Negócios

O peso das locadoras no setor de seminovos


A Localiza, maior locadora do País, vendeu no primeiro trimestre 36,6 mil veículos seminovos, 45% a mais ante igual período do ano passado. O número de lojas com a marca subiu de 99 há um ano para 108


  Por Estadão Conteúdo 29 de Abril de 2019 às 13:11

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Não há dados separados sobre a participação das locadoras nas vendas com nota fiscal diretamente das montadoras, mas, segundo executivos de montadoras elas são, sem dúvida, as maiores clientes do setor.

Na opinião de Paulo Cardamone, da Bright Consulting, as locadoras têm grande poder de barganha de preços justamente em razão do alto volume de carros que adquirem anualmente. Além disso, segundo executivos automotivos, conseguem financiamentos a juros mais baixos nos bancos - entre 8% a 10% ao ano, enquanto o consumidor pessoa física paga cerca de 22%.

CONCORRÊNCIA

Com lojas para revender os modelos usados, as locadoras também são fortes concorrentes das concessionárias pois, normalmente, revendem os veículos após um ano de uso também com descontos atraentes.

A Localiza, maior locadora do País, vendeu no primeiro trimestre 36,6 mil veículos seminovos, 45% a mais ante igual período do ano passado. O número de lojas com a marca subiu de 99 há um ano para 108.

Segundo balanço financeiro divulgado pela empresa na quinta-feira, a frota alugada passou de 90,9 mil carros nos três meses do ano passado para 114,8 mil, alta de 26,2%.

Para todos os serviços em que atua, incluindo gestão de frota e locação para quem trabalha com apps, como Uber e 99, a Localiza dispõe hoje de frota de 247,6 mil veículos, 54,3 mil a mais do que tinha há um ano. A empresa não divulga quantos modelos novos pretende adquirir ao longo de 2019.

O presidente da Fenabrave, Alarico Assumpção, diz não ser contra esse canal de vendas, mas sim contra o procedimento das empresas.

"O ruim é quando há desequilíbrio, um valor excessivo de descontos."

Ele defende que os descontos dados pelas montadoras não sejam superiores aos determinados em lei para as categorias que têm direito à isenção de impostos por lei.

"Estamos fazendo um trabalho forte com a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) para que haja um equilíbrio, seja quem for o comprador", afirma Assumpção. 

MONTADORAS

Ainda operando com alta ociosidade de 43% nos primeiros meses do ano, as montadoras seguem recorrendo a grandes frotistas e locadoras para desovar carros, apesar de considerarem que esse tipo de venda não é saudável, pois é feito com descontos que variam de 20% a 40% sobre o preço ao consumidor, segundo executivos do setor.

Para ser eficiente, a sobra de capacidade deveria ficar na casa dos 20%. O que parecia ser um desempenho na contramão da economia - com o PIB sendo revisto para baixo, desemprego resiliente e confiança do consumidor abalada -, o aumento de 9,4% nas vendas de janeiro até 22 de abril é frágil.

Como os demais indicadores, mostra que a retomada do crescimento do País é mais difícil do que se imaginava. Dos 761 mil carros e comerciais leves vendidos até agora, 43% foram por vendas diretas, mesma participação de todo o ano passado, a mais alta desde 2003, quando a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) começou a divulgar esse dado.

A participação é ainda maior quando é analisado apenas o mês de março, que teve 48% dos negócios feitos diretamente da fábrica.

A venda direta (ou corporativa) é feita por montadoras a frotistas e locadoras que compram grandes volumes e por meio de concessionários a produtores rurais, taxistas, pessoas com deficiência física e pequenas empresas.

Por lei, esse grupo têm direito a isenção de impostos e consegue bônus das empresas em razão da concorrência no setor.

Esse tipo de venda reduz a margem de ganho das montadoras em comparação aos valores obtidos no varejo por meio de revendas, cujos descontos médios ficam na casa dos 10%, dependendo dos estoques.

CAPACIDADE

O presidente da Bright Consulting, Paulo Cardamone, acredita que a participação das vendas diretas no mercado de veículos chegará próxima de 50% até o fim do ano.

"A única coisa boa é que essas vendas ajudam a ocupar parte da capacidade das fábricas", diz.

A ociosidade nas linhas de montagem também se mantém alta em razão da queda das exportações para a Argentina. O país adquiriu 133,2 mil automóveis brasileiros no primeiro trimestre de 2018, volume que este ano caiu para 62 mil.

Como não há perspectivas de melhora na economia argentina pelo menos nos próximos dois anos, a indústria brasileira deve continuar recorrendo às vendas diretas para usar parte de sua capacidade instalada de cerca de 5 milhões de veículos ao ano.

Nos últimos dez anos as vendas diretas apresentam desempenho superior ao varejo. No ano passado, esse canal de negócio cresceu 22,3%, somando 1,06 milhão de automóveis e comerciais leves, enquanto o varejo aumentou 8%, para 1,4 milhão de unidades. Em 2017, os negócios especiais tiveram alta de 28% e o varejo ficou estagnado.