Negócios

Os negócios descolados da rua Mateus Grou


O endereço atrai um número cada vez maior de pessoas adeptas da diversidade, e curtem estabelecimentos que traduzem um estilo de vida alternativo, como o Da Feira ao Baile (na foto), que tem mesa compartilhada


  Por Mariana Missiaggia 22 de Maio de 2019 às 09:45

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Toda cidade tem aquele bairro que é o endereço preferido de quem gosta de fazer compras, aquela rua mais frequentada por quem gosta de comer bem ou aquele quarteirão com vida noturna que atrai jovens e adolescentes. Tudo estimulado pelos negócios instalados nesses endereços.

O conjunto de lojas, restaurantes e estabelecimentos especializados de cada região diz muito sobre quem visita ou vive por lá.

Em São Paulo, a região da Avenida Paulista, por exemplo, é icônica. Próxima de bairros com um perfil mais residencial, como Jardins, Bela Vista e Paraíso, com fácil acesso a transporte público e com diversas opções de lazer, a região é claramente marcada por ser um polo empresarial.

QUITANDA, NA MATEUS GROU, VENDE PRODUTOS DA MODA

Reduto da comunidade italiana, o Bexiga se caracteriza por ser uma área tradicional da cidade com muitas cantinas italianas e negócios fundados por imigrantes.

Já a boêmia Vila Madalena, na zona oeste, é conhecida pelo grande número de bares, que espalham mesas pelas calçadas, e também pelos ateliês e galerias de arte. Perto dali, a rua Mateus Grou, em Pinheiros, na Zona Oeste paulistana, parece ter a mesma vocação do bairro vizinho por concentrar tantos espaços descolados – só que ali, o movimento é mais intenso durante o dia.

Quem caminha por lá percebe que o endereço mescla bem o uso comercial e residencial. Tem tudo que um bom bairro pode ter, só que de um jeito diferente –um pouco mais criativo e descolado, digamos. Padaria só para cachorro, quitanda com hambúrguer vegano, doceria com mesa compartilhada, horta coletiva, loja de roupas costuradas à mão, bar que serve cerveja no isopor e antiquários com peças de design.

Considerada“o point” dos decoradores, a Collector 55 vende móveis e objetos garimpados pelo mundo todo na tentativa de se distanciar do que é vendido em larga escala por outras varejistas brasileiras.

Quem vai até lá, também costuma aproveitar para visitar a Galeria Nacional, uma loja de decoração com cara de casa bem aconchegante. São dois andares com mais de cem itens assinados por designers de prestígio, como Maurício Arruda e a Oficina Itsu.

ALMEIDA DIZ QUE POLOS SÃO ÚNICOS E IRREPLICÁVEIS

A proximidade física de lojas com uma oferta similar é algo bastante comum em São Paulo. Para Pedro Almeida, consultor de negócios e franquias da Franchise Solutions, esse movimento acaba por criar polos de atratividade únicos na capital ou em qualquer outra cidade.

“Essa construção costuma partir de um empreendimento diferenciado que acaba por atrair um público que se identifica e outras empresas começam a aplicar um modelo de operação parecido e isso ganha volume. É o caso da Mateus Grou que tem negócios com base em um estilo de vida alternativo”, diz.

Nesse sentido, a mais nova vizinha do endereço é a lanchonete Matilda, da renomada Renata Vanzetto, que fundou o Marakuthai. O restaurante se prepara para abrir as portas nas próximas semanas. Como não poderia deixar de ser, o cardápio traz uma série de invenções, como maionese de beterraba e picles de couve-flor.

Almeida diz que o mesmo se repete em outros endereços, como as ruas Oscar Freire e 25 de Março. Os empreendimentos se direcionam para onde a concorrência está dando certo.

Segundo afirma, a formação desses polos ocorre de forma orgânica, de acordo com a aceitação do público que ao longo do tempo vai moldando cada um desses espaços e que, portanto, não consegue se replicar em outros endereços.

DONA VITAMINA TEM CARA DE CASA DE AVÓ E SERVE
BEBIDAS DIFERENTES

Ele cita o caso da rua do Porto, em Piracicaba, no interior de São Paulo, que atrai turistas e moradores para os bares e restaurantes do entorno.

“Não adianta querer replicar a rua do Porto (de Piracicaba) em São Paulo. Há todo um contexto que torna cada um desses polos únicos. É uma questão de posicionamento. Tentar criar outra Oscar Freire em São Paulo também não funciona”, diz Almeida.

ROTATIVIDADE

Entre as estrelas da Mateus Grou estão a Sucrier, uma confeitaria que mistura a pâtisserie francesa com a americana em bolos e doces superproduzidos servidos numa casinha charmosa com uma parede inteira de guloseimas embaladas para presentear e o café Da Feira ao Baile, que começou como um blog e desde 2016 se materializou num sobrado em Pinheiros para vender receitas caseiras e oferecer aulas de culinária.

Febre do momento, a Pao (sigla para Padaria Artesanal Orgânica) foi uma das primeiras apostar no movimento “cool” da Mateus Grou com opções de pães orgânicos, assim como a Dona Vitamina que como outros estabelecimentos da região segue a pega saudável e fez dos sucos e vitaminas a sua especialidade.

No entanto, há também quem mesmo tendo essas mesmas características já tenha deixado o endereço por falta de cuidado, na opinião de Almeida.

As estatísticas comprovam essa falta de planejamento. Estudos mostram que cerca de 50% das micro e pequenas empresas brasileiras fecham as portas dentro de quatro anos de atividade.

“Tem que fazer conta e não se deixar levar pela oportunidade. Trata-se de um ponto com custo de ocupação alto, entre R$ 8 e R$ 25 mil por mês, algo muito caro para muitos pequenos sem retaguarda financeira”, diz.

Já para grandes redes, estar presente nesses endereços ainda que o retorne financeiro não seja o suficiente pode ser uma boa estratégia. Uma loja que funcione como cartão de visita, segundo o consultor. Mas, ambos os casos, precisam ser decididos na ponta do lápis.