Negócios

Preço do frete dispara e faltam contêineres para embarques


Paralisação dos negócios no mundo em 2020 causa atrasos e alta de até 300% nos custos dos transportes internacionais, o que já começa a pressionar a inflação


  Por Fátima Fernandes 28 de Maio de 2021 às 08:32

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site varejoemdia.com


Se há um item no custo de um produto que o consumidor tem prestado cada vez mais atenção nos dias de hoje é o frete. Com a expansão da venda on-line, o custo do transporte da mercadoria até a porta de casa chega a ser decisivo na hora do clique da compra, especialmente se for grátis.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, é exatamente o frete que tem tirado o sono dos empresários que atuam no transporte internacional de carga.

A paralisação dos negócios no mundo por três meses no ano passado acabou provocando atraso e encarecimento nos custos dos transportes jamais imaginados.

Com 25 anos, a Asia Shipping, uma das maiores empresas de transporte internacional de carga do mundo, informa que o preço do frete subiu cerca de 300%.

O custo para trazer um contêiner de 40 pés (12 metros) da Ásia para a América do Sul era de US$ 2 mil antes da pandemia. Hoje supera US$ 8 mil, informa a empresa.

O caminho contrário, isto é, os embarques do Brasil para o resto do mundo, por exemplo, segue a mesma tendência.

A exportação de um contêiner, que custava US$ 1,5 mil, em média, hoje sai por US$ 4 mil a US$ 5 mil para este trajeto.

“Estou há 25 anos neste mercado e nunca tinha visto um custo de frete tão alto”, afirma Victor Sanches, responsável pela área de exportação da Asia Shipping.

O frete sempre tem impacto com crises mundiais, diz ele. Mas as pressões, geralmente, não duram mais de um ou dois meses.

Desta vez, a pressão por aumentos, que ocorre desde o ano passado, se intensificou nos últimos três meses.

A Duratex pagava de US$ 1 mil a US$ 1,2 mil por contêiner para exportar madeira do Brasil para vários países do mundo.

“Agora, estamos trabalhando com valores que variam de US$ 2,8 mil a US$ 3,5 mil”, afirma Lorena Barros Cabral, coordenadora de exportação da empresa.

Além dos preços em alta, as empresas que atuam com o transporte internacional de cargas estão tendo de enfrentar atrasos que superam dois meses.

Uma carga da Duratex com produtos para embarcar para a República Dominicana desde o mês de março ainda aguarda confirmação de reserva de contêineres.

“Estamos em uma situação bastante difícil e desconfortável, pois temos de manter contato com os clientes o tempo todo para explicar sobre os atrasos”, diz.

Com 11 anos de experiência em exportação, Lorena afirma que nunca havia visto nada parecido, aumento tão elevado do custo do frete com falta de espaços em navios.

“Este é um dos piores cenários já vividos pela logística internacional”, diz.

Algumas empresas conseguem fazer os embarques, de acordo com empresários, mediante o pagamento de frete premium, isto é, ainda mais elevado.

PEGAR OU LARGAR

“O fato é que a rolagem de carga virou uma rotina”, afirma Damaris Ávila da Costa, presidente do Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras (Ceciex).

Muitas vezes, de acordo com ela, o despachante faz a reserva para a exportação da carga do cliente e não consegue realizar o embarque na data programada.

E, quando consegue, outra surpresa: fechou o embarque com frete de US$ 2,2 mil por contêiner em março e tem de pagar US$ 3,3 mil para embarcar em maio.

O exemplo acima é de um exportador que enviou placas de MDF para Luanda, capital da Angola. A Braseco, empresa comercial exportadora, cuidou do embarque.

“O pior é que não existe margem para negociar preços. É pegar ou largar”, afirma Damaris.

Um contêiner vindo da China que custava US$ 900 até o ano passado, de acordo com ela, chega a custar agora US$ 7 mil.

“As operações estão caóticas. Os embarques da China para o Brasil, por exemplo, estão sendo marcados para final de julho e começo de agosto”, diz Sanches.

FALTA CONTÊINER

A explicação das empresas donas dos navios, de acordo com empresários, é que, por conta da pandemia, contêineres ficaram presos em diversos portos do mundo.

A demanda aumentou a partir do segundo semestre do ano passado provocando um desarranjo no mercado de logística internacional.

O pior é que, de acordo com Damaris, a construção de novos navios está paralisada há dois anos. “É um problema, portanto, de oferta e demanda.”

“As frotas de navios são limitadas. Para um navio entrar em uso comercial leva de dois a três anos, no mínimo, em um estaleiro”, diz Sanches.

Atualmente, diz ele, os navios estão operando acima de 90% da capacidade. O percentual histórico é ao redor de 75%.

O atraso nos embarques, de acordo com exportadores, está causando problemas para os clientes no exterior, que também estão sendo obrigados a postergar as entregas.

E quem importa matéria-prima para produção aqui no Brasil, também está sendo forçado a atrasar a fabricação e as entregas.

“A nossa esperança é que os armadores coloquem mais navios em linha”, diz Damaris.

MAIS INFLAÇÃO

A disparada nos preços dos fretes para exportar e importar, de acordo com empresários, deve pressionar a inflação no mercado brasileiro.

Isso porque muitos dos produtos fabricados no país levam peças ou partes importadas, como telefones celulares, televisores, carros e outros produtos.

“Todos os itens de custos relacionados com a China e arredores estão sob pressão de alta de preços, como as commodities agrícolas”, afirma Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores.

“Então, todas as mercadorias e os serviços envolvidos entre Brasil e China/Ásia estão sob pressão de preços, incluindo o frete”, diz.

A China, diz ele, começou a se recuperar dos efeitos da pandemia mais rapidamente do que os países do Ocidente e está estocando mais alimentos, e o Brasil se tornou um grande fornecedor de grãos para a Ásia.

Os preços das commodities, diz ele, tiveram aumentos estratosféricos durante a pandemia, impactando todo o sistema de custos envolvidos na cadeia produtiva.

“Além desta alta de preços das commodities, no caso do Brasil, houve uma boa desvalorização do real nos últimos meses e, com isso, tudo sobe em reais.”

Diante deste cenário, para Silveira, o IPCA, que fechou em 4,52% no ano passado, deve chegar a 5,5% neste ano.

O último Relatório de Mercado Focus, feito com base em projeções de economistas, segue na mesma direção: a previsão para o IPCA neste ano subiu de 5,15% para 5,24%.

 

IMAGEM: Freepik






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