Negócios

O mercado americano na mira do franchising nacional


A Associação Brasileira de Franchising (ABF) e a Apex vão apoiar as redes brasileiras interessadas em se estabelecer nos Estados Unidos, a exemplo do que já fez a Giraffas (acima)


  Por Karina Lignelli 28 de Outubro de 2015 às 11:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


O Giraffas já está por lá. Assim como a Chilli Beans e O Boticário. Mas o objetivo agora é levar franquias brasileiras para iniciarem operações nos EUA, para ampliar ou estimular sua presença no maior mercado consumidor do mundo.

Ou para que a internacionalização se torne parte de uma estratégia maior, que contribua para melhorar os resultados ante o cenário de recessão no mercado interno. Com isso, a ideia é chegar a 180 redes brasileiras no exterior até o fim de 2016. Hoje, são 106.

Essa é a meta do projeto “Franchising Operation USA”, convênio fechado entre a Associação Brasileira de Franchising (ABF) e a Apex- Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), divulgado no último dia 24 de outubro. 

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Mesmo sendo o principal destino das franquias brasileiras no exterior, a participação nos Estados Unidos ainda é tímida, com 31 marcas no total.

“Apesar de o nosso modelo ser inspirado no americano, ele é muito verticalizado. A ideia é ser mais efetivo nesse processo para que as redes ganhem capilaridade”, afirma André Friedheim, diretor internacional da ABF.

Na fase inicial, o projeto selecionará, em novembro próximo, de 10 e 15 redes brasileiras que já possuam um plano de negócios com esse foco para se instalar na sede da Apex, em Miami.

A partir daí, as selecionadas poderão iniciar o desenvolvimento e a prospecção de negócios para estruturar suas operações por lá. 

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“A ideia é criar um cluster de franqueadoras em um mercado prioritário como o americano, além de ajudar fomentar mais marcas brasileiras mundo afora”, afirma.

O programa, com início previsto em março de 2016, terá duração de um ano. As empresas alocadas no escritório da Apex compartilharão recursos e custos – cerca de US$ 6 mil anuais para cada uma, segundo o diretor.
 
AGIR LOCAL, PENSAR GLOBAL

Para as franqueadoras que contarão com o apoio da Franchising Operation USA, há diferentes maneiras de começar, de acordo com o modelo que melhor se encaixe em seu ramo.

Exemplo disso é a franquia unitária, em que se pode apenas vender e dar suporte a um franqueado local da marca –algo disseminados em mercados próximos ao Brasil, como o Paraguai.  Também podem abrir lojas próprias e únicas em determinadas cidades americanas, como fez a Chilli Beans.

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É possível se expandir pelo sistema de master-franquia, ou com um area developer (empresa que compra os direitos da franqueadora para explorar uma região). Assim fizeram, no Brasil, as redes de restaurantes Johnny Rockets e Red Lobster.

Outra opção é via joint venture, por meio de associações com parceiros locais. “Vivendo o dia a dia do mercado americano, a empresa poderá entender se é ou não propício para o seu negócio”, afirma Friedheim.

Algumas marcas que já tomaram a iniciativa por conta própria e foram bem-sucedidas –caso do Giraffas, que hoje conta com dez lojas próprias em Miami, no estado da Flórida.
 
Há ainda a Emagrecentro, que agora inicia operações na região com estratégia semelhante. Quem já está estruturado, como o Giraffas, participará dos eventos e rodadas de negócios promovidos pelo projeto para exibir sua experiência aos novos interessados.  

Mas, apesar do interesse maior de muitas redes em seguir para Miami, devido ao domínio latino, a ideia é levar o projeto para outras regiões com escritórios da Apex. Como Atlanta (no estado da Geórgia), onde, segundo afirma Friedheim, os custos de implantação são menores.

“Vale lembrar que não adianta querer ir para o mercado externo pensando só na comunidade brasileira", acrescenta. "É preciso pensar de forma global.” 

Outras informações sobre internacionalização de franquias podem ser consultadas no site da ABF.

CAMINHO INVERSO

Dados do US Bureau of Economic Analysis mostram que, em 2013, os FDIs (investimentos estrangeiros diretos, na sigla em inglês) vindos dos Estados Unidos para o Brasil totalizaram US$ 78,094 milhões. No sentido oposto, foram enviados apenas US$ 14,852 milhões.

De olho nesses números é que Enrique Ortiz, ministro de assuntos comerciais da embaixada dos Estados Unidos e sua equipe, estão desenvolvendo um projeto para que o país se torne o primeiro parceiro comercial.

Com a recessão econômica e a alta do dólar, fica mais difícil comprar produtos e serviços americanos “de alta categoria”, como afirma Ortiz. Por isso, foi criado um grupo de trabalho para dar apoio técnico e assistência às empresas americanas que queiram investir ou se instalar aqui.

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Mas também para as empresas busquem oportunidades e fundos de investimento para poder levar seus negócios para os Estados Unidos.

“Além de ser o maior mercado consumidor do mundo, a ideia é que o nosso país seja uma plataforma de crescimento de empresas brasileiras para mercados internacionais”, diz.  

Questionado se a recessão ou a perda do grau de investimento do Brasil não assustam os prováveis investidores americanos, Ortiz diz que a reação é exatamente oposta: 95% dos interessados acreditam que a crise não será permanente, e olham o país no longo prazo.

Como exemplo, ele cita a rede Marriot, que planeja abrir 11 hoteis por aqui até 2016. Ou a Mars (dona da marca de confeitos M&Ms), que na semana passada anunciou que vai investir R$ 1 bilhão no Brasil até 2020, para suas operações espalhadas em três cidades no estado de São Paulo.

ORTIZ: ESTADOS UNIDOS COMO PRIMEIRO PARCEIRO COMERCIAL/DIVULGAÇÃO

“As empresas que já estão no Brasil não estão saindo, apenas ajustando orçamentos e operações. Já as que querem vir, estão pedindo consultoria a apoio para encontrar parceiros qualificados o quanto antes”, afirma.

Friedheim, da ABF, confirma. Só no franchising, há entre 20 e 30 marcas americanas entrando no Brasil – caso da Ben & Jerry's, uma subsidiária da Unilever.  

Mesmo sendo o segundo mercado para exportação do Brasil (a China é o primeiro), os Estados Unidos é o primeiro mercado em produtos manufaturados.

Por isso, segundo ele, é preciso reformular nossas políticas para realizar as trocas comerciais mais facilmente – beneficiando inclusive as pequenas e médias empresas.