Negócios

Pressão de lojistas leva shoppings a reduzir preço de aluguel


Sonae Sierra Brasil, que administra dez shoppings no país, reduz de 10% a 15% o valor do aluguel, se loja comprovar queda de receita e tiver plano para elevar o faturamento


  Por Fátima Fernandes 13 de Junho de 2016 às 13:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


A queda do faturamento das lojas forçou as empresas de shopping centers a rever um dos pontos cruciais nas negociações com os comerciantes: os aluguéis. Neste ano, os lojistas têm conseguido descontos de 25% a 30%, em média, nos preços da locação, por períodos de três a seis meses, e, em alguns casos, até isenção do aluguel - uma prática impensável nos tempos em que a economia ia bem.

“Com o quadro recessivo, o entendimento entre as partes é que é melhor reduzir o aluguel, e até deixar de cobrá-lo por um certo período, do que elevar a vacância”, afirma Luís Augusto da Silva, diretor de relações institucionais da Alshop, associação que reúne cerca de 40 mil lojistas de shoppings no país.

Os comerciantes, de acordo com Silva, não têm outra opção além de dividir com as empresas de shoppings os efeitos da queda de faturamento. “O consumidor está com o pé no freio”, diz.

De acordo com o diretor da Alshop, os lojistas têm informado a associação que, nas negociações com as administradoras de shoppings, estão conseguindo descontos de 25% a 30%, em média, nos preços de aluguéis.

A Sonae Sierra Brasil, que administra dez shoppings no país, decidiu dar descontos de 10% a 15%, em média, por períodos de três a seis meses, para ajudar os lojistas a enfrentar a falta de clientes.

“Se a loja comprova que está vendendo menos e possui um plano para recuperar o faturamento, nós temos planos para descontos de aluguel”, afirma Waldir Chao, diretor de Operações e Leasing da Sonae Sierra Brasil.

WALDIR CHAO, DA SONAE SIERRA: DESCONTOS NO ALUGUEL PARA ENFRENTAR A CRISE

Ninguém duvida que o varejo está faturando menos. Basta andar pelas ruas tradicionais do comércio ou em shoppings centers para ver pontos comerciais fechados e vendedores ansiosos por clientes.

Em maio, o fluxo de visitantes nos centros de compras caiu 6,78% em relação a igual período do ano passado, de acordo com levantamento feito pela Abrasce emparceia com a FX Flow Intelligence, empresa especializada em monitoramento de fluxo no varejo. 

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Ainda assim, não está fácil convencer as administradoras de shoppings a rever os contratos de aluguel, de acordo com lojistas.

Após muita negociação, a Código Girls, rede especializada em roupas para o público teen, com quase 70 lojas em shoppings, conseguiu redução até 50% no preço da locação de alguns de seus pontos.

Leyre Pinto, sócio-proprietário da rede, com lojas próprias e franquias, diz que conseguiu cortar pela metade o preço do aluguel de lojas no Shopping Metrópole, na região do Grande ABC, administrado pela Sonae Sierra, e no Shopping Parque das Bandeiras, em Campinas, do grupo Ancar Ivanhoe.

No Osasco Plaza Shopping (BR Malls) e no Shopping Metrô Boulevard Tatuapé (AD Shopping), a rede conseguiu descontos de 30% nos valores do aluguel. No Park Shopping São Caetano (Multiplan), o desconto foi menor, de 15%, por um período de três meses.

“A negociação não está nada fácil. Alguns shoppings continuam intransigentes, como o Internacional Shopping Guarulhos, administrado pela General Shopping Brasil, que possui uma prática de preços incoerente com o momento que o país atravessa”, diz Pinto.

Glauco Humai, presidente da Abrasce, associação que reúne as empresas de shoppings ceners, diz que a negociação entre shoppings e lojistas é recorrente, não acontece somente em períodos de crise.

“O que existe neste momento é um esforço coletivo para enfrentar a crise. A vacância nos shoppings aumentou, mas está em níveis sadios, especialmente nos empreendimentos mais consolidados”, diz.

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Normalmente, diz Chao, da Sonae Sierra, a troca de lojas em um shopping da empresa atinge entre 10 e 15 pontos por ano. Neste ano, este número deu um salto, chegando a 30 pontos.

“É chato perder lojistas, mas, por outro lado, esse é um processo que acelera a atualização do mix de lojas. Abre-se espaço para trazer marcas novas”, afirma. 

Os pequenos comerciantes do setor de vestuário, com lojas de 40 a 50 metros quadrados, são os que estão mais sofrendo com a crise. Apesar de a saída das lojas dos empreendimentos ser mais intensa, a empresa, diz Chao, tem conseguido repor os espaços vagos muito rapidamente, o que tem permitido manter baixo o índice de vacância.

Há cerca de um ano, a empresa passou a adotar um sistema para agilizar o processo de prospecção de lojistas, aprovação e elaboração de contratos. “Com a adoção do sistema, a empresa ganhou em produtividade nas aprovações de propostas e também na assinatura de contratos”, diz Chao.

Além disso, o sistema permitiu que as equipes de vendas visualizem em tempo real o número de lojas vagas, lojas em prospecção. “O sistema gerou ainda uma competição saudável entre as equipes para atender as metas comerciais,” diz

Nos shoppings mais novos da empresa, inaugurados pouco antes da crise, em 2012 e 2013, como o Passeio das Águas, em Goiânia (GO), o Uberlândia Shopping, em Uberlândia (MG) e o Boulevard  Londrina Shopping, em Londrina (PR), a taxa de vacância atinge 17%.

Nos shoppings mais antigos da empresa, como o Parque D. Pedro Shopping, a taxa de vacância já é da ordem de 2% a 3%, o que é considerada normal, de acordo com Chao.

Um levantamento realizado recentemente pelo Ibope Inteligência revela que a vacância média nos shoppings brasileiros inaugurados nos últimos três anos é muito maior do que a registrada nos empreendimentos da Sonae Sierra: atinge 45%. Isso significa que, do total de 13,4 mil lojas lançadas nos 77 shoppings inaugurados no país entre 2013 e 2015, aproximadamente 6 mil estavam desocupadas.

Nos 421 empreendimentos consolidados, inaugurados até 2012, a taxa de vacância é menor, de 7,6%, o que representa 6,2 mil lojas vazias, de acordo com o Ibope Inteligência. Para enfrentar a crise, a Sonae Sierra decidiu reforçar campanhas em parceria com os lojistas.

Em janeiro, de acordo com Chao, os empreendimentos promoveram a Terça Revolucionária, dia em que os lojistas puderam até levar os produtos para os corredores, uma forma de chamar mais a atenção dos consumidores, com prática de descontos de até 60%.

Novas ações estão sendo estudadas pela empresa em parceria com os lojistas na tentativa de aumentar o público nos centros de compras.

Procuradas, as empresas BRMalls e Multiplan informaram, por meio de suas assessorias de imprensa, que não costumam dar informações sobre práticas comerciais.

Foto: Divulgação