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Por que não dá para comemorar a reação do varejo?


Trajetória de recuo atingiu o pico em janeiro, segundo a ACSP. Lojas de materiais de construção e revendedoras de veículos influenciaram o resultado negativo de 8,1%, de acordo com o Boletim AC Varejo


  Por Karina Lignelli 28 de Abril de 2016 às 19:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Uma ligeira melhora, mas que ainda não dá para comemorar. Em fevereiro de 2016, o varejo ampliado do Estado de São Paulo – que inclui lojas de automóveis e materiais de construção – registrou queda de 8,1% no volume de vendas comparado a igual mês de 2015, segundo o boletim AC Varejo da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

O recuo foi menor do que o de janeiro – quando a queda chegou a 13,1%, no ápice de uma trajetória descendente que vinha desde setembro de 2015.

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Porém, isso não significa uma notícia animadora: esse é um mero efeito estatístico, segundo Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP. 

“O ano passado foi muito ruim, e o varejo já caiu o que tinha que cair. Agora, sinaliza uma tendência de queda até abril, que deve atenuar em termos anuais a partir de maio”, afirma.

No varejo restrito, as vendas registraram queda de 9,5% e o faturamento cresceu 2,1%, na mesma base de comparação. 

“O desempenho do comércio paulista segue sinalizando o aprofundamento da queda do volume de vendas pelo menos até o primeiro semestre. A contínua piora das condições financeiras e a maior insegurança no emprego continuam a manter a confiança do consumidor em mínimas históricas, reduzindo sua disposição para comprar”, comenta Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp).    

O presidente da ACSP lembra que as quedas são mais acentuadas em São Paulo, pois o estado é mais afetado pela crise do setor industrial. “Caso haja um novo governo, é preciso estimular a recuperação da confiança para que o desempenho do comércio possa melhorar.” 

Mas, se isso acontecer, não significa que essa recuperação das vendas será imediata: segundo Gamboa, a confiança do consumidor continua caindo, o crédito está cada vez mais caro e "não há para onde correr." 

“Independente das mudanças (na política ou na economia), não cairá dinheiro na conta das pessoas, nem elas vão recuperar o emprego de repente. Pode mudar a expectativa, mas vai levar tempo”, diz.

SEGMENTOS

Na comparação com fevereiro de 2015, todos os setores econômicos do varejo ampliado registraram quedas no volume de vendas. 

O destaque foram as lojas de material de construção (-13,5%), concessionárias de veículos (-13,1%), lojas de departamento, eletrodomésticos e eletroeletrônicos (-12,8%) e lojas de móveis e decorações (-12,6%). 

Por serem segmentos que comercializam artigos de maior valor, a compra é mais dependente da disponibilidade e condições do crédito, que atualmente está escasso por parte de bancos e financeiras.

Já em relação ao faturamento nominal, três segmentos apresentaram alta na variação anual: supermercados (6,2%), farmácias e perfumarias (6%) e autopeças e acessórios (4,7%). Já as lojas de materiais de construção tiveram a maior retração no faturamento (5,7%), na mesma base de comparação.

A última vez que algum setor apresentou saldo positivo foi em abril de 2015, quando as vendas avançaram 4,1% nas lojas de vestuários/tecidos/calçados, ante igual período de 2014. Desde então, todos os segmentos têm sofrido recuos. 

REGIÕES

Em termos regionais, a queda das vendas continua a se espalhar por todo o estado. Até a Região Metropolitana do Alto do Tietê (onde se destaca a cidade de Guarulhos), que se diferenciava pelos resultados positivos em meio à queda generalizada das vendas, vem mostrando retração, ainda que menor.

As maiores quedas no varejo ampliado em fevereiro – sobre o mesmo período de 2015 - foram no Litoral (-13,5%), em Araraquara (-11,7%) e na Região Metropolitana Oeste (-11,1%). 

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Já os menores recuos, por sua vez, ocorreram nas seguintes regiões: Vale do Paraíba (-0,8%), Araçatuba (-1,6%) e Metropolitana do Alto do Tietê (-3,2%).

Os dados são do Boletim número 22 do ACVarejo, levantamento mensal do Instituto de Economia Gastão Vidigal da ACSP, elaborado a partir de informações da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP).

IMAGEM: thinkstock