias que desejassem atuar na região.

A oportunidade surgiu quando a Hexagon, por meio de sua subsidiária Leica Geosystems, demonstrou interesse em atuar no setor agrícola brasileiro, mas não possuía negócios relevantes no país. 

Na época, a Hexagon era fornecedora de sistemas de GPS para Arvus, que já detinham um portifólio de equipamentos e softwares maior do que o da própria Leica Geosystems. 

“A Hexagon possui um perfil de crescimento por aquisição”, afirma Castro. “E a Arvus solucionava algumas lacunas que a companhia teria ao atuar no Brasil.”

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Com a aquisição da Arvus, formalizada em 2014, a Hexagon criou a Hexagon Agriculture. Bernardo se tornou diretor-presidente da empresa.

Logo nos primeiros meses, a nova companhia adquiriu outra empresa brasileira, a iLab Solutions, que desenvolvia softwares de otimização de processos em agricultura e atuava no mercado de cana de açúcar, novidade para a Hexagon.

De acordo com Castro, a venda da Arvus foi interessante por causa do suporte que a operação recebeu para internacionalizar as vendas. Hoje, sob comando de Castro, a Hexagon Agriculture atua na Europa, América do Norte e Ásia. 

Outro ponto positivo foi o alinhamento tecnológico e de produto das três empresas, o que tornou a Hexagon Agriculture mais competitiva no mercado global. 

Hoje, a marca Arvus ainda é usada como linha de produtos. Na avaliação de Castro, a venda da empresa representou um ciclo de investimentos que chegou ao fim. 

“Alguns empreendedores podem ter como objetivo perpetuar uma empresa e a transferir para os filhos”, afirma Castro. “No meu caso, o apego era secundário e a venda era vista como um objetivo de negócios.” 

IMAGENS: Thinkstock e Divulgação