Negócios

Pátio Higienópolis vive ‘debandada’ de lojas e disputa na Justiça


Shopping informa que desde o início da pandemia tem agido de forma a dar liquidez para os lojistas


  Por Fátima Fernandes 20 de Agosto de 2020 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


A pandemia do novo coronavírus mudou o cenário de um dos shoppings mais tradicionais de São Paulo, o Pátio Higienópolis, que é administrado pela Iguatemi Empresa de Shopping Centers.

Nem no período das mais graves crises enfrentadas pelo país, o centro comercial, inaugurado em 1999 no coração do bairro de Higienópolis, exibiu tantas lojas fechadas como agora.

No grupo de WhatsApp de lojistas, criado recentemente para a troca de informações, o número de estabelecimentos fechados passava de 30 nesta semana.

O shopping possui seis andares e pouco menos de 300 lojas espalhadas em uma área de aproximadamente 35 mil metros quadrados.

Quem costuma frequentar o shopping já deve ter notado o grande número de tapumes espalhados por todos os andares.

“Todos os dias têm uma ou duas lojas saindo daqui. É muito triste ver tudo isso acontecer num shopping tão tradicional”, afirma uma lojista que preferiu não se identificar.

SEM NEGOCIAÇÃO

Há 16 anos no shopping, a loja da Erva Doce entregou o ponto no último dia 7.

Maurício Cestari, dono da loja, diz que não conseguiu negociar com a administração do empreendimento as condições necessárias para manter o negócio.

“O faturamento da loja hoje é de 35% a 40% do que era antes da pandemia. Tentei conversar, mas o shopping não aceitou negociar”, afirma.

Na lista de lojas que saíram do Higienópolis estão Side Walk, a2You, Gregori, Dudalina, Hobby Trade Center, Crawford, Siberian, TVZ, Ana Capri, Chicco, Starbucks, Fascar, Shultz, 1+1, Shorts Co. Algumas estavam ali há 21 anos.

Desde o início da pandemia, lojistas dizem que têm procurado a administração do shopping para renegociar aluguéis, fundos de promoção, condomínio.

No começo da pandemia, houve uma tentava de formar um grupo de donos de lojas para discutir o assunto de forma coletiva.

O shopping, de acordo com lojistas, não gostou. Informou que a conversa teria de ser com cada um, já que os contratos são diferenciados.

OS CONTRATOS

Os valores da locação das lojas, geralmente, são estabelecidos de acordo o metro quadrado e também a expectativa de receita.

Os contratos também estabelecem um percentual mínimo de locação, de 5% a 7%, sobre a receita mensal da loja, e o 13º aluguel, que é pago em janeiro.

No final de 2019, uma loja satélite pagava de R$ 600 a R$ 800 o metro quadrado no Higienópolis, de acordo com Tito Bessa, presidente da Ablos (Associação dos Lojistas Satélites) e fundador da rede TNG, com 140 lojas.

Em outros shoppings, como no Morumbi, diz ele, o valor do metro quadrado é cerca de 70% do cobrado pelo Higienópolis e, no Iguatemi, mais ou menos 30% maior.

O que os lojistas querem é que, pelo menos até 31 de dezembro, quando durar a pandemia, que o aluguel seja cobrado sobre o percentual de vendas. E o fim do 13º aluguel.

O embate entre lojistas e a administração do Higienópolis já chegou à Justiça, assim como no caso de outros shoppings, como o Iguatemi, o mais antigo do país.

“É o justo o que os lojistas pedem. O custo de locação, condomínio e fundo de promoção é hoje superior a 25% da receita da loja. Assim, eles não conseguem sobreviver”, afirma Mauro Francis Bernardino Tavares, advogado de três lojas do Higienópolis que levaram o caso à Justiça e aguardam decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo.

“Hoje, os contratos das lojas com o shopping estão totalmente desequilibrados. Todos os clientes, mais ou menos uns 20, não pagam aluguel sobre o percentual de vendas”, diz o advogado.

