Negócios

Por que eles estão sorrindo?


Sapateiros há décadas, Marcos, Eduardo e Amarildo registram aumento de 30% na demanda por seus serviços em ano de crise


  Por Fátima Fernandes 03 de Agosto de 2015 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Mais um indicador de que o orçamento das famílias apertou: o sapato velho e a roupa que já não servem mais, antes desprezados pelos consumidores, estão seguindo diretamente para as oficinas de reparo. Sapatarias e lojas de consertos de roupas registram neste ano aumento de até 30% nos serviços, em comparação com igual período de 2014.

O mote ‘se não consigo comprar um produto novo, conserto aquele que já tenho’ está se confirmando mais do que nunca neste ano. “Não falta serviço nas minhas lojas”, afirma o paulistano Marcos Badillo, 40 anos, sapateiro desde os 12.

Com cinco sapatarias e uma oficina de reformas de roupas em três bairros de São Paulo, Marcos diz que os oito sapateiros e as oito costureiras que trabalham em suas lojas não estão conseguindo dar conta do serviço. “Daria até para crescer mais, se houvesse mão-de-obra disponível”, afirma.

Na loja de reparo de roupas, conta ele, as costureiras já estão trabalhando com escala para o atendimento de clientes e entrega dos serviços, que já não ficam prontos de um dia para outro.

MARCOS BADILLO, DONO DA SAPATARIA DOS MILAGRES: DEMANDA POR SERVIÇOS CRESCEU 30% NESTE ANO

Marcos aprendeu o ofício com o pai, Joaquim, descendente de espanhóis, que abriu há cerca de 40 anos a primeira loja, a Sapataria dos Milagres, no centro de São Paulo. Ele pegou o gosto pelo negócio e o expandiu.

“Em época de crise é sempre assim. O serviço aumenta. Quando a economia volta a andar, a demanda por serviços volta ao ritmo normal”, diz. Isso vale tanto para os bairros de maior como os de menor poder aquisitivo.

A Sapataria dos Milagres poderia estar com um desempenho ainda melhor, segundo afirma, não fosse a forte pressão de custos que o ramo tem sofrido neste ano. E quem confirma é o tio Eduardo Cortez Collado, 78, sapateiro desde 1966.

“A demanda dos clientes aumentou, só que os preços dos insumos subiram demais, e o consumidor não aceita pagar mais caro pelos consertos”, diz Eduardo, dono de uma das mais tradicionais sapatarias do bairro de Perdizes.

EDUARDO CORTEZ: OS PREÇOS DOS INSUMOS SUBIRAM

O preço do metro do couro, relata, saltou de R$ 37 para R$ 60. O litro de tinta para calçados, de R$ 68 para R$ 76. O aumento foi de 12%, acima da inflação de 8,9% (últimos 12 meses terminados em junho).

Apesar da pressão de custos, segundo Amarildo Cortez, também sapateiro, filho de Eduardo, não deu para mexer nos preços. Há um ano, segundo ele, a troca de salto custa de R$ 15 a R$ 30 e, de sola, de R$ 60 a R$ 120.

Com com 38 lojas em São Paulo e 220 lojas no país, a Restaura Jeans reajustou os preços em 8% em janeiro e congelou. Bruna Barbieri, consultora da rede, diz que, para trazer mais clientes para a loja,  às quartas-feiras, o serviço de barra de calça, que custa R$ 20, cai para R$ 16,50. Esses preços são da loja de Perdizes, que também registra aumento de 30% na demanda por serviços de ajustes, reparos e tingimento de roupas.

SHOPPINGS 

Com quatro lojas da franquia Sapataria do Futuro, das quais três em shoppings e uma na Praça Vila Boim, Eliana Cohen, diz que julho foi excelente para as suas lojas. Mas, no acumulado do ano, o faturamento está cerca de 15% inferior ao do mesmo período do ano passado.

É que, diferentemente de outras sapatarias, suas lojas dependem da clientela que compra uma roupa nova e necessita ajustes. "E, neste ano, o consumo caiu. Tem lojas fechando nos shoppings por causa disso”, diz.

Eliana Cohen foi a primeira franqueada da Sapataria do Futuro. Sua primeira loja foi aberta no shopping Center Norte, e depois migrou para o shopping Bourbon.

“O consumidor está mais retraído e os custos estão subindo, como condomínio, aluguel. Vamos esperar que o mercado se ajuste.” A loja da Vila Boim enfrenta mais um problema: a ciclovia tirou as vagas até então utilizadas por clientes. No momento, ela negocia com o proprietário do imóvel uma redução de aluguel e do desfecho dependerá a decisão de manter a loja.