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Os preços caíram, mas as vendas nos supermercados ainda estão tímidas. Por que?


Pesquisa mostra que inflação nos supermercados teve maior queda desde 1994. No entanto, as receitas ainda não decolaram. Entre os motivos estão a baixa confiança do consumidor e o endividamento das famílias.


  Por Italo Rufino 15 de Dezembro de 2017 às 18:01

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Nesta semana, a Associação Paulista de Supermercados (APAS) divulgou uma pesquisa que aponta que a inflação nos supermercados teve a maior queda desde a criação do Plano Real, em 1994. No acumulado do ano, até novembro, o Índice de Preços dos Supermercados (IPS), calculado em conjunto com a Fipe, teve queda de 2,56%.

O índice negativo foi causado principalmente pela queda generalizada nos preços dos alimentos. As baixas acumuladas do leite (11%), arroz (7,36%) e feijão (37,81%), também foram recordes. A projeção da APAS para o mês de dezembro é um recuo de preços, na média de todos os itens, de 2%.

Por outro lado, o crescimento das vendas nos supermercados ainda é tímido. A primeira alta nas receitas, desde o início da crise, aconteceu somente em junho deste ano – um crescimento de 0,39%, em comparação com o mesmo período de 2016. Até novembro, o crescimento foi de 1,54%.

Se os preços têm apresentado quedas contínuas, por que o consumo ainda não engatou no ponto de venda?

O panorama é complexo. Os preços dos alimentos caíram, principalmente, devido à supersafra brasileira ocorrida ao longo do ano, resultado de boas condições climáticas no campo.

De acordo com a APAS, a produtividade da agroindústria brasileira aliada ao clima gera uma oferta muito mais alta do que a população tem condições de absorver.

O problema de demanda é reflexo da crise. A recessão causou muitos estragos. É verdade que a taxa de desemprego tem melhorado ao longo do ano. No primeiro trimestre, o índice estava em 13,7%. Hoje, a taxa é de 12,2%, com cerca de 586 mil pessoas reinseridas no mercado de trabalho.

No entanto, a confiança do consumidor ainda está baixa. Medido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, o índice, que varia entre 0 e 200 pontos, atingiu a marca de 86,8 pontos em novembro. Embora tenha tido alta nos últimos meses, a evolução do número ainda derrapa devido às incertezas causadas pela contínua crise política e a recuperação lenta da economia.

BERKA, DA APAS: BAIXA CONFIANÇA
DO CONSUMIDOR TRAVA AS VENDAS

Há ainda outro problema: o endividamento das famílias, que restringe o potencial de compra do brasileiro.  

“62% das famílias estão endividadas e 25% estão com contas em atraso”, afirma Thiago Berka, economista da Apas. “Enquanto não pagar as dívidas, as famílias não vão aumentar o consumo de forma de forma relevante, mesmo com a inflação em baixa”.

De acordo com o economista, a baixa demanda deve continuar até meados de março – e só deve deslanchar com maior geração de emprego e renda.

“Quando o consumidor passar a comprar mais no supermercado, a demanda da indústria deverá aumentar”, diz Berka. “Poderemos ter um novo ciclo de crescimento.”

CONSUMIDOR FUSTIGADO

Após dois anos lidando com inflação, retração do PIB, desemprego crescente e uma forte crise política, o consumidor brasileiro está com o pé no freio. A nova postura é justificada por maior racionalidade na hora das compras.

Entre as mudanças de hábitos de consumo está a maior preferência por marcas mais baratas. De acordo com Berka, isso se dá devido ao fato de que parte dos consumidores não deseja abandonar itens que passou a consumir nos tempos de bonança, como iorgurtes e outros itens supérfulos.

Para não retirar todas as mercadorias do carrinho, ele, então, elege as preferidas, mas escolhe das marcas mais em conta.

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Outra mudança foi o maior consumo de embalagens econômica. Um bom exemplo é o papel higiênico, item de alto consumo, que pode ser encontrado nos mercados em embalagens de até 24 unidades.

Neste caso, a oportunidade para a indústria e supermercado é criar promo packs – oferecer mais de uma unidade ou um produto complementar com leve desconto para fisgar o consumidor.

“É uma maneira de entregar ao cliente maior percepção de valor”, afirma Berka.

Outra mudança relevante tem a ver com a forma de consumir bebidas alcoólicas. O lar é o novo bar. O consumidor diminuiu a frequência de idas em bares e restaurantes e passou a consumir bebidas em casa, em confraternizações com amigos e familiares.

Há também uma mudança nos fatores que motivam o brasileiro a comprar. Uma pesquisa conduzida pelo Centro de Inteligência Padrão mostra que “atendimento” não é mais o fator primordial para uma marca ser respeitada pelo consumidor.

Hoje, a característica de destaque é “qualidade”, apontada por 26% dos entrevistados, seguida de preço e facilidade de pagamento, ambas com 29%. “Atendimento” foi mencionado por apenas 27% dos consultados – em 2016, a percentagem era de 57%.

IMAGENS: Thinkstock e Divulgação