Negócios

O que falta para apoiar o empreendedorismo em São Paulo


Embora a capital paulista seja apontada pela Endeavor como o principal celeiro de empreendedorismo do país, quem faz negócios ainda enfrenta um complexo ambiente regulatório


  Por Mariana Missiaggia 10 de Maio de 2018 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Há quatro anos, a Endeavor elabora um estudo de fomento ao empreendedorismo que avalia o ambiente empreendedor nas 32 cidades brasileiras com maior número de empresas de alto crescimento. Desde o início, São Paulo mantém a liderança no ranking de melhores cidades para empreender.

No entanto, a capital paulista ainda está longe de desenvolver todo seu potencial econômico que possui. Nesta quarta-feira (09/05), o tema foi discutido na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) por integrantes do Conselho de Política Urbana (CPU) e do Núcleo de Estudos Urbanos (NEU) da entidade. 

Em entrevista ao Diário do Comércio, o palestrante Rodrigo Brandão, diretor jurídico da Endeavor, diz que a cultura empreendedora deve ser a base de um ambiente criado para estimular o desenvolvimento de novos negócios.

Em São Paulo, alguns dos desafios apontados abrangem o fortalecimento das políticas públicas para conectar e intensificar o relacionamento entre governo, setor privado e novos empreendedores, assim como propor parcerias.

Além das questões práticas, Brandão também destaca que a cidade falha por não fomentar a cultura empreendedora desde a infância. Leia a entrevista a seguir:     

A cultura empreendedora ainda é muito recente no Brasil. A maior parte de nossos empreendedores têm entre 20 e 30 anos. Entraves burocráticos podem impedir a ampliação desse movimento? 

BRANDÃO, DA ENDEAVOR, DEBATEU INOVAÇÃO E
EMPREENDEDORISMO NA ACSP

Rodrigo Brandão - Acredito que sim. A Endeavor tem um produto muito consistente que é o índice de cidades empreendedoras. E ele demonstra o que está por trás de um ambiente bem-sucedido em empreendedorismo e inovação. Ali, fica muito claro como diferentes aspectos da vida pública, como, por exemplo, o acesso a capital, ambiente regulatório e infraestrutura podem contribuir ou ainda representar um entrave para o empreendedorismo.

Ano passado, São Paulo lançou o Empreenda Fácil. Na prática, qual o impacto real da simplificação de abertura de empresas em sete dias para os empreendedores?

Brandão - Trata-se de um programa que começou a ser desenvolvido em 2017, que teve uma fase de diagnóstico e desenvolvimento das melhores soluções. Então, ainda é um pouco cedo para ter uma noção clara desses impactos. O que vemos é uma tentativa do próprio secretário Daniel Annemberg de pensar iniciativas semelhantes que ele já ajudou a estruturar no passado, como o Poupatempo. Toda ação desse tipo contribui muito.

Quais são as principais barreiras que dificultam o desenvolvimento do empreendedorismo local?

Brandão - Temos muitas urgências, mas de imediato seria fundamental melhorar o cenário jurídico como um todo. Embora mantenha a liderança no índice de cidades empreendedoras, São Paulo cai para a 25ª posição no ranking no que diz respeito ao ambiente regulatório. E isso é sempre muito difícil de mudar. Felizmente, todos esses empecilhos estão bem diagnosticados em São Paulo. Então, sabemos onde e como atuar. As dificuldades encontradas pelos empreendedores no quesito burocracia para regularizar imóveis - um dos fatores avaliados na pesquisa, por exemplo-, é muito mais animador em outras cidades. 

Como São Paulo está posicionada em relação a outras metrópoles do mundo no que diz respeito à inovação?

Brandão - Em relação a outras cidades do mundo, São Paulo certamente, ainda tem muito a avançar. Ainda assim, é uma cidade muito privilegiada. Em termos de economia criativa, por exemplo, é uma cidade que se destaca porque tem o que chamamos de economia de aglomeração. Ou seja, quando diferentes setores industriais buscam uma aproximação a fim de facilitar e conectar algumas questões logísticas. Isso faz de São Paulo um caldeirão de cultura, onde é possível inovar, pensar novos produtos e novas dinâmicas. Estamos muito bem servidos. 

O que torna um ambiente favorável às novas ideias? Qual é o papel das universidades em relação a isso?

Brandão - Esse assunto não é fácil em São Paulo e não é fácil em nenhum outro lugar do mundo. Fazer essa conexão entre empreendedores, poder público e empresas nunca é simples. As universidades têm um papel privilegiado nesse ecossistema porque elas concentram a produção de conhecimento, alunos interessados em inovar, fazer acontecer e construir as suas próprias carreiras. Ao mesmo tempo, essas instituições têm muita gente especializada - professores e pesquisadores, com conhecimento consolidado sobre algumas áreas. O desafio está em descobrir como conectar isso tudo com o governo e grandes empresas – entender como cada um opera e quais são as suas necessidades.

FOTO: Thinkstock