ENTREGA DE PONTOS

No dia 5 de maio, a Hobby Trade Center, que estava no shopping desde a sua inauguração, fechou as portas.

“Se a cobrança do aluguel fosse justa, dava para ficar. Entreguei o ponto e eles aboliram a multa, que seria próxima de R$ 300 mil. Para eles, foi um ótimo negócio, pois o espaço é muito bom”, afirma Andréia dos Santos, dona da loja.

De acordo com ela, desde o ano passado, o shopping pede para a sua loja elevar o faturamento e realizar reformas.

A loja da Andreia faturava de R$ 50 mil a R$ 65 mil por mês, em média, em 2019.

“Eles me perguntavam por que eu não conseguia faturar R$ 200 mil, R$ 300 mil por mês. O fato é que quando eu vendia R$ 70 mil, R$ 80 mil já ficava feliz.”

Alguns lojistas dizem que estão aguardando posição do shopping sobre o aluguel deste mês e que o centro comercial concedeu descontos na locação enquanto as lojas estavam fechadas.

De acordo com eles, o shopping tem a intenção de cobrar em outubro parte do aluguel que não foi paga em março, quando teve início a quarentena.

“Espero que o valor do aluguel a partir de agora seja proporcional ao horário que estamos trabalhando e que considere o fato de o shopping não ter cinema, lazer e menos restaurantes”, diz uma lojista que prefere não se identificar.

EFEITO PANDEMIA

Para Bessa, da Ablos, a pandemia somente acelerou o processo de saída maciça de lojas do Higienópolis. “Minha loja fechou no final do ano passado devido ao alto custo da operação.”

De acordo com ele, as lojas de shoppings estão faturando, em média, 40% a 45% do que costumavam faturar.

Com 170 lojas no início do ano, a TNG fechou 30 delas do final do ano passado até agora. “Fechei 30, mas existem oportunidades para abrir 40 em shoppings menores”, diz Bessa.

Cestari, da Erva Doce, diz que já contratou um advogado para lidar com o seu caso, especialmente em relação à multa de rescisão contratual.

“No contrato, constam 15 aluguéis de multa, mas já que eles não quiseram flexibilizar na negociação, vou discutir tudo na Justiça, se precisar.”

Cestari diz que sugeriu para o shopping a entrega do ponto, com a condição de que pudesse ficar na loja e manter oito empregos, mas não obteve sucesso.

LIMINAR A FAVOR DO LOJISTA

Em Campinas, um lojista localizado no Shopping Iguatemi, cliente do advogado Bernardino Tavares, conseguiu liminar para pagar o aluguel e o fundo de promoção com base no faturamento atual. A decisão foi mantida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

Os lojistas do Higienópolis não tiveram o mesmo sucesso, pelo menos até agora.

“Foi uma grande surpresa para mim uma decisão da Justiça desfavorável aos lojistas do Higienópolis”, diz o advogado.

O shopping Higienópolis, de acordo com o advogado, não tem se mostrado parceiro do lojista num momento tão difícil como este.

Para Cestari, da loja Erva Doce, a situação no Higienópolis faz crer que alguns dos sócios querem a desvalorização do empreendimento para uma eventual compra de participação na sociedade.

A Brookfield, empresa gestora de ativos com sede no Canadá, tem 51% de participação no empreendimento. O Iguatemi possui 11,5%.

Outros proprietários do Higienópolis são Rio Bravo (26%), Braz Participações e Agropart Agropecuária e Participações, com menores fatias.

Procurado pelo Diário do Comércio, o shopping informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que segue “comprometido com os seus lojistas”.

E que, “desde o início da pandemia, focou seus esforços em conceder liquidez para todos, com descontos nas linhas de aluguel (100%), isentado em abril e maio, condomínio e fundo de promoção”.

Informa ainda que “as políticas de faturamento nos meses de junho e julho foram desenvolvidas caso a caso, de acordo com o perfil do empreendimento e a área de atuação de cada lojista”.

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