Negócios

Pequena empresa paulista ganha o mundo com itens inusitados


A Nacional Ossos desenvolve em Jaú, no interior paulista, ossos artificiais e estima que as exportações serão responsáveis por um quarto do faturamento neste ano


  Por Italo Rufino 03 de Maio de 2016 às 12:30

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


A cada viagem internacional a negócios, Fabiana Franceschi e Paulo Costa Silva são parados na alfândega. Sob olhares curiosos, eles precisam dar explicações convincentes sobre o conteúdo atípico da bagagem: crânios, mandíbulas, tíbias e outros diversos modelos de ossos. 

Não se espante. Fabiana e Paulo não são membros de alguma seita obscura. Eles são fundadores da Nacional Ossos, fabricante de ossos artificiais de Jaú, no interior paulista, que exporta para mais de 15 países. 

A Nacional Ossos produz três linhas: ortopédica, odontológica e veterinária. Os ossos são usados como material didático em universidades e escolas técnicas e por empresas em testes de desenvolvimento de novos produtos e procedimentos cirúrgicos

As vendas internacionais da Nacional Ossos tiveram início em 2007, após a empresa participar de eventos internacionais incentivados pela Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos. 

No mesmo ano, a empresa fechou um contratou com a 3B Scientific, distribuidora alemã líder mundial em material didático de ciências naturais e de capacitação médica.

Atualmente, fornece para o cliente modelos exclusivos, como um maxilar com gengiva maleável que pode ser costurada. As peças são revendidas em todo mundo sob a marca da 3B Scientific. 

Outro cliente relevante é a Straumman, fabricante suíça de implantes dentários, instrumentos cirúrgicos e próteses, que usam os ossos no departamento de pesquisa e desenvolvimento de produtos inovadores. 

São mais de cinco mil unidades anuais somente para a 3B Scientifc e a Straumman. 

A empresa também vende regularmente para clientes de Israel, Itália, Espanha, Colômbia, Chile e Japão. Atualmente, 15% do faturamento da Nacional Ossos é proveniente de exportação

“Nossos produtos são usados para reduzir erros médicos e aprimorar pesquisas na área da saúde”, afirma Fabiana. 

FABIANA E PAULO, FUNDADORES DA NACIONAL OSSOS: A IDEIA ERA FABRICAR BARCOS, A OPORTUNIDADE FOI CRIAR OSSOS ARTIFICIAIS/FOTO:DIVULGAÇÃO

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MELHOR QUALIDADE E GESTÃO DE RISCO 

Os clientes internacionais trouxeram mais do que receita para a Nacional Ossos. A empresa teve que aprimorar processos de controle de qualidade para se adequar aos padrões mais rígidos do mercado externo. 

De acordo com Fabiana, os clientes europeus são mais exigentes quando o assunto é padronização de produtos e não toleram oscilações de qualidade. 

Outro cuidado foi desenvolver boas práticas de relacionamento com funcionários e fornecedores. Anualmente, técnicos da Straumman auditam registros contábeis e trabalhistas para identificar possíveis riscos em sua cadeia de fornecedores, que inclui a Nacional Ossos. 

São vistoriados, por exemplo, condições de limpeza, organização da fábrica e uniformização dos funcionários. 

“Já seguíamos todas as normas e leis, mas aprimoramos nossos processos para nos destacarmos no cenário internacional”, diz Fabiana. 

Hoje, as boas práticas da Nacional Ossos são similares às de grandes companhias. A empresa possui um fundo social para custear cursos para funcionários e seus familiares, incentiva eventos culturais e participa do Programa Empresa Amiga da Criança, da Fundação Abrinq, que mobiliza e reconhece empresas que desenvolvem ações sociais em benefício de crianças e adolescentes, moradores de comunidades e filhos de funcionários. 

ARCADA DENTÁRIA USADA NA CAPACITAÇÃO DE DENTISTAS/IMAGEM:DIVULGAÇÃO

EMPRESA NASCEU POR ACASO 

Em meados de 1994, Fabiana e Paulo desejavam abrir uma fábrica de barcos de passeio. Em Jaú, a 300 quilômetros da capital paulista, o Rio Tietê é um ponto turístico com águas propícias para banho e pesca. 

Com o objetivo de acumular capital para o empreendimento, o casal, que juntou as escovas de dente na mesma época, começou a vender artesanatos religiosos de fibra de vidro nas feiras da cidade. 

Em um dos eventos, um dono de uma fábrica de próteses ortopédicas demonstrou interesse na habilidade da dupla em manusear fibra de vidro – e encomendou uma tíbia, que seria usada na capacitação dos funcionários de sua empresa. 

Após a entrega da primeira encomenda, os sócios passaram a ser procurados por outros ortopedistas da região. Era o início da Nacional Ossos. 

Nas últimas duas décadas, o crescimento da empresa se deu por diversos motivos.

No passado, era comum o uso de ossos humanos em estudos médicos. Porém, poucas universidades tinham autorização para adquirir as peças – o que movimentava um comércio ilegal sem controle sanitário. Neste caso, o osso artificial se mostrou uma alternativa ética e de baixo custo. 

Paralelamente, houve o avanço de procedimentos cirúrgicos no Brasil. Profissionais de saúde, cada vez mais, precisam estudar novas técnicas médicas e atualizar conhecimentos – o que aumentou a demanda por cursos de capacitação profissional. 

Devido o alto preço de produtos importados e a pouca concorrência interna, a Nacional Ossos aproveitou a lacuna para buscar a consolidação no mercado. 

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QUEDA NO FATURAMENTO E A MAIOR INANDIMPLÊNCIA 

Em 2015, o crescimento constante da Nacional Ossos foi interrompido devido a recessão econômica. Muitas escolas técnicas clientes da empresa enxugaram a grade curricular de cursos para cortar custos. Em algumas escolas, o material didático passou a ser divididos por dois ou mais alunos.

O resultado foi uma queda de quase 15% nas vendas da Nacional Ossos. Ao mesmo tempo, a inadimplência dos clientes aumentou em 20%. 

Para compensar as perdas internas, a Nacional Ossos projeta aumentar as vendas no mercado internacional. Recentemente, a empresa firmou parceira com uma importadora italiana para vender produtos com marca própria na Europa. 

A linha veterinária também continua em alta no mercado externo. Na Irlanda do Norte, país com tradição em corridas de cachorro, as cirurgias ortopédicas em animais são mais recorrentes do que no Brasil – o que gera maior demanda pelos produtos da Nacional Ossos, que atua na região desde 2012. 

Até dezembro, a estimativa é que as exportações sejam responsáveis por 25% das receitas. Atualmente, a Nacional Ossos está enquadrada no Simples Nacional, com faturamento inferior a 3,6 milhões de reais.