Negócios

O que é preciso fazer para destravar a economia?


O Diário do Comércio fez essa pergunta a varejistas, economistas e consultores de varejo. Veja o que eles disseram


  Por Fátima Fernandes 29 de Abril de 2016 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Um dos maiores desafios do governo Temer -uma vez que o afastamento da presidente Dilma Rousseff já é tido como muitíssimo provável -será acertar nas medidas capazes de destravar a economia.

O Diário do Comércio perguntou para lojistas, consultores de varejo e economistas quais seriam as ações mais urgentes para tirar a economia brasileira do marasmo.

Veja o que eles dizem:

Romeu Zema (presidente Eletro Zema, rede mineira especializada em eletrodomésticos e móveis)

"O governo precisa dar um choque de credibilidade na economia, mostrando que vai cuidar imediatamente das contas públicas por meio de mudanças na Previdência, cortar custos da máquina estatal e ter propostas concretas para reformas dos sistemas tributário e trabalhista.

ZEMA: "É PRECISO TER REFORMA TRIBUTÁRIA E TRABALHISTA"

O governo precisa sinalizar que vai dar atenção às privatizações. O Banco Central e a Petrobras precisam também ficar livres de interferências políticas. Suponho que o efeito na economia de medidas como essas se daria entre quatro e oito meses".

Fauze Yunes (sócio-diretor da Confecções Dinhos, confecção e loja de roupas localizada no Brás)

"A saída para a economia reagir seria uma política de incentivo para a indústria -a verdadeira geradora de empregos-, com desburocratização dos trâmites contábeis e fiscais -simplificação da tributação-, diminuição da carga tributária, flexibilidade de negociação entre empresas e empregados.

Acredito que essas medidas tirariam muitas empresas da informalidade, gerando o recolhimento de mais tributos. Hoje, a maioria das empresas deixa de recolher tributos para sobreviver e, não para lucrar mais, que é o que muita gente pensa".

Alberto Serrentino (consultor especializado em varejo)

"O varejo brasileiro vem sofrendo desde o início de 2015. Para a retomada do setor é preciso estabilidade política, governabilidade, uma agenda positiva para a economia e para o mercado de trabalho, para que se restaure a confiança.

As vendas só começarão a melhorar quando houver reversão do nível de confiança dos consumidores e a volta do crédito.

Um eventual novo governo que consiga implantar medidas de curto prazo, que mostrem compromisso com equilíbrio fiscal e controle inflacionário e revelam uma base de sustentação política, podem ter efeito positivo para o varejo".

Nelson Barrizzelli (consultor especializado em varejo) 

A saída da presidente Dilma vai provocar, no meio empresarial, uma grande sensação de alívio. Há cinco anos o governo vem intervindo na economia de forma atabalhoada.

BARRIZZELLI: "ESTE SERÁ MAIS UM ANO PERDIDO"

O problema é que Michel Temer, se for presidente, será interino por até seis meses. Tudo, tanto nos próximos meses, como nos próximos anos, vai depender de como o Congresso vai se comportar, do que a Lava Jato vai descobrir mais sobre os políticos, da velocidade do Supremo em punir os que devem ser punidos e da capacidade de Michel Temer de dialogar com o Congresso.

Aos varejistas só cabe observar o ambiente. Nada vai mudar da noite para o dia. 2016 já está feito. O desemprego vai aumentar, continuará a queda na renda média e no consumo, a inadimplência tenderá a aumentar e a indústria não vai reagir. Vamos perder mais um ano em nossas vidas.

Os varejistas preparados não vão se endividar e manterão um fluxo de caixa positivo e continuarão controlando os custos fixos.

O momento não é para se estocar. O atendimento aos poucos clientes que entram na loja deve ser impecável. Não dá perder vendas por mau atendimento.

Emílio Alfieri (economista da ACSP)

O que pode destravar a economia é a melhora da confiança, que está hoje em um dos níveis mais baixo da história, e a queda de juros, com aumento do crédito.

O resto é por conta dos lojistas, que precisam evitar o repasse de preços, trabalhar com marcas de segunda linha, como uma forma de oferecer produtos mais baratos para os consumidores.

No caso de produtos eletroeletrônicos, se não dá para reduzir preços, o lojista pode pensar em alongar prazos, se tiver fôlego para isso.

A prestação de um produto no valor de R$ 1.000, financiado com uma taxa de juros de 5% ao mês, dá uma prestação de R$ 129,50, em dez vezes.

Se o financiamento aumenta para 14 vezes, a prestação cai para R$ 101. Isto é, o consumidor paga R$ 30 reais menos. É claro que isso é mais para redes grandes, mas são sugestões que podem ajudar o lojista a enfrentar este momento.

Mercedes Mosquera (diretora de operações do supermercado Madrid)

O que o país precisa e deseja é que o governo faça uma reforma tributária que permita a unificação de alíquotas entre os Estados, de modo que a tributação seja simplificada.

Nelson Kheirallah (coordenador do Conselho de Varejo da ACSP)

A saída da presidente Dilma só mudam as expectativas e a confiança se a economia tiver um novo rumo.

KHEIRALLAH: O GOVERNO PRECISA FAZER AS REFORMAS TÃO ESPERADAS

Para destravar a economia seriam necessárias as reformas tão esperadas e que o possível futuro presidente Michel Temer só conseguirá realizar algumas delas e, mesmo assim, em partes.

O consumo não volta a subir nos próximos meses, mas a queda poderá ser amenizada por um aumento na confiança de novos investimentos.

Este novo ciclo de desemprego vai continuar, mas também deverá ser menos acelerado.

Os varejistas precisam cortar todas as suas "gorduras", reduzir despesas, controlar seu caixa e seu estoque e mais, aqueles que deixavam o gerenciamento dos seus negócios em mãos de terceiros, devem reassumí-los imediatamente, inclusive com muito sacrifício.

Não existe milagre. Neste momento, só existe muito suor e muita dedicação.

Sandro Benelli, consultor (sócio da consultoria Enéas Pestana & Associados)

No curto prazo o governo precisa da simpatia dos agentes financeiros e isso ele pode conseguir se comprometendo com o ajuste fiscal (que será feito no médio prazo). Como ele faz isto?

BENELLI: CORTAR MINISTÉRIOS

 

Nomeando uma equipe econômica ortodoxa com Meirelles ou Ilan Golfajn, economista-chefe do Itaú, para o Banco Central, cortando ministérios e cargos comissionados. São medidas de baixo impacto fiscal, mas muito simbólica.

Com estas atitudes haverá uma melhora nas expectativas do mercado e assim o Real se manterá valorizado. Isto ajudará a controlar ou baixar a inflação. Com inflação caindo ou ao menos sob controle, o governo pode começar a baixar os juros, o que irá destravar o consumo e dar início à retomada dos investimentos e, consequentemente, à criação de empregos.

LEIA MAIS: Principais riscos para o Brasil vêm de cenário político turbulento 

Imagem: Thinkstock