Negócios

País vive onda de valorização de lojas de rua


Em abril, 57% dos consumidores preferiam comprar roupas e calçados em lojas de rua e 43%, em shoppings, de acordo pesquisa do IEMI


  Por Fátima Fernandes 13 de Julho de 2021 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site varejoemdia.com


Há cerca de dez anos, um dos grandes dilemas dos lojistas era escolher os shoppings, que surgiam aos montes em todo o país, para fincar as suas marcas.

Abrir loja em rua não era prioridade das redes, até porque o que os clientes mais queriam - conveniência e segurança - era justamente o que os shoppings ofereciam.

Quem praticamente liderava o processo de expansão das redes, especialmente das médias e grandes, eram as incorporadoras de shoppings centers.

Após um ano e meio da pandemia do novo coronavírus, o país vive um movimento contrário, o de valorização de lojas de rua.

Pesquisa da empresa IEMI realizada em abril revela que 57% dos consumidores preferiam comprar roupas e calçados em lojas de rua e 43%, em shoppings.

O mesmo levantamento feito no ano passado ainda mostrava os shoppings como os preferidos dos brasileiros, com 56% das preferências, e as lojas de rua, com 44%.

Marcelo Prado, diretor do IEMI, diz que a pesquisa, realizada em todo o país, mostra que os consumidores ainda estão com medo de frequentar lugares fechados.

Se essa situação vai persistir ou não com o avanço da vacinação, ainda é uma incógnita para lojistas e especialistas em varejo.

Mas, se parte dos escritórios adotar de vez o home office, como indicam algumas pesquisas, dizem eles, as lojas de rua têm tudo para prosperar.

“Para os consumidores, é mais seguro evitar aglomerações, trabalhar em casa e, portanto, ficar pelo bairro. Para os lojistas, a opção, para reduzir custos, é ir para as ruas”, diz Gustavo Carrer, consultor de varejo e gerente da Gunnebo.

A combinação desses dois movimentos tem levado lojistas a avaliar e a abrir lojas em locais até então jamais imaginados.

“O comportamento dos consumidores mudou e na rua temos muito mais liberdade para atender às novas demandas”, afirma Thales Gonçalves, sócio da The Craft.

Com 11 anos, a rede fechou no último ano três lojas em shoppings – Pátio Higienópolis, Vila Lobos e Vila Olímpia – e um outlet na Chácara Santo Antônio.

“Fechei quatro lojas e abri uma, em Moema, com 300 metros quadrados, maior do que todas as outras juntas, com um terço do custo de ocupação”, diz Gonçalves.

A nova loja da The Craft, que começou com sapatos masculinos, vai comercializar produtos de outras marcas, como tênis da New Balance e moda praia da Blueman.

Ainda neste semestre, marcas como Diesel, Calvin Klein e Armani também deverão ser comercializadas neste mesmo endereço.

“O foco da marca era a venda para executivos e para estrangeiros em viagens de negócios ao Brasil. Tivemos de nos reinventar com novo mix de produtos para continuar atendendo os clientes”, diz.

No shopping, diz ele, para diversificar a linha de produtos, é preciso ter a autorização da administração do centro comercial, um processo que leva tempo.

“Um shopping demorou quatro meses para aprovar a venda de uma linha de camisas em uma de nossas lojas. Aí veio a pandemia e parou tudo”, diz.

DESAFIOS DA RUA

De acordo com Gonçalves, o grande desafio dos lojistas que estão de olho em pontos comerciais em ruas é encontrar locais com estacionamento para os clientes.

A loja da The Craft, localizada na Rua Bem-te-vi, em Moema, tem três vagas de estacionamento, por exemplo.

Tadeu Masano, professor da FGV e presidente da Geografia de Mercado, afirma que os obstáculos para as lojas de rua não são poucos e vão além da falta de estacionamento.

“As ruas estão descuidadas por parte dos governos municipal, estadual e federal. Não há segurança, por isso os shoppings cresceram tanto nos últimos anos”, afirma ele.

Com a pandemia, as ruas estão mais nos radares dos lojistas, mas, além da falta de segurança, diz Masano, são raros os polos capazes de abrigar as lojas dos shoppings.

“Falando de São Paulo, como exemplo, quantos pontos comerciais existem para atender as classes mais altas? Somente a região da Rua Oscar Freire”, diz.

O comércio de rua, de acordo com ele, vive de cumulatividade, isto é, de várias lojas próximas umas das outras, uma forma de atrair um público maior.

Mas se a rua não é cuidada, não tem segurança, diz ele, ela perde a atratividade.

Ele cita como exemplo o que aconteceu com a Rua da Consolação, que, no passado, chegou a ser um grande polo de venda de produtos para a iluminação.

“Havia de 50 a 100 lojas ali voltadas para a iluminação, mas a rua está descuidada, não possui estacionamento, perdeu a atratividade”, afirma.

A região da Praça Vilaboim, em Higienópolis, sofre do mesmo mal. “Entre 20 e 30 endereços mudam de negócios toda a hora, pois não tem lugar para parar o carro.”

A integração do comércio de rua à sociedade, infelizmente, de acordo com ele, não é planejada nem em São Paulo nem no país como um todo.

Um polo comercial que atualmente se destaca na capital paulista, diz ele, é o do Brás, que atende o público de menor poder aquisitivo, e é cuidado pelos próprios lojistas.

O comércio de rua de São Paulo, de acordo com Masano, ficou praticamente dedicado à população de baixa renda.

Gonçalves, da The Craft, espera que essa situação mude rapidamente, agora que os lojistas passaram a considerar as ruas como opção para a expansão de seus negócios.

Em Moema, de acordo com ele, já há polos comerciais renascendo. Marcas do grupo Soma, como Animale e Farm, devem vir para perto de nós.”

As ruas também estão atraindo marcas de grandes redes que só cresciam em shoppings centers.

A Centauro, rede de artigos esportivos, abriu em novembro do ano passado a sua 208ª loja na Avenida Paulista, a primeira unidade em rua.

Com pouco mais de 2 mil metros quadrados, a loja é a quinta maior da rede no país, e oferece produtos e serviços.

 

IMAGEM: Reprodução Google Maps






Publicidade


Publicidade



Publicidade



Publicidade




Publicidade



Publicidade




Publicidade