Negócios

Pinduoduo, o app que transformou a compra on-line em passeio no shopping


Em apenas cinco anos de existência, a empresa ultrapassou o poderoso Alibaba em número de usuários ativos, com incríveis 789 milhões de pessoas comprando pela plataforma


  Por Mariana Missiaggia 27 de Julho de 2021 às 07:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


As ofertas da Pinduoduo mostram que preço ainda é um chamariz no mercado chinês. A todo o momento, a página principal do aplicativo é atualizada e inundada de novas ofertas de mantimentos, roupas, utensílios domésticos e itens eletrônicos a preços quase que inacreditáveis.

Um par de brincos, por exemplo, pode custar o equivalente a R$ 2, um armário sai por R$ 25 e um carregador de celular menos de R$ 5. E o frete é sempre grátis. 

Pouco ou nada conhecido por consumidores fora da China, o aplicativo pode ser comparado ao AliExpress, só que num esquema de compras diferente.

Funciona da seguinte maneira: todo produto pode ser visto com dois preços. O primeiro corresponde a uma compra individual, enquanto o segundo indica o valor que cada artigo terá se a compra for acompanhada de outros amigos. Ou seja, quanto mais gente comprando o mesmo item indicado, mais barata a oferta.

Tudo isso para quase que obrigar os usuários a partilharem as ofertas com amigos e familiares em redes sociais, levando assim, mais gente para dentro da plataforma. Esse apelo para outros se juntarem às suas compras acaba por transformar consumidores em verdadeiros agentes de vendas. Uma boa economia para a empresa em custos de aquisição de clientes. 

A intenção do negócio é criar uma rede de clientes ao envolverem o maior número de amigos possível. 

Para habilitar o preço promocional, é preciso formar ou fazer parte de “times” a partir do que foi compartilhado nas redes, de acordo com um número pré-determinado de pessoas.

Há ofertas, por exemplo, que precisam de 50 pessoas. Quando essa quantidade é atingida, o time é fechado e a venda é concretizada.

Ao clicar em comprar, o produto só será enviado se o comprador conseguir formar um time ou entrar em algum já existente.

Para tanto, a plataforma possui diversas funcionalidades para que aquela oferta possa ser divulgada nas redes sociais do usuário, convocando seus amigos e familiares.

As ofertas são relâmpago e o consumidor só tem 24 horas para comprar, por isso, há tanta frequência dentro da plataforma.

Pequenos pop-ups no aplicativo fornecem atualizações constantes e em tempo real sobre o que os outros estão comprando, criando um senso de urgência. O apelo é o seguinte: “Todo mundo está fazendo grandes negócios, menos você.”

Em meio à seleção de produtos, custos irrisórios, inúmeros cupons de desconto, pechinchas e a facilidade com que as compras são feitas, a experiência lembra mais um videogame em que vence quem coletar o maior número de benefícios possível e comprar pelo menor preço.

Essa forma de comprar baseia toda a experiência em descoberta de novidades e ofertas, diferente das principais plataformas de e-commerce, que são orientadas a buscar um produto específico e simplesmente comprá-lo.

A falta de destaque para o campo de busca de produtos - quase que escondido na página principal - e a ausência de carrinho de compras é o que melhor tangibiliza esse outro tipo de proposta do site.

A PROPOSTA DA PINDUODUO

Em resumo, a plataforma permite que seus usuários comprem em conjunto para ganhar descontos agressivos. E é justamente essa massa de compradores que garantem preços tão competitivos - algo possível somente com volume, escala e frequência.

Desde sua fundação, a empresa direcionou seu foco para ofertar produtos que aqueles milhões de consumidores não compravam on-line, produtos como hortifruti e itens para o lar, e não categorias como eletrônicos.

Outro ponto relevante que alavancou a sua popularidade é o fato de o app ser desenhado para atender fundamentalmente ao público feminino, pessoas-chave na decisão de compra desses itens.

Segundo Eduardo Yamashita, COO da Gouvêa Ecosystem, é comum encontrar analistas de mercado se referindo à empresa como uma mistura da Disney com a Costco – uma combinação de entretenimento com produtos com descontos agressivos. 

"O app tenta mimetizar a experiência de um shopping no mundo digital - quando passeamos, descobrimos uma oferta, tomamos um café para pensar, nos deparamos com outra oferta. É uma plataforma que engaja usuários por meio de entretenimento e descoberta de produtos com preços muito agressivos", diz.

Para o especialista, o formato da plataforma é muito mais parecido com uma rede social, como o Instagram e o TikTok do que uma loja virtual. Na página inicial, os usuários se deparam com o feed de produtos em uma página totalmente personalizada para cada usuário. O que segundo Yamashita, revela que o Pinduoduo conhece profundamente os hábitos dos seus usuários a ponto de prever quais itens serão relevantes e irresistíveis para eles.

"A plataforma oferece um leque de entretenimento e assim, os clientes vão aumentando a interação e deixando seus dados no negócio", diz.

Por meio da plataforma é possível assistir lives e descobrir descontos exclusivos enquanto os usuários interagem por meio de jogos dentro da plataforma – é a gamificação das compras, segundo Yamashita.

Nos jogos é possível, por exemplo, cultivar uma fazenda junto com seus amigos e ganhar recompensas que podem ser descontos, itens exclusivos ou até mesmo produtos na vida real, como uma cesta de frutas, que será entregue em casa como resultado da sua colheita virtual.

Gastar tempo dentro da plataforma é um dos pontos de sucesso do negócio, que traz engajamento, compras e também o entendimento do comportamento do consumidor com muita profundidade.

O Pinduoduo existe apenas para mobile. Não há versão para desktop, tampouco um “carrinho de compras” no aplicativo. Conseguiram tornar a buscas por produtos na internet uma atividade social e divertida.

O SURGIMENTO DO APP

O Pinduoduo surgiu em 2015, e cresceu rápido o suficiente para atrair apoiadores poderosos, incluindo a empresa de capital de risco Sequoia Capital e o gigante da internet chinesa Tencent. Neste último mês de março de 2021, chamou atenção do mercado os resultados consolidados de 2020.

Em apenas cinco anos de existência, a empresa ultrapassou o poderoso Alibaba em número de usuários ativos, com incríveis 789 milhões de pessoas comprando na plataforma nos últimos 12 meses, contra 779 milhões do Alibaba nessa mesma métrica.

Yamashita destaca que o gross merchandise value, em português, volume de vendas dentro da plataforma, saiu do zero em 2015 para impressionantes US$ 255 bilhões em 2020. Um crescimento que representa 66% na comparação com 2019.

Já o faturamento de US$ 9,1 bilhões representou crescimento de 97% sobre 2019, fazendo o valor de mercado da empresa, que é negociada na Nasdaq desde 2018, alcançar o patamar de US$ 165 bilhões.

Tal valor de mercado garantiu com que seu fundador, Colin Huang, ex-executivo do Google China, se tornasse a terceira pessoa mais rica da China, ultrapassando até Jack Ma, fundador do Alibaba.

 






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