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O Ponto Chic e a arte de se modernizar desde 1922


O restaurante fundado em meio à efervescência da Semana de Arte Moderna mantém a receita do Bauru e prepara-se para investir no sistema de delivery. No destaque, Rodrigo, da terceira geração da família que comanda a casa


  Por Wladimir Miranda 24 de Maio de 2019 às 10:15

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Há 82 anos, os paulistanos, e os turistas, do Brasil e do exterior, conhecem a receita do Bauru, sanduíche que tem a cara de São Paulo. Pão francês, com finas fatias de rosbife, tomate em rodelas, pepino em conserva e uma mistura de 4 tipos de queijos (prato, estepe, gouda e suíço), fundidos em banho maria.

Nas três unidades do Ponto ChicLargo do Paissandu, Perdizes e Paraíso, são consumidos 130 mil baurus por ano. E para saborear a delícia, nenhum paulistano ou turista se importa em pagar R$ 26,90.

Nas três casas, também são servidas fartas quantidades de comida brasileira, suficientes para alimentar quatro ou cinco pessoas. O tíquete médio na tradicional casa é de R$ 40,00.

“Em qualquer lugar do Brasil, se você pedir um Bauru, certamente será servido um sanduíche”, afirma Rodrigo Alves, 40 anos, da quarta geração de proprietários, e da terceira geração da família que fundou o Ponto Chic, em 1922.

Foi o ano historicamente marcado pela Semana de Arte Moderna, que não ficou restrita aos sete dias, se transformou em acontecimento artístico, cultural e político, e colocou frente a frente personagens históricos da literatura brasileira, como Mário de Andrade e Monteiro Lobato.

A história do Ponto Chic começou em 1922, quando Odillio Cecchini e seu sócio Antonio Milanese (morto na Revolução Constitucionalista de 1922), decidiram montar um bar em um pequeno prédio de três andares, situado no Largo do Paissandu.

O lugar não tinha nome, mas as suas instalações, muito bonitas, com mármores de Carrara – extraído na cidade de Carrara, no norte da Itália -, passou a ser chamado de ponto chique.

Virou logo ponto de encontro de boêmios, artistas, estudantes de Direito do Largo São Francisco e formadores de opinião.

ASSIM NASCEU O BAURU

Um dia, em 1937, o estudante de direito Casimiro Pinto Neto, nascido em Bauru, decidiu que deveria seguir a receita de um livro que trazia às mãos, com o título “Livro das mãezinhas”.

A obra dizia que uma refeição completa para os filhos deveria ter carboidratos e muita vitamina.

“Então, o Casimiro pediu um lanche que tivesse queijo, rosbife, tomate e pepino em conserva. Quando saboreava o sanduíche, outro estudante, o Quico, chamou o garçom e pediu um sanduíche ‘igual ao do Bauru’, apelido de Casimiro.

Pronto, nascia o lanche que cairia na boca e no gosto não só dos paulistanos.

“É comum os paulistanos trazerem turistas de todas as partes do mundo para saborear o Bauru. É uma forma que eles encontraram para mostrar aos visitantes algo que é uma característica da cidade”, conta Rodrigo.

Em 1977, uma ação de despejo (o prédio era alugado), fechou o restaurante do Largo do Paissandu.

Indignados com o fechamento de seu ponto de encontro, estudantes da Faculdade de Direito do Largo do Paissandu, quebraram suas instalações.

O responsável pelo ressurgimento do Ponto Chic foi Antônio Alves de Souza, avô de Rodrigo.

Foi ele quem, no início de 1978, comprou os direitos da marca e reabriu o restaurante em Perdizes.

Três anos depois, o restaurante foi reaberto no Largo do Paissandu. Quem tomou a iniciativa de reabrir o ponto tradicional e histórico foi José Carlos Alves, pai de Rodrigo, ao se deparar com uma placa de aluga-se exatamente no lugar onde tudo começou.

A casa está lá até hoje e, ano passado, proprietário e clientes passaram por um grande susto.

O INCÊNDIO 

O dia primeiro de maio de 2018 amanheceu coberto pela fumaça das chamas, que consumiram o Edifício Wilton Pereira de Almeida, distante apenas 20 metros do estabelecimento. O saldo da tragédia foram dezenas de famílias desalojadas e sete mortes.

“O Ponto Chic não ficou fechado um único dia durante os trabalhos de rescaldo do incêndio. Os jornalistas que estavam cobrindo a tragédia almoçavam e jantavam na nossa casa”, conta Rodrigo.

Não há franquias do Ponto Chic. Foram feitas experiências com esta modalidade de negócio em Moema, na Zona Sul, em São Bernardo do Campo, no ABC, em Ribeirão Preto, e na Rua Augusta, na região central de São Paulo.

“Não deu certo e resolvemos fechar as lojas. Paramos com este tipo de operação. O nosso avô disse para a gente não franquiar. Hoje só temos três unidades”, diz Rodrigo.

Trata-se de uma empresa de família. Rodrigo, o avô, Antônio, e o pai, José Carlos, compartilham o gerenciamento do negócio.

Formado em direito, fez cursos de especialização em marketing e administração de empresas, Rodrigo diz que conta com 125 colaboradores.

O Bauru, claro, é o campeão de vendas.

“O Bauru é o que faz o cliente sair lá da periferia da Zona Leste para comer o sanduíche em uma das nossas três unidades”, afirma.

O passo adiante que a família pretende dar em breve é acelerar o esquema de delivery, uma saída para estes tempos de muita insegurança, que fazem com que as pessoas tenham medo de sair de casa para frequentar restaurantes, principalmente à noite.

DELIVERY

“A ideia é abrir uma casa que funcione no esquema de delivery. Assim, vamos poder entregar o Bauru em vários bairros de São Paulo”, planeja Rodrigo, ressaltando que o Ponto Chic “vende tradição”.

Outro aspecto que Rodrigo faz questão de ressaltar é que a casa prioriza a contratação de pessoas com mais idade, mais experientes.

“Quase um terço de nossos colaboradores tem mais de 59 anos. E a maioria deles está no Ponto Chic há duas décadas. Prestigiamos muito as pessoas da terceira idade, de cabelos brancos, inclusive com planos de saúde que contemplem estas pessoas. Eles se identificam com a casa. E os clientes se identificam com elas. Temos casos aqui de garçons que visitam os clientes e ficam preocupados quando eles não aparecem”, afirma.

Aos poucos, o trabalho de sucessão no Ponto Chic já está em vigor. E segue a linha adotada pela família. Assim que completou 14 anos, Rodrigo ganhou do pai uma carteira de trabalho. Ele ia ao Ponto Chic sempre quando as folgas escolares permitiam.

“Eu ajudava no balcão, no caixa. Mas o meu pai fazia questão de pagar pelo meu trabalho. E trabalhei com carteira assinada na empresa do meu pai. É o que eu estou fazendo agora com o meu sobrinho, de 15 anos. Quando ele quer alguma coisa, um celular, por exemplo, eu digo que ele tem de trabalhar para merecer o celular. E assim é feito. Aprendi com meu pai e o meu avô. Não damos mesada, damos salário”, avisa ele.

CONSELHO DO JOÃO DORIA

Rodrigo lembra a conversa que certa vez teve com João Doria, hoje governador de São Paulo.

“Ele disse que eu teria de decidir se eu queria ser herdeiro ou sucessor. Eu decidi que queria ser sucessor. Os cursos que eu fiz me ajudaram a compreender e gerenciar uma empresa do porte do Ponto Chic. E não é fácil convencer meu pai e meu avô a fazer mudanças. Mas, com calma, consigo colocar em prática algumas ideias que tenho”, afirma.

A vontade de ser sucessor e administrar os negócios da família surgiu em 2010. Rodrigo foi trabalhar em uma empresa que investia em restaurantes.

“Um dia, uma amiga me disse que nunca havia me visto tão entusiasmado com o meu trabalho. Ela disse que eu estava com brilho nos olhos. Foi quando decidi que iria ajudar meu pai e meu avô a administrar a empresa”, conta.

Uma das inovações que têm a marca de Rodrigo na empresa é a participação na Virada Cultural, programada para o próximo final de semana, 18 e 19 de maio, em São Paulo.

“O Ponto Chic faz parte da programação. É indicado no prospecto do evento como um dos locais para alimentação”, diz Rodrigo, que também é atuante no trabalho pela revitalização do centro de São Paulo.

Ele faz parte do movimento “Centricidade”, que planeja transformar a região central em polo gastronômico.

“Temos um grupo que está lutando por isto. Mas não é fácil. São muitos os obstáculos. É preciso ter muita paciência para dialogar com o poder público”, avisa.

Uma lei sancionada em 29 de dezembro de 2018, transformou o Bauru em patrimônio imaterial de São Paulo.

FOTOS: Divulgação