Negócios

Pequenas e médias empresas ganham força no jogo global


O número de companhias exportadoras é recorde. Recessão e real desvalorizado ajudaram a elevar as vendas internacionais. Para as pequenas, a chave é mostrar eficiência


  Por Italo Rufino 15 de Abril de 2016 às 09:50

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Ao passear pelas lojas de Miami, não se espante ao encontrar biquínis iguais aos vistos em praias brasileiras. Viajou para a Austrália e assistiu a um espetáculo no Sydney Opera House nas ultimas férias? Talvez seu vizinho de poltrona estivesse usando um sapato confeccionado em Franca, no interior paulista. Os produtos brasileiros se espalham, cada vez mais, nos quatro cantos do mundo. 

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), 20.322 empresas brasileiras exportaram em 2015 –5% mais que em 2014. E a tendência de crescimento deve permanecer. Somente entre janeiro e março de 2016, 13.653 companhias brasileiras venderam para clientes estrangeiros.  

E não pense que exportação é apenas para cachorros grandes. As micros, pequenas e médias empresas estão participando ativamente desse movimento – e representaram cerca de 75% das empresas atendidas pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) em 2015. 

Destacam-se, entre os setores que mais cresceram em vendas externas, máquinas e motores, calçados, vestuário, couro, acessórios e equipamentos médicos e hospitalares. 

“As pequenas e médias empresas estão olhando o mercado externo de maneira estratégica”, afirma Adriana Rodrigues, Coordenadora de Competitividade da Apex-Brasil. 

Para José Cândido Senna, coordenador geral do Projeto Exporta São Paulo, promovido pela Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (FACESP) e pela São Paulo Chamber of Commerce, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o aumento de exportação entre pequenas e médias atesta a confiança internacional no empresário brasileiro, mesmo após agências de risco terem rebaixado o grau de investimento do Brasil.

“E isso é extraordinário”, afirma Senna. 

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ALTERNATIVA À RECESSÃO 

No momento em que o setor industrial sofre constantes quedas, a inflação corróí a renda da população e o desemprego cresce, vender em mercados internacionais pode ser uma alternativa para escapar da recessão – e também uma maneira de diminuir a ociosidade produtiva da indústria. 

Outro fator que impulsiona a exportação é a desvalorização do real. O valor da moeda caiu  60% nos últimos dois anos – o que torna os produtos brasileiros mais atrativos no mercado internacional.  

A exportação, porém, não pode ser vista pelo empreendedor como uma atividade pontual para compensar perdas internas. Nos últimos meses, o dólar tem apresentado queda e depender apenas do câmbio pode ser um perigo. 

“O empreendedor que não melhorar sua produtividade para ser mais competitivo internacionalmente pode ser expelido do jogo”, afirma Senna. “E o maior desafio é manter a base exportadora em constante crescimento.”

COMO ENFRENTAR O DURO JOGO GLOBAL

Para os especialistas, as empresas que experimentam a exportação tendem a aperfeiçoar a gestão. Adequar produtos para outros mercados envolve um grau de inovação. Assegurar bons níveis de reposição de estoque para clientes lá fora também requer melhoria de processos produtivos e logísticos. 

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À medida em que a empresa se aventura em um segundo mercado, passa a disputar com produtores locais e fornecedores estrangeiros que atuam na região.

Por exemplo, no mercado colombiano de cosméticos, as importações brasileiras cresceram 8,3%, em média, entre 2011 e 2014 – e atingiram 11,6% de participação de mercado. No entanto, o México, principal concorrente, ainda detém mais de 30% de participação. 

Neste caso, a exportação força as empresas a ser tornarem mais eficientes devido ao jogo duro da competição global. 

E o que fazer se o dólar continuar em queda? De acordo com Senna, o empreendedor pode recorrer a medidas de corte de custo no processo produtivo. Comprar insumos e componentes importados quando o real valorizar pode baratear a produção, por exemplo. 

“O comércio exterior é uma via de mão dupla para melhorar a competitividade”, define Senna. 

COMO INICIAR AS EXPORTAÇÕES

O primeiro passo para pequenos e médios empreendedores é buscar informações sobre mercados promissores. A São Paulo Chamber of Commerce, oferece auxílio e promove relações comerciais entre empresas brasileiras e compradores internacionais.  

SENNA, DO EXPORTA SÃO PAULO: EXPORTAÇÃO DEVE SER UMA ATIVIDADE CONTÍNUA

Firmar parceria com uma empresa comercial importadora e exportadora também pode representar uma mãozinha extra na conquista do mundo. Essas empresas já conhecem potenciais mercados e mantêm canais abertos para negociações. 

Neste caso, o empreendedor pode terceirizar a prospecção de clientes, cuidados jurídicos e atividades logísticas ao parceiro. 

Também é necessário realizar registros de marca e patente em órgãos internacionais. Dependendo do produto oferecido, pode ser preciso obter certificações específicas para iniciar a comercialização. 

Também é necessário adequar embalagens, que precisam respeitar normas técnicas de informações ao consumidor, material de fabricação e orientações para descarte sustentável – fatores que são bem rígidos, principalmente nos Estados Unidos. 

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Em 2015, o MDIC lançou o Plano Nacional da Cultura Exportadora com o objetivo de desenvolver e difundir as exportações nos estados. Mais de 20 órgãos públicos e privados, como Apex, Sebrae e BNDES, oferecem auxílio para empresas de pequeno e médio porte. 

Os Correios, por exemplo, possuem o programa Exporta Fácil Correios, serviço que facilita a exportação de micro, pequenas e médias empresas ao não cobrar taxa ou impostos de exportação. No entanto, as exportações devem ser de até 50 mil dólares por remessa.