Negócios

O negócio dele são carrões para transportar clientes figurões


Serviço criado por Leonardo Domingos Silva virou referência ao transportar chefes de Estado, celebridades, milionários e até xeiques árabes em automóveis de luxo


  Por Karina Lignelli 11 de Julho de 2016 às 13:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Três anos antes de o polêmico aplicativo Uber ter aportado em São Paulo, em 2011, o paulistano Leonardo Domingos Silva, 34, vislumbrou uma oportunidade de negócio que poucos haviam enxergado: o de locação e transporte executivo de passageiros. 

Não em qualquer modelo de automóvel, mas exclusivamente em veículos de alto luxo, como Mercedes classe S, Audi A8 ou Ferrari F430, Porsche 911, Bentley Continental GT e BMW 750. 

A paixão por carros, segundo Leonardo, vem desde criança, quando ele passava os dias preparando, polindo ou até vendendo automóveis nas lojas do pai e dos tios, na Penha (Zona Leste da capital paulista) ou na Al.Barão de Limeira, o antigo ponto de compra, venda e troca de veículos no bairro de Santa Cecília (região Central).  

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Esse gosto, somado a um certo espírito de empreendedor serial levaram Leonardo a fundar a prestadora de serviços LDS Group na Avenida Europa, a conhecida rua da capital paulista que abriga revendedoras e concessionárias especializadas no segmento premium. 

Com diárias a partir de R$ 900, mas que podem bater nos R$ 9,5 mil, a LDS atende desde redes de hotéis cinco estrelas, multinacionais e bancos de investimento até casamentos de alto padrão – incluindo receptivo no aeroporto e serviço de entrega de carro ao cliente. 

O atendimento a comitivas internacionais, como as das marcas de moda Louis Vuitton e Hermés, eventos do porte da Fórmula 1, Copa do Mundo e, agora, a Olimpíada, também fazem parte do portfólio.  

MERCEDES CLASSE S: O QUERIDINHO DOS CLIENTES LDS/Foto: Divulgação

A expectativa de Leonardo é que os próximos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro elevem o faturamento da LDS a R$ 40 milhões neste ano. 

Assim como na Copa, que considerou “excelente”, mas compeliu a LDS se desdobrar para atender seu maior contrato, fechado em cima da hora, e tinha como empecilho logístico estar sediada em 12 capitais. Desta vez, a empresa fez um alto investimento na frota para atender à nova demanda - desta vez, concentrada na capital carioca. 

“Compramos aproximadamente 40 carros, a um tíquete médio de R$ 180 mil”, ele conta. “Somado aos 80 que terceirizamos com parceiros, chegaremos a quase 200 veículos em operação no Rio e em São Paulo para atender a quem vem assistir ao evento.” 

Hoje, além dos carros, a empresa oferece motos, helicópteros e até embarcações no “cardápio”, como gosta de dizer. Tudo ao gosto da seleta clientela, que inclui de altos executivos e chefes de Estado, como os príncipes do Kuwait e do Catar. 

Celebridades do quilate dos Rolling Stones, Coldplay e Scorpions que costumam pedir um Mercedes, Audi ou BMW para cada integrante. A cantora Beyoncé e o piloto de Fórmula 1 Sebastian Vettel e sua equipe figuram entre os 550 mil passageiros transportados em cinco anos pelos veículos da LDS. 

“Não tinha muito essa noção sobre ter o negócio próprio: sempre fui curioso e metia as caras para fazer as coisas”, conta Leonardo. “Mas consegui associar o que eu mais gostava –carros – com um trabalho que me dava prazer. E deu certo.”

MÃO NA MASSA

Olhando agora, parece simples ser o dono de uma empresa que fatura milhões por ano apenas transportando pessoas para lá e para cá em carrões de luxo.

Mas a forma inusitada e o jeitão autoconfiante de Leonardo Domingos Silva é que fizeram toda a diferença em sua trajetória empreendedora. 

Publicitário de formação, Leonardo morou em San Diego (Califórnia, EUA), Lecce (Itália) e em Lisboa, onde fez de tudo um pouco para sobreviver. De volta ao Brasil, em 2001, arrumou emprego em sua área e, certo dia, a caminho da agência, decidiu que abriria um pequeno negócio. 

Com quase nenhum capital, muita insistência e uma dose de “faça-você-mesmo”, transformou um espaço meio vazio em um posto de gasolina, na Zona Sul paulistana, em um misto de banca de jornal e loja de conveniência.   

“Foi o primeiro dinheiro que fiz girar. Com o que sobrava, eu reinvestia, e ganhei um bom dinheiro”, lembra. Empolgado com o retorno financeiro, o reencontro com um amigo de infância levou-os a investir numa cafeteria. Não deu certo. “A localização era péssima.”  

Como o posto iria permanecer fechado para reforma durante um ano, Leonardo decidiu voltar para Portugal e trabalhar com publicidade. Cinco anos depois, recebeu um chamado do irmão no Brasil, cuja empresa de transporte em vans, ônibus e microônibus estava crescendo. 

A REVENDA DO TIO MARCO: PAIXÃO ANTIGA POR CARROS/Foto: Arquivo Pessoal

Ao assumir a área comercial em uma era pré-Uber, ficou atento às novas demandas - como o serviço de transporte executivo de luxo “Uma secretária de multinacional perguntou se a gente trabalhava com Mercedes Classe S e eu disse sim, mesmo sem ter um”, afirma, brincalhão.

E fechou a diária para cinco dias a R$ 9,5 mil. A parceria com o sogro do irmão, que trabalhava com transporte de cargas e era frotista Mercedes Benz, ajudou: como ele tinha cinco carros do tipo pois tirava com desconto, Leonardo propôs alugar um deles no período. “Disse que eu mesmo dirigiria, daria metade para ele e metade para a empresa. E ele topou.”

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A iniciativa caiu no boca a boca de outras locadoras, Leonardo começou a fazer parcerias, e a transportadora passou a ser procurada quando havia solicitação de carros de alto padrão. 

Mas, como o irmão preferia o segmento coletivo, Leonardo, que havia tomado gosto pela coisa, decidiu, após sete anos de empresa, empreender por conta própria. E no segmento de alto luxo, já que, segundo ele, havia deficiência desse tipo de serviço no Brasil. 

“Me perguntava: como alguém pode alugar um carro a R$ 9 mil por dia? Em dois, três meses, ele se paga sozinho. Aí eu vi uma oportunidade de negócio.” Surgia o embrião da LDS. 

CRISE, CONCORRÊNCIA E CRESCIMENTO   

E Leonardo, mais uma vez, foi com a cara e a coragem. O primeiro contrato com um famoso hotel cinco estrelas da capital paulista:  transportar os hóspedes em um Ford Fusion parcelado em 24 prestações, que planejava pagar com esse trabalho de motorista. 

“Eu não tinha capital. Se fosse hoje, eu diria, ‘vou ser Uber’. Mas na época eu conhecia vários interessados em contratar esse serviço, e que queriam motorista bilíngue. Esse hotel foi a alavanca, chamei mais cinco ‘Uber’, como eu, e fechamos contrato.” 

Daí em diante, virou história: os pedidos cresceram, ele comprou mais carros e, quando não tinha os que o hotel solicitava, procurava os conhecidos nas concessionárias e alugava os carros.

Muitas vezes, sendo ele mesmo o motorista. Hoje, a frota da LDS tem 160 veículos espalhados nas operações São Paulo e Rio de Janeiro, somando R$ 100 milhões em ativos.  

LEONARDO, DONO DA LDS: 100% DE FOCO NOS NEGÓCIOS/Foto: Karina Lignelli

A crise econômica não chegou a afetar os negócios. Segundo afirma Leonardo, além de o segmento de luxo estar à parte da recessão, as empresas têm evitado adquirir novos bens, optando pela locação. “É um mercado que está bem aquecido para nós.”

Com uma expectativa tão positiva, o que dizer do Uber, que não existia quando Leonardo teve a ideia de oferecer o transporte executivo de luxo? 

Segundo ele, a empresa é considerada concorrente, apesar de não ter os mesmos carros da LDS no portfólio. Mas afetou um pouco o transporte executivo standard, que caiu entre 15% e 20% do fim de 2015 até agora. 

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“Alguns clientes que solicitavam nossos carros para ir para festas à noite passaram a usar o Uber. Mas a gente preferiu não entrar nessa linha baixando preços, pois nosso contrato exige documentos, seguro e contratação CLT dos funcionários. E o cliente prefere.”

Mesmo assim, a LDS também perdeu vários motoristas para o aplicativo, pois eles acreditaram que ser autônomo seria mais vantagem, diz Leonardo.

“Entre depreciação do carro, taxas, combustível e outros, se colocar na ponta do lápis a conta não fecha (para o motorista).”

A despeito da concorrência, as expectativas a médio prazo são de criar um plano de vendas para algumas aquisições feitas para a Olimpíada. "Também planejamos diluir a frota com a abertura de novas praças, como Brasília, Curitiba e Belo Horizonte”, afirma.

Com isso, a expectativa conservadora da LDS é crescer ao ritmo 35% e 40% nos próximos cinco anos, após o alto investimento feito para os Jogos. "Não dá para pensar em crise: tem que fazer acontecer", finaliza Leonardo